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Cão passageiro, cão estrito,


"Noticias do bloqueio - fascículos de poesia" 
1960
Alexandre O'Neill

Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui.
Cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia.
Cão estouvado de alegria,
Cão formal da poesia,
Cão-soneto de ão-ão bem martelado,
Cão moído de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pre-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema !

Por não falar correctamente francês


Julho 1957 (Fascículo nº 2)

Mário-Henrique Leiria

Intermédio Parisiense

Por não falar correctamente francês
já muita gente se tem enganado
acerca de viagens
Ao chegarem a Paris
vêem que...... afinal.......a estação
é mesmo a de Estarreja.

Isso não me aconteceu a mim
a mim.......conhecedor de línguas
e de gentes
conhecedor de várias latitudes
mais ou menos habitadas
a mim......que sentado num comboio
não espero que me peçam o bilhete
para saber que vou afanosamente útil
em viagem

Mal lá cheguei
— e já lá vão tantos anos ! —
eu.....que sou viajado
vi logo que estava em Paris
Falei francês como se calcula
(nem outra coisa devem fazer
as pessoas que vão a Paris)
e pediram-me esmola
Dei-a em francês
que para isso me tinham meus pais
mandado à escola

Cosmopolita e informado
visitei com a decência e as maneiras
recomendadas
tudo o que para tal estava
em situação própria
À beira do Sena
— aí a recomendação
é só para Notre Dames —
pediram-me esmola
Dei-a em francês.......evidentemente
que eu falo correctamente francês

Mário Henrique é o nome do autor tal como referido no livro(inho - sem desprimor), mas julgo que posso, sem erro, acrescentar Leiria, atendendo ao estilo e à ironia.

Reuniste os estilhaços


"Notícias do bloqueio - fascículos de poesia"
1957
António José Fernandes
Os amantes verdadeiros
Reuniste os estilhaços 
da minha face partida

Ensinaste-me a frescura 
da respiração completa

Um rio de palavras novas 
fertiliza os meus desertos

Dissipaste o pesadelo 
acendendo os meus cigarros

Se o mundo fosse aceitável 
meu amor seria azul

A  paisagem  disponível 
é negra como o carvão

Amanhã serão alegres 
os amantes verdadeiros

A gónica noite estremece


1959
RUI  KNOPFLI

Dawn

A gónica noite estremece
e despedaça-se
lá fora em chuva
nas vidraças.
Das   sombras,   das   solidões.
dos recantos recônditos
da noite e da chuva
saem homens.
Pela crosta da terra passa
um frémito de arrepio.
Chove.
Chove em África.
É noite.
É noite em África.
Mão desmedida ergue-se
no breu,
corpo da terra que as águas
fecundam, impregnam.
Silêncios, hesitações,
sono de séculos, jugos
racham em surdina.
Jogamos «bridge» na tepidez
do «living»,
reclinamo-nos na norma
penumbra erótica
dos cinemas,
ou dormimos em calma
digestão.
Para lá
da noite angustiada
monótono acalanto ergue
a voz.
No inescrutável,  nas  sombras,
nos recantos recônditos de agónïca noite
África desperta…

Quando os deuses chegaram



1959(?)
JOÃO RIBEIRO MELO
Efeméride
Quando os deuses chegaram 
O  sol  já não tinha significado 
E o verde dos prados era só um pouco de clorofila.   

Os deuses vieram numa longa fila estropiada 
Com os aleijões envernizados e os velhos truques 
...........................reaprendidos 
...E tiveram uma recepção inesperadamente sensacional:   

B. Mille contratou Ravana para a vaga de Humphrey 
.............................Bogart 
E os quatro braços de Kali embalando um Eros 
..............................gonorreico 
Foram o sketch do dia das câmaras de T. V.  

E eis como os demiurgos estremunhados pelo Cronos 
Com a espantosa notícia da fissão do átomo 
Correram um ano de luz para adorar o novo Júpiter   

E   depararam — surpresa   das   surpresas ! — 
Com   uma  raça  de  humanoides  civilizadíssimos 
Que os  levou  em  triunfo com  música de Armstrong.