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A primeira forma é ainda


"Entre duas memórias"
1971
Carlos de Oliveira
A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas;
mas todas pesam,
elaborando as leis da queda:
e caem; graves; reduzidas
ao espaço do seu peso;
o vôo é o singular abstracto,
melhor, a metáfora das asas,
que subentende coisas
por enquanto sem leis;
mas o plural, os voos, não:
tornam as formas nítidas,
limitam-nas à sua opacidade;
e a cada impulso no ar,
o peso reconduz os corpos
ao início do vôo:
os voos são regressos.

Na poesia


"Sobre o lado esquerdo"
1969
Carlos de Oliveira
Lavoisier

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Rumor de água


"Poesias - Carlos Oliveira"
1962
Carlos de Oliveira

Rumor de água, 
na ribeira ou no tanque ?


O tanque foi na infância 
minha pureza refractada. 
A ribeira secou no verão.


Rumor de água 
no tempo e no coração.


Rumor de nada.

O sol e o amor são virtudes


"Colheita perdida"
1948
CARLOS DE OLIVEIRA
Cantiga

O sol e o amor são virtudes 
como o vento e a juventude: 
Pecado é esta clausura 
que nos fala de virtude. 
Teus desejos como as aves 
voem da sombra onde estão: 
A virtude é a liberdade, 
o pecado é a solidão. 
Que o vento te despenteie 
e o sol te doire o sorriso: 
Para perdoar a morte 
é que o amor é preciso.

À luz deste sonho estelar


"Cadernos do meio-dia 3"
1958
CARLOS DE OLIVEIRA

Improviso sobre um verso de Afonso Duarte
.......................................São as aves demais para chorar ?

À luz
deste sonho estelar
a que chamam luar
e que é apenas o silêncio branco
das pedras tumulares
sobre os ossos humanos,
são as aves o menos que choramos.

Lágrimas vivas
dum olhar terrestre
que a loucura escurece,
lá vamos nós,
lá somos, Mestre,
aquelas sombras flutuando no luar.
a
E no entanto a Terra,
esse magoado coração do espaço,
chama ainda por nós.
a
Que lhe diremos, Mestre?
tão pobres e tão sós.