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De repente calou-se a trompete

De Vasco Costa Marques
De repente
calou-se a trompete
o embaraço caiu no salão
ninguém levou as damas ao bufete
a menina fugiu com a mão

Azedou a bela companhia
o porteiro cuspiu para o chão
a direcção disse pois que assim
não sabia
se ali haveria
penetras ou não

Deixa-me o desengano desta noite

De Vasco Costa Marques
Deixa-me o desengano desta noite
tão sabido e esquecido em cada dia
com a sua indigestão a dar sentido
ao bafo das palavras macias

Seja eu o cuidado dos amigos
de propósito desenterrado
para chorarem lágrimas sinceras
com grande espanto dos criados

Sem os meus vermes não seriam sérios
e bons amigos nesta noite agreste
quem sabe mesmo se estariam vivos
se eu não açambarcasse toda a peste? …

Passa-me um beijo (cala as frases claras)
vale mais do que trinta véganines
E enquanto dura a autópsia encostemos as caras
às luzes das vitrines

E nada disto é pois de confiança

De Vasco Costa Marques
E nada disto é pois de confiança
E nada disto vive integralmente
A parteira morreu com a criança
O grito sufocou entre parêntesis

Bolor nas velhas cartas na flor seca
O cravo abandonado ainda ecoa
Saber partir não quer dizer que chega
............................................................
Becos demais nas noites de Lisboa

A embalagem perdida

De Vasco Costa Marques
A embalagem perdida
o restinho da bisnaga
esferográfica entupida
uma coisinha de nada

a malhasinha caída
a ligadura esfiada
a maquineta de pilhas
que já não são fabricadas

o atraso no horário
a torneira mal vedada
o "Citro" utilitário
com usura acoplada

o fósforo que não acende
a espuma da imperial
a edição que se suspende
no fascículo número tal

a meia hora na bicha
a resistência queimada
o insecticida que esguicha
só meia lata e mais nada

a moedinha sumida
na cabina avariada
vida que se vai esvaída
mal vendida mal comprada.

Deus inscreveu-se

De Vasco Costa Marques
Deus inscreveu-se
na Associação de Autores
para ver se recebe
alguns direitos
Até que há praí uns tipos
que querem plagiá-lo
e como está
prevenido
como se sabe ele não dorme
que nunca se sabe
pois criou homens
capazes de tudo clonar

Ter esperança não é pecado

De Vasco Costa Marques
Ter esperança não é pecado
Se vive melhor com ela
quem a tem que lhe aproveite

Sente um gato no telhado?
ponha no vão da janela
um pirezinho de leite