Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro geral - P. Europa América. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cancioneiro geral - P. Europa América. Mostrar todas as mensagens

Também viajei pela paisagem


"Poemas de sequência"
1958
Carlos Monteiro dos Santos

Também viajei pela paisagem,
vi a paz citadina
e os delitos dos jardins públicos.

O cartaz com as pernas da vedeta,
pés descalços
e o olhar do padre.

Também vi e de tudo só sobrou,
além do polícia a olhar
a mulher infinita de alguém a passar.

Céus, nuvens, ondas, ventos,


1958
EGITO GONÇALVES

Anúncio no ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha romântica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um verão na praia
— pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fjords e vivia num barco
encostado no cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção...
Existe? Fugiu à ocupação? Casou? Teve filhos?
Engordou? Odeia os barcos? Morreu prisioneira?

'Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente, ..

Notícias do seixo branco que trocamos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

Deixai que a vida sobre vós repouse

1955
JORGE DE SENA

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
26/03/1954

Sê paciente, espera

"Os amantes sem dinheiro"
1950
EUGÉNIO DE ANDRADE

Sê paciente, espera
Que cada palavra amadureça
E se desprenda, como um fruto,
Ao passar o vento que a mereça

Trago nas mãos o calor.

"Os olhos sem fronteira"
1953
ORLANDO DA COSTA


Trago nas mãos o calor
Que deponho a cada instante
No teu rosto que aspira a primavera que se pisa no chão
E espera o outono das folhas e dos caminhos
E desce comigo ao sabor
Que à terra dá cada breve estação

Trago-te o calor e as mãos inteiras
E nos olhos o horizonte dos nevoeiros no enredo das
....florestas
Das vinhas colhidas pêlos amantes reunidos à beira
....das manhãs
E dos barcos e das pombas em planícies sem trincheiras

Trago para nós a largura das terras e do mar
Onde se perpetue o amor dos homens
Na paz de cada olhar
Vasco Costa Marques e Orlando da Costa foram amigos e partilharam o gosto pelas letras e a profissão: ambos trabalharam em publicidade.