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Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)


"DISCURSO 
sobre a reabilitação do real quotidiano"
1952
rio Cesariny de Vasconcelos


Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
— fumar, quere-se dizer.

Esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro com versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável.

O Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(Que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas dos outros)
Aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).
Sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
— Antes andar por ai relativamente farto
antes para tabaco que para Cesariny
(Mário) de Vasconcelos

Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos


"Cântico do país emerso"
1961
NATÁLIA CORREIA

Não sou daqui.  Mamei em peitos oceânicos 
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava 
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos 
Sou de mim mesma pomba húmida e brava

De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros 
Barbeados pelo sol penteados pela bruma! 
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma 
A génesis a pluma do meu país natal.

Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares 
Levai minha nudez minha beleza 
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui.  A minha pátria não é esta 
Bússola quebrada dos impulsos

Vá uma morte loura

"Manual de prestidigitação"

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS




Coro dos Maus Oficiais de Serviço na Corte de Epaminondas, Imperador


uma morte loura
simpática
acolhedora
que não dê muito muito que falar
mas que também não gere
um silêncio
excessivo


uma morte boa
a uma boa hora
uma morte ginasta .... tradutora
relativamente compensadora
uma morte pedal espinha de biciclete quase cara-
........ pau
com quatro a cinco soltas a dizer
que se ele não tivesse ido embora
tão jovem ...... tão salino
boas probabilidades haveria de ter
de vir a ser
dos melhores poetas pós-fernandino

vá lá ..... vá lá Mário
uma morte
naniôra
que não deixe o esqueleto de fora como nos casos
...... do mau gosto
os esqueletos têm sempre um quê de arrependidos
se bem que por aí já convinha lá isso já também
...... era verdade


o demais demora
e
francamente
nunca será teu

vá vá vamos embora

custava-te menos agora
e ainda ias para o céu