Outros livros, outros poetas

Manuel Lopes

"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela: o embalo, o ritmo de remo de bote num mar docemente ondulado... Mas, de súbito, o guarda estacou. Apurou os ouvidos. Esteve assim suspenso uns segundos, entre a realidade e o sonho.

Nessa breve suspensão, escutou dentro do cére­bro um chocalhar de vozes e ecos. Toi teve a nítida sensação de que emergia do fundo como um pes­cador de pérola; e começou a cantar em voz alta;


«Sê rosto ê sol de nha pobreza

Nha rosto ê ceu que tâ varia;

Se sol bem, ta fazê claréza

Mas s‘el dexó'm, scuro tapâ...»

— Meu Deus! — exclamou Toi. Ficou a principio estupefacto. A quadra era estupenda."

..........

Galo a cantar na baía. Já é madrugada, o sol vem perto. Mas Maria é o verdadeiro sol. E como ela está ausente, a escuridão continua... Vai pensando e trauteando... A segunda quadra sai-lhe inteirinha, numa catadupa de palavras e música, como ribeiro que transbordasse do leito:

«Já canta galo na baía;

Sol câ tâ longe de somâ.

Cuma'm tâ longe de Maria

Scuro tâ continuâ...»


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