Do que nunca serei regresso

De Vasco Costa Marques
Do que nunca serei regresso
Como a chuva é do vento eu sou daqui ...
marinheiros para sempre submersos ...
quantos corpos vazios que vesti

Uma árvore ao fim da tapada
uma esquina na mesa de um bar
uma praia de areia privada
a coutada onde não vou caçar

a moeda na slot machine
o olhar entrevisto na gare
a memória submissa de um crime
um destino para transplantar

Encravou-se a roleta russa
são cinzentas as manchas de sangue
são as mesmas as sombras convulsas
dos bordéis de Pequim a Los Angeles

O pedrado sonâmbulo trouxe
novo tema para ser odiado
de repente o livro fechou-se
e finou-se no quarto fechado

Como o cego na escada do Metro
como a hora dos travestis
como duas alianças no prego
como o lixo de um dia feliz ...

No percurso de uma estátua equestre
no dizeres-me naquela manhã
no rasgão do palimpsesto
na meada enleada de lã

Mercenário de todas as Franças
Vagabundo de qualquer Brasil
explodiram-me as veias da esperança
em Chernobyl

1 comentário:

*izil* disse...

Gosto muito das poesias de Vasques Costa Marques, são forte.
Tem conteúdo.
Parabens pela escolha sempre
izil