Martinho tinha o mar
De Vasco Costa Marques
Martinho tinha o mar
na ideia e no corpinho
Nasceu ou foi por assim dizer
nado a nadar
desde o amniótico
à àgua do alguidar
e à pia de água benta
onde o foram lavar
depois do grito de Ipiranga
onde atestou a sua zanga
e a determinação
em sobrenadar
nesta parcela do sistema solar
onde o tinham lançado
sem ao menos alguém lhe perguntar
se era aqui que ele queria aterrar
e em verdade vos digo
e à fé de quem sou
que aterrado ficou
"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela
"O galo cantou na baía"
1959
1959
Manuel Lopes
"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela: o embalo, o ritmo de remo de bote num mar docemente ondulado... Mas, de súbito, o guarda estacou. Apurou os ouvidos. Esteve assim suspenso uns segundos, entre a realidade e o sonho.
Nessa breve suspensão, escutou dentro do cérebro um chocalhar de vozes e ecos. Toi teve a nítida sensação de que emergia do fundo como um pescador de pérola; e começou a cantar em voz alta;
«Sê rosto ê sol de nha pobreza
Nha rosto ê ceu que tâ varia;
Se sol bem, ta fazê claréza
Mas s‘el dexó'm, scuro tapâ...»
— Meu Deus! — exclamou Toi. Ficou a principio estupefacto. A quadra era estupenda."
..........
Galo a cantar na baía. Já é madrugada, o sol vem perto. Mas Maria é o verdadeiro sol. E como ela está ausente, a escuridão continua... Vai pensando e trauteando... A segunda quadra sai-lhe inteirinha, numa catadupa de palavras e música, como ribeiro que transbordasse do leito:
«Já canta galo na baía;
Sol câ tâ longe de somâ.
Cuma'm tâ longe de Maria
Scuro tâ continuâ...»
É o tempo dos lobos
Para quem se interessa pela poesia medieval galega e portuguesa
Uma base de dados que "disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música {quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais)"
Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.

"Poesia toda"
1990
1990
Herberto Helder
(in Última ciência - 1988)
Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
A visão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
— Constelação ao vento avassalando a casa.
Não percamos, amor, um só momento
Vasco Costa Marques
Não percamos, amor, um só momentodo percurso que a vida nos concede.
Que a vida ganhe em nós um novo alento.
Sempre nos vale a pena um gesto mais,
um verso mais, um som ainda que breve.
Quanto mais repartidos mais reais.
Para vós, para vós que retomais
mais adiante o fio que a vida teve
em nós cortado, o riso de hoje vai
como um insecto alado sai
do casulo rasgado.
Café do Gelo
"Viagem contra o silêncio"
(1977)
(1977)
José Carlos Gonzalez
CAFÉ DO GELO
A José Sebag
Regresso ao velho caféaqui ainda se lê sob o olhar do gerente
nas mesas de mármore negro há desenhos muito antigos
à sombra do açucareiro metálico e das moscas
que pousam em citadino rebanho sobre a chávena fria
era um tempo feliz e de esperança e nervos
um tempo de impaciência e sonhos os mais loucos
perto e longe como as miragens extremas
nos extremos desertos da ausência
a chávena de louça
com aresta verde
um bordo minado por dentes
de cariátides precoces
um resto de batôn sabe-se lá que triste
ao centro a lengalenga dos construtores de prédios
e a passagem volátil dos pederastas
pelos flocos de chantilly
era uma outra luz um outro movimento dos espelhos
noites para sair ao longo dos passeios molhados
a ver junto das calhas dos eléctricos
as faíscas azuis e brancas da soldadura autogénia
manipulada por homens de rosto fechado por máscaras
obrigados a debruçarem-se para as raízes dos prédios
regresso ao velho café e as suas novas galas
um fio de trepadeiras sobe pelas escadas
ao cimo as frigideiras de barro estrugem com o bife e o louro
regresso ao velho café com pessoas sentadas
com almas sentadas e o criado velho
chorando as coisas passadas atrás dos bastidores.
Lisboa, Novembro 63
Duende rival de Pan

O "Homem do gelo"
De Vasco Costa Marques
Duende rival de Pan
no souto de avelaneiras
ao fim dos velhos carvalhos
na doce cana soando
melancolias de fauno
ecos de vento silvando
trajectos de rudes lanças
de antepassados herança
cálcio que mata mamute
osso que não se discute
e foi encontrar albergue
no avô mumificado
na crista do icebergue
O "Homem do gelo", múmia de um homem morto há 5.300 anos e encontrada congelada nos Alpes em 1991, foi o pretexto para VCM escrever estes versos. Muitas das coisas que escrevia resultavam, como esta, de brincadeiras ou reflexões em torno de noticias que por uma ou outra razão lhe chamavam a atenção.
Le dromadaire
Há sempre tempo para repensar

De Vasco Costa Marques
Há sempre tempo para repensar
Quando a pedra se acaba a torre recomeça
e milhares de línguas reinventam esperantos
a fogueira na noite a canção sussurrada
a mão reencontrada o cúmplice acordar
Manhã (não Amanhã) a manhã que perdura
de noite para noite se renova
a bem temperada estrofe ritmo inesperado
quem sabe como e quê quem sabe quando
O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.

"Retábulo das matérias"
2001
2001
Pedro Tamen
(Olhos e outras coisas)
1
O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.
Corpo só chegada.
Húmus e sumos, calores e abrigos.
Teus olhos, teus perigos.
Lava-cota e fontana. Entremezes
teus dedos às vezes.
Vezes de colores, vezes de colares.
Terrores, sete mares.
Setestrelo também nos olhos abertos
(noites ou desertos),
perfumes, molduras, ronda posição
do braço e da mão
(morna redundância de um nome qualquer:
teu nome é mulher).
Que olhas, que esperas? Será que adivinhas
cidades não minhas?
Meus olhos CP de estação esquecida
(chegada, partida).
Encanar a perna à rã
De Vasco Costa Marques
Encanar a perna à rãpode esperar por amanhã ...
Bem sei que a vida no charco
parece que nem avança
mas sem ser Gonçalves Zarco
nenhum mar me dá quebranto
por tanto que o mar é largo
na tormenta e na bonança
Se não dei com porto Santo
não vou por isso às do cabo
não vendo a alma ao diabo
nem vou assentar o rabo
no Endireita da Esperança
Era uma vez em 43
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...

(1946)
Mário de Sá-Carneiro
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
— Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caíu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...)
O futuro ergue-se tarde
Carlos, sossegue, o amor

(2001)
Carlos Drummond de Andrade
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
O mar veio visitar-me
O mar veio visitar-me
ao hospital
sem hora de visita
ou diagnóstico
penduram-no num frasco
de cabeça para baixo
e rabo para o ar
e chamaram-lhe soro fisiológico
Vasco Costa Marques sofreu dois AVCs. Entre o primeiro e o segundo, de que nunca recuperou totalmente, escreveu e publicou "Algumas trovas de haver o mar" e "venham de lá esses ossos". A "experiência" da doença aparece várias vezes na sua obra, frequentemente com ironia, como é o caso deste pequeno poema.
Na foto, Cecília Costa Marques, sua mulher, na sala de espera do hospital S. Francisco Xavier no dia em que VCM aí deu entrada com o segundo AVC.
ao hospital
sem hora de visita
ou diagnóstico
penduram-no num frasco
de cabeça para baixo
e rabo para o ar
e chamaram-lhe soro fisiológico
Vasco Costa Marques sofreu dois AVCs. Entre o primeiro e o segundo, de que nunca recuperou totalmente, escreveu e publicou "Algumas trovas de haver o mar" e "venham de lá esses ossos". A "experiência" da doença aparece várias vezes na sua obra, frequentemente com ironia, como é o caso deste pequeno poema.
Na foto, Cecília Costa Marques, sua mulher, na sala de espera do hospital S. Francisco Xavier no dia em que VCM aí deu entrada com o segundo AVC.
Quand je ne serai plus,
Izumi Shikibu
Quand je ne serai plus,Pour avoir dans un autre monde
Un heureux souvenir
Je voudrais une fois encore
Te rencontrer aujourd'hui
Parce qu’en pensant à elle
(Japão Sec. IX)
Ono no Komachi
Parce qu’en pensant à elle
Je m’étais endormi
Sans doute ele m’apparut.
Si j’avais su que c’était um rêve
Je ne me serais certes pas réveillé
In Anthologie de la poésie japonaise classique, Poésie/Gallimard
Que farei no outono quando ardem

"As aves"
1969
1969
Gastão Cruz
Que farei quando tudo arde ?
Sá de Miranda
Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono
Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz
Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se
prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde
E o mar fez-se
Fácil
Qual tem a borboleta por costume

Qual tem a borboleta por costume,
que, enlevada na luz da acesa vela,
dando vai voltas mil, até que nela
se queima agora, agora se consume,
tal eu correndo vou ao vivo lume
desses olhos gentis, Aônia bela ;
e abraso-me, por mais que com cautela
livrar-me a parte racional presume.
Conheço o muito a que se atreve a vista,
o quanto se levanta o pensamento,
o como vou morrendo claramente;
porém, não quer Amor que lhe resista,
nem a minha alma o quer, que em tal tormento,
qual em glória maior, está contente.
Uma pequena, quiçá abusiva, intervenção do "fazedor" do blog a propósito da data e dos tempos

Pois é, também tenho direito e acho que é preciso.
Para comemorar o 25 de Abril.
Por várias razões.
A primeira, porque me é penoso encontrar, cada vez mais, a propósito da crise e do FMI, louvores aos "velhos tempos" e ao antigo regime. Talvez, quem sabe, alguns deles venham dos a quem bastou ir "para a repartição sem gravata" que VCM refere, mas acredito que não. Há quem já não se lembre ou não tenha vivido esse tempo.
Para relembrar ou mostrar, deixo esta imagem do Portugal dos "bons tempos". E não me digam que é por ser antiga, embora de facto o seja, porque nos anos 70, mesmo antes do 25 de Abril, muito Portugal estava ainda assim, tirando, em parte, o pé descalço que foi "eficientemente" tratado por decreto e repressão policial. Eu vi. Eu estava lá.
A segunda, porque hoje - 24 de Abril de 2011 -um cronista dos nossos jornais falava da facilidade com que Portugal esquece. E eu lembrei-me, como me acontece frequentemente, da forma como uma guerra em que andámos envolvidos 13 anos nos "esqueceu". Entre aspas, sim, porque a minha opinião não é que tenhamos esquecido, é que silenciámos. Contrariamente ao que diz o cronista, acho que temos esta coisa de silenciar mais do que esquecer.
Eu andei lá, pelas guerras, em Moçambique, Cabo Delgado, o que não foi nem "pêra doce", nem, já gora, um Vietname, e não posso deixar de estranhar que, vivendo e cruzando-me todos os dias com pessoas que também por lá andaram - e fomos quase todos os que hoje temos entre 70 e 60 - nunca se fale disso. Queira-se ou não, tínhamos 20 anos e estivemos dois anos a ver morrer e, nalguns casos, a matar. E "esquecemos"?
A fotografia da mensagem anterior, que acompanha a diabrite sobre a guerra feita na época por Vasco Costa Marques e que nos"bons velhos tempos", se publicada, seria suficiente para o levar de novo à prisão, foi tirada por mim.
Íamos em "bicha de pirilau", como chamávamos a este andar em coluna que, no caso e contra o costume, está bastante "abandalhada", de armas ao ombro, em resultado de já andarmos há vários dias no mato sem sinal de Frelimo. Quem, em último lugar, olha para trás é o Cabo enfermeiro, de nome Barbosa. Um bom amigo, que hoje vive para as bandas do Seixal.
Para terminar, só quero deixar claro que não ando desesperado para falar desses tempos. Não, não esqueci mas também não penso nisso senão quando algo, muito espaçadamente, me empurra para tal. Mas acho estranho, sempre achei, e houve mesmo alturas em que me revoltava contra um silêncio que sentia imposto, antes e depois do 25 de Abril. Sobretudo depois, por estranho que pareça.
E habituei-me a ignorar uma parte importante - boa ou má não importa - da minha vida. Como muitos outros.
E cá estou, eu "fazedor do blog", num desabafo a propósito da data e de uns "versinhos" que encontrei entre os papéis de Vasco Costa Marques.
No ultramar está-se
A muitos bastou a solução barata
Maná de cão vagabundo
Disse Inês que me queria

(1940)
Francisco Rodrigues Lôbo
Disse Inês que me queria
No tempo que me enganava;
E eu queria, ela zombava.
Deu-me mostras e sinais
Que me amava de verdade,
Cativou minha vontade
Para assim querer-lhe mais;
Cuidei que eram naturais
Os extremos que mostrava,
E eu queria, ela zombava.
Era de mim tão contente
Que assim mesmo tinha inveja,
Que o que muito se deseja
Logo se crê facilmente;
Logo ela era tão diferente
Que em tudo o que me tratava
Eu queria, ela zombava.
Foi-me assim, zomba zombando,
Vencendo por graça e riso;
Sem nunca me amar de siso,
O siso me foi tirando;
Fiquei doido, como quando
Pelo amor, que me mostrava,
Eu queria, ela zombava.
Diziam-me os guardadores:
— Olha ora por ti, Joane,
Deixa Inês e não te engane,
Que ela tem outros amores. —
Cuidavam que eram melhores
Os que comigo tratava:
E eu queria, ela zombava.
Memória não é porta giratória
De Vasco Costa Marques
Memória não é porta giratória
em farsa de Oliude
Memória é outra estória não apenas
intriga de rival ou nota falsa
bomba de terrorista mercenário
Pode ser - mas não creio - trampolim
para qualquer Catão fora de prazo
ou hacker trapalhão
pois quando incautamente a compaginas
não mostra ser senão a sombra peregrina
que vem dizer “Ninguém!...”
à porta de serviço
e sabes bem
“ninguém” é sempre alguém
nem que seja o fantasma
que se infiltra na sala
a sacudir dos pés a poeira do Além
a tossir sobre nós ataques de asma
baralhando epopeias de cruzadas
e intrigas templárias
hoje enfim preferindo-se em eventos
de “champanhe francês” e croquetes
com fotos em revistas “jet set”
Memória para ser reconhecida
tal como a lei impunha ao reformado
terá de apresentar prova de vida
senão é fruto chocho é osso oco e serve só
para passar o tempo
enquanto não se joga o dominó
Conheço uma cidade

"Sentimento do tempo"
1971
1971
Giuseppe Ungaretti
SILÊNCIO
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quase à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abraço de lumes no ar indeciso
suspensos
- Ganhar o bife?
através da fina divisória

"Poemas escolhidos de Samuel Becket"
1970
1970
Samuel Beckett
ASCENSÃO
através da fina divisória
nesse dia em que um filho
pródigo à sua maneira
voltou para a família
oiço uma voz
que comovida comenta
a taça do mundo em futebol
demasiado jovem como sempre
ao mesmo tempo pela janela aberta
pelos ares simplesmente
secretamente
o marulhar dos crentes
o seu sangue esguichou com abundância
sobre os lençóis sobre ervilhas-de-cheiro sobre o seu queridinho
saindo dos seus dedos repulsivos
depois cerrou as pálpebras
sobre os olhos enormes verdes espantados
ligeira
divagando
sobre o meu túmulo de ar
Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho
Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos
De Vasco Costa Marques
Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos
dormi sem perguntar se dormir tem regresso
sem saber em que foz se afundaria o rio
se a moeda teria enfim o seu reverso
Tudo simples tranquilo a beatitude
de um céu estrelado e folhas murmurantes
um fio de água escorrendo no açude
como quem diz “eu espero mais adiante”
Morrer assim é morte sem virtude
Nem dá para caixeiro viajante
Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,

"De ombro na ombreira"
1969
1969
Alexandre O'Neill
QUE VERGONHA, RAPAZES!
Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: — Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
— Bem queria, Sr. 0'Neill! E... as varizes?
No écran da memória o filme corre
QUERERIA saber se a vida também vos pesa

"Vida terrena"
1966
1966
Félix Cucurull
QUERERIA saber se a vida também vos pesa
sobre os ombros. Se os vossos anseios
doem como um peso inútil ou vos levam à esperança.
Se perdidos entre enigmas mendigais às estrelas
uma resposta e sois, em permanente fuga
de vós próprios, eternos peregrinos
desnorteados, tacteando a poeira dos caminhos
buscando em vão a voz insistente que vos chama.
Saber se nas vossas noites o pálido clarão
da existência terrena terá cores de fábula,
e vos enche o peito com um leve tremor
chamejante que vos incendeia as palavras.
Saber se a vossa angústia procura no nosso horizonte
o afago dalgum mito que torne a dor mais suave.
(Tradução de António Macedo com a colaboração de Carlos Oliveira)
No nosso prédio

"Antimundos"
(1970)
(1970)
Voznessenski
ANTIMUNDOS
No nosso prédio
mora o vizinho Bukachkine,
que usa cuecas cor de mata-borrão.
Mas sobre ele — como balões no espaço —
flutuam Antimundos!
Há neles um mágico, pior, há um diabo
que governa o mundo:
Antibukachkine, o académico
que dá beliscões às Lollobrigidas!
Mas o Antibukachkine sonha
visões cor de mata-borrão.
Vivam os Antimundos!
Maravilhas — no meio do que não presta!
Sem estupidez não há inteligência,
não há oásis sem haver Karakum!
Não há mulheres —
existem anti-homens.
E as antimáquinas praguejam nas florestas.
A terra produz sal. A terra produz estrume.
E morre o falcão sem a serpente.
Amo os meus críticos.
No pescoço nu e perfumado
de um deles
brilha uma anticabeça!...
... Gosto de dormir com as janelas abertas
e ver brilhar, algures, uma estrela cadente
e os arranha-céus — suspensos
da barriga do espaço
como estalactites.
E por baixo de mim
cabeça ao contrário
espetando um garfo na barriga do mundo,
vives tu, doce borboleta indiferente,
meu pequeno antimundo!
Porque será que, a meio da noite,
se encontram os antimundos?
Porque se sentam eles, aos pares,
a ver televisão?
Nem duas frases
trocam entre si.
Sentados e já sem etiquetas
(e por isso irão sofrer mais tarde!)
com as orelhas em fogo...
como borboletas.
... Um orador meu conhecido
dizia-me ontem:
«Antimundos ? Ninharias!»
Durmo e viro-me na cama,
pensando, sonolento,
na razão da inteligência científica...
O meu gato é como um receptor
e capta o mundo com os seus olhos verdes.
1961
(Versão de Amando da Silva Carvalho, feito sobre tradução directa do russo de Clara Schwarz da Silva)
Com sete tábuas se faz

De Vasco Costa Marques
Com sete tábuas se faz
uma bateira
com sete mares
um pirata
com que se faz um Onassis
só ele pode saber
quantos tubarões venceu
se foram sete ou setenta
diz-se que sem dar um tiro
Poseidon ri submarino
agente da Lloyd's grega
o capitão das vinte mil léguas
foi chamado para o Tejo
para domar o peixe espada
atómico avariado nos lodos
resistentes
sem contar com a semana
da açorda de marisco
que dá diploma
a quem a faz
se o cliente a come
sem entrar em coma
Aqueles olhos segredando de amor

"40 anos de servidão"
1978
1978
Jorge de Sena
DISSOCIAÇÃO
Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor,
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.
E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo
buscando o seu corpo pele a pele
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.
17/1/39
"40 anos de Servidão", Círculo de Poesia - Moraes Editores, 1978
Toda a vida procurou a árvore das patacas
De Vasco Costa Marques
Toda a vida procurou
a árvore das patacas
mesmo patacas baratas
patacas de bolo rei
mas nem isso mas nem isso
quando apetite exigia
uma de ovos com chouriço
por má sorte ou por feitiço
vinham camarões guizados
ali em cima da draga
cozinhados pelo guarda
na velha doca do pinho
gasosa a cortar o vinho
enquanto a noite se atarda
à procura de destino
Também viajei pela paisagem
Peixe gato
De Vasco Costa Marques
Peixe gato
não consta
que alguma vez
comesse rato
mas também
não sei bem
se alguma vez
o vi no prato
nem mesmo
na casa da vizinha
que dizem não há bicheza
que lhe escape
da cozinha
Aqui estou
Dizem?
Quando a mão de obra

De Vasco Costa Marques
Quando a mão de obra
mete as mãos à obra
que falta?
que sobra?
uma volta à chave
o dedo inquieto
que o raio dispara
o nobre sem sorte
o verdete amargo
na senda (???) da cobra
achada no escombro
pender a cabeça
e não achar ombro
estender a mão
e não achar faca
senão a que corta
a meia torrada
e o café deserto
no peso da tarde
regalo da mosca
no sono do velho
que pediu conselho
por dez mil ou mais
pois tem o cartão
o sessenta e cinco
que comprou depois
de apertar o cinto
Era a primeira vez que nus os nossos corpos

"David Mourão-Ferreira ou a mestria de Eros"
de Vasco Graça Moura
Poema de
David Mourão-Ferreira
de Vasco Graça Moura
Poema de
David Mourão-Ferreira
Praia do Paraíso
Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam
surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez... Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal....E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo
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