Não percamos, amor, um só momento


Vasco Costa Marques
Não percamos, amor, um só momento
do percurso que a vida nos concede.
Que a vida ganhe em nós um novo alento.

Sempre nos vale a pena um gesto mais,
um verso mais, um som ainda que breve.
Quanto mais repartidos mais reais.

Para vós, para vós que retomais
mais adiante o fio que a vida teve
em nós cortado, o riso de hoje vai
como um insecto alado sai
do casulo rasgado.

Café do Gelo


"Viagem contra o silêncio"
(1977)
José Carlos Gonzalez

CAFÉ DO GELO
A José Sebag
Regresso ao velho café
aqui ainda se lê sob o olhar do gerente
nas mesas de mármore negro há desenhos muito antigos
à sombra do açucareiro metálico e das moscas
que pousam em citadino rebanho sobre a chávena fria

era um tempo feliz e de esperança e nervos
um tempo de impaciência e sonhos os mais loucos
perto e longe como as miragens extremas
nos extremos desertos da ausência

a chávena de louça
com aresta verde
um bordo minado por dentes
de cariátides precoces
um resto de batôn sabe-se lá que triste
ao centro a lengalenga dos construtores de prédios
e a passagem volátil dos pederastas
pelos flocos de chantilly

era uma outra luz um outro movimento dos espelhos
noites para sair ao longo dos passeios molhados
a ver junto das calhas dos eléctricos
as faíscas azuis e brancas da soldadura autogénia
manipulada por homens de rosto fechado por máscaras
obrigados a debruçarem-se para as raízes dos prédios

regresso ao velho café e as suas novas galas
um fio de trepadeiras sobe pelas escadas
ao cimo as frigideiras de barro estrugem com o bife e o louro

regresso ao velho café com pessoas sentadas
com almas sentadas e o criado velho
chorando as coisas passadas atrás dos bastidores.

Lisboa, Novembro 63

Duende rival de Pan


O "Homem do gelo"
De Vasco Costa Marques
Duende rival de Pan
no souto de avelaneiras
ao fim dos velhos carvalhos
na doce cana soando
melancolias de fauno
ecos de vento silvando
trajectos de rudes lanças
de antepassados herança
cálcio que mata mamute
osso que não se discute
e foi encontrar albergue
no avô mumificado
na crista do icebergue


O "Homem do gelo", múmia de um homem morto há 5.300 anos e encontrada congelada nos Alpes em 1991, foi o pretexto para VCM escrever estes versos. Muitas das coisas que escrevia resultavam, como esta, de brincadeiras ou reflexões em torno de noticias que por uma ou outra razão lhe chamavam a atenção.

Le dromadaire


(1960)
Apollinaire

LE DROMADAIRE

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d'Alfaroubeira
Courut le monde et l'admira.
II fit ce que je voudrais faire
Si j'avais quatre dromadaires.

Há sempre tempo para repensar


De Vasco Costa Marques
Há sempre tempo para repensar
Quando a pedra se acaba a torre recomeça
e milhares de línguas reinventam esperantos
a fogueira na noite a canção sussurrada
a mão reencontrada o cúmplice acordar

Manhã (não Amanhã) a manhã que perdura
de noite para noite se renova
a bem temperada estrofe ritmo inesperado
quem sabe como e quê quem sabe quando

O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.


"Retábulo das matérias"
2001
Pedro Tamen

(Olhos e outras coisas)
1
O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.
Corpo só chegada.

Húmus e sumos, calores e abrigos.
Teus olhos, teus perigos.

Lava-cota e fontana. Entremezes
teus dedos às vezes.

Vezes de colores, vezes de colares.
Terrores, sete mares.

Setestrelo também nos olhos abertos
(noites ou desertos),

perfumes, molduras, ronda posição
do braço e da mão

(morna redundância de um nome qualquer:
teu nome é mulher).

Que olhas, que esperas? Será que adivinhas
cidades não minhas?

Meus olhos CP de estação esquecida
(chegada, partida).

Encanar a perna à rã

De Vasco Costa Marques
Encanar a perna à rã
pode esperar por amanhã ...

Bem sei que a vida no charco
parece que nem avança
mas sem ser Gonçalves Zarco
nenhum mar me dá quebranto
por tanto que o mar é largo
na tormenta e na bonança

Se não dei com porto Santo
não vou por isso às do cabo
não vendo a alma ao diabo
nem vou assentar o rabo
no Endireita da Esperança

Era uma vez em 43

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...


(1946)
Mário de Sá-Carneiro

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
— Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caíu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...)

O futuro ergue-se tarde


De Vasco Costa Marques
O futuro ergue-se tarde
deixa sonhar o futuro
quem sabe se ele não há-de
acordar de um outro lado
derrubado um outro muro

Carlos, sossegue, o amor


(2001)
Carlos Drummond de Andrade
Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

O mar veio visitar-me

De Vasco Costa Marques
O mar veio visitar-me
ao hospital
sem hora de visita
ou diagnóstico
penduram-no num frasco
de cabeça para baixo
e rabo para o ar
e chamaram-lhe soro fisiológico

Vasco Costa Marques sofreu dois AVCs. Entre o primeiro e o segundo, de que nunca recuperou totalmente, escreveu e publicou "Algumas trovas de haver o mar" e "venham de lá esses ossos". A "experiência" da doença aparece várias vezes na sua obra, frequentemente com ironia, como é o caso deste pequeno poema.
Na foto, Cecília Costa Marques, sua mulher, na sala de espera do hospital S. Francisco Xavier no dia em que VCM aí deu entrada com o segundo AVC.

Quand je ne serai plus,

(Japão, início Sec. XI)
Izumi Shikibu
Quand je ne serai plus,
Pour avoir dans un autre monde
Un heureux souvenir
Je voudrais une fois encore
Te rencontrer aujourd'hui

Parce qu’en pensant à elle

(Japão Sec. IX)
Ono no Komachi

Parce qu’en pensant à elle
Je m’étais endormi
Sans doute ele m’apparut.
Si j’avais su que c’était um rêve
Je ne me serais certes pas réveillé

In Anthologie de la poésie japonaise classique, Poésie/Gallimard

Que farei no outono quando ardem


"As aves"
1969
Gastão Cruz

Que farei quando tudo arde ?
Sá de Miranda

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

E o mar fez-se


De Vasco Costa Marques
E o mar fez-se
quando a primeira nave
ao mar se fez

Tronco de árvore escavado
ou galera de escravos
aventura que rasga
azeite de acalmia...

Quantos ossos são hoje
doce areia
quanto suor salgado
às águas torna...

Quanto do mar é morte
quanto do mar Maria

Fácil


José Augusto Seabra
Fácil
é desprender as mãos numa carícia
e largá-las num longo esvoaçar
de dedos.
Fácil
é esquecer os olhos num
inesperado rosto.
Fácil
é a graça do fruto que
colhido
se abandona, húmida polpa
e sumo.

Mas fácil
mais fácil é somente reclinar
o gesto
e acordar-te.

Qual tem a borboleta por costume


Qual tem a borboleta por costume,
que, enlevada na luz da acesa vela,
dando vai voltas mil, até que nela
se queima agora, agora se consume,

tal eu correndo vou ao vivo lume
desses olhos gentis, Aônia bela ;
e abraso-me, por mais que com cautela
livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
o quanto se levanta o pensamento,
o como vou morrendo claramente;

porém, não quer Amor que lhe resista,
nem a minha alma o quer, que em tal tormento,
qual em glória maior, está contente.

Uma pequena, quiçá abusiva, intervenção do "fazedor" do blog a propósito da data e dos tempos


Pois é, também tenho direito e acho que é preciso.
Para comemorar o 25 de Abril.
Por várias razões.
A primeira, porque me é penoso encontrar, cada vez mais, a propósito da crise e do FMI, louvores aos "velhos tempos" e ao antigo regime. Talvez, quem sabe, alguns deles venham dos a quem bastou ir "para a repartição sem gravata" que VCM refere, mas acredito que não. Há quem já não se lembre ou não tenha vivido esse tempo.
Para relembrar ou mostrar, deixo esta imagem do Portugal dos "bons tempos". E não me digam que é por ser antiga, embora de facto o seja, porque nos anos 70, mesmo antes do 25 de Abril, muito Portugal estava ainda assim, tirando, em parte, o pé descalço que foi "eficientemente" tratado por decreto e repressão policial. Eu vi. Eu estava lá.
A segunda, porque hoje - 24 de Abril de 2011 -um cronista dos nossos jornais falava da facilidade com que Portugal esquece. E eu lembrei-me, como me acontece frequentemente, da forma como uma guerra em que andámos envolvidos 13 anos nos "esqueceu". Entre aspas, sim, porque a minha opinião não é que tenhamos esquecido, é que silenciámos. Contrariamente ao que diz o cronista, acho que temos esta coisa de silenciar mais do que esquecer.
Eu andei lá, pelas guerras, em Moçambique, Cabo Delgado, o que não foi nem "pêra doce", nem, já gora, um Vietname, e não posso deixar de estranhar que, vivendo e cruzando-me todos os dias com pessoas que também por lá andaram - e fomos quase todos os que hoje temos entre 70 e 60 - nunca se fale disso. Queira-se ou não, tínhamos 20 anos e estivemos dois anos a ver morrer e, nalguns casos, a matar. E "esquecemos"?
A fotografia da mensagem anterior, que acompanha a diabrite sobre a guerra feita na época por Vasco Costa Marques e que nos"bons velhos tempos", se publicada, seria suficiente para o levar de novo à prisão, foi tirada por mim.
Íamos em "bicha de pirilau", como chamávamos a este andar em coluna que, no caso e contra o costume, está bastante "abandalhada", de armas ao ombro, em resultado de já andarmos há vários dias no mato sem sinal de Frelimo. Quem, em último lugar, olha para trás é o Cabo enfermeiro, de nome Barbosa. Um bom amigo, que hoje vive para as bandas do Seixal.
Para terminar, só quero deixar claro que não ando desesperado para falar desses tempos. Não, não esqueci mas também não penso nisso senão quando algo, muito espaçadamente, me empurra para tal. Mas acho estranho, sempre achei, e houve mesmo alturas em que me revoltava contra um silêncio que sentia imposto, antes e depois do 25 de Abril. Sobretudo depois, por estranho que pareça.
E habituei-me a ignorar uma parte importante - boa ou má não importa - da minha vida. Como muitos outros.
E cá estou, eu "fazedor do blog", num desabafo a propósito da data e de uns "versinhos" que encontrei entre os papéis de Vasco Costa Marques.

No ultramar está-se


De Vasco Costa Marques

"No ultramar está-se
para ficar!"
-Para ficar ultramado...-
diz o soldado.
......
Heróis do mar...

A muitos bastou a solução barata


De Vasco Costa Marques
25 de Abril
A muitos bastou a solução
barata
.........
De ir para a repartição
De barba por fazer
E sem gravata

Maná de cão vagabundo


De Vasco Costa Marques

Maná de cão vagabundo
quando a fome ladra à lua
e todo o seu horizonte
se concentra de repente
na matéria branca e nua
de um osso em segundo dente
de um cão do terceiro mundo

Disse Inês que me queria


(1940)
Francisco Rodrigues Lôbo
Disse Inês que me queria
No tempo que me enganava;
E eu queria, ela zombava.

Deu-me mostras e sinais
Que me amava de verdade,
Cativou minha vontade
Para assim querer-lhe mais;
Cuidei que eram naturais
Os extremos que mostrava,
E eu queria, ela zombava.

Era de mim tão contente
Que assim mesmo tinha inveja,
Que o que muito se deseja
Logo se crê facilmente;
Logo ela era tão diferente
Que em tudo o que me tratava
Eu queria, ela zombava.

Foi-me assim, zomba zombando,
Vencendo por graça e riso;
Sem nunca me amar de siso,
O siso me foi tirando;
Fiquei doido, como quando
Pelo amor, que me mostrava,
Eu queria, ela zombava.

Diziam-me os guardadores:
— Olha ora por ti, Joane,
Deixa Inês e não te engane,
Que ela tem outros amores. —
Cuidavam que eram melhores
Os que comigo tratava:
E eu queria, ela zombava.

Memória não é porta giratória

De Vasco Costa Marques
Memória não é porta giratória
em farsa de Oliude
Memória é outra estória não apenas
intriga de rival ou nota falsa
bomba de terrorista mercenário

Pode ser - mas não creio - trampolim
para qualquer Catão fora de prazo
ou hacker trapalhão
pois quando incautamente a compaginas
não mostra ser senão a sombra peregrina
que vem dizer “Ninguém!...”
à porta de serviço
e sabes bem
“ninguém” é sempre alguém
nem que seja o fantasma
que se infiltra na sala
a sacudir dos pés a poeira do Além
a tossir sobre nós ataques de asma
baralhando epopeias de cruzadas
e intrigas templárias
hoje enfim preferindo-se em eventos
de “champanhe francês” e croquetes
com fotos em revistas “jet set”

Memória para ser reconhecida
tal como a lei impunha ao reformado
terá de apresentar prova de vida
senão é fruto chocho é osso oco e serve só

para passar o tempo
enquanto não se joga o dominó

Conheço uma cidade


"Sentimento do tempo"
1971
Giuseppe Ungaretti


SILÊNCIO

Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento

Cheguei lá quase à noite

No coração durava o ruído
das cigarras

Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abraço de lumes no ar indeciso
suspensos

- Ganhar o bife?


De Vasco Costa Marques
- Ganhar o bife?
- Comer o bife
com a mostarda
que a vida der.
- Morrer de farda ...
- Morrer de gripe
Como Guillaume Apollinaire ...

através da fina divisória


"Poemas escolhidos de Samuel Becket"
1970
Samuel Beckett

ASCENSÃO

através da fina divisória
nesse dia em que um filho
pródigo à sua maneira
voltou para a família
oiço uma voz
que comovida comenta
a taça do mundo em futebol

demasiado jovem como sempre

ao mesmo tempo pela janela aberta
pelos ares simplesmente
secretamente
o marulhar dos crentes

o seu sangue esguichou com abundância
sobre os lençóis sobre ervilhas-de-cheiro sobre o seu queridinho
saindo dos seus dedos repulsivos
depois cerrou as pálpebras
sobre os olhos enormes verdes espantados

ligeira
divagando
sobre o meu túmulo de ar

Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho

Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos

De Vasco Costa Marques
Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos
dormi sem perguntar se dormir tem regresso
sem saber em que foz se afundaria o rio
se a moeda teria enfim o seu reverso

Tudo simples tranquilo a beatitude
de um céu estrelado e folhas murmurantes
um fio de água escorrendo no açude
como quem diz “eu espero mais adiante”

Morrer assim é morte sem virtude
Nem dá para caixeiro viajante

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,


"De ombro na ombreira"
1969
Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: — Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
— Bem queria, Sr. 0'Neill! E... as varizes?

No écran da memória o filme corre


De Vasco Costa Marques
No écran da memória o filme corre
De diante para trás
Como acontece dizem a quem morre
E a história nunca faz

QUERERIA saber se a vida também vos pesa


"Vida terrena"
1966
Félix Cucurull

QUERERIA saber se a vida também vos pesa
sobre os ombros. Se os vossos anseios
doem como um peso inútil ou vos levam à esperança.
Se perdidos entre enigmas mendigais às estrelas

uma resposta e sois, em permanente fuga
de vós próprios, eternos peregrinos
desnorteados, tacteando a poeira dos caminhos
buscando em vão a voz insistente que vos chama.

Saber se nas vossas noites o pálido clarão
da existência terrena terá cores de fábula,
e vos enche o peito com um leve tremor

chamejante que vos incendeia as palavras.
Saber se a vossa angústia procura no nosso horizonte
o afago dalgum mito que torne a dor mais suave.

(Tradução de António Macedo com a colaboração de Carlos Oliveira)

De Vasco Costa Marques

- Ganhar o bife?
- Comer o bife
com a mostarda
que a vida der.
- Morrer de farda ...
- Morrer de gripe
Como Guillaume Apollinaire ...

No nosso prédio


"Antimundos"
(1970)
Voznessenski

ANTIMUNDOS

No nosso prédio
mora o vizinho Bukachkine,
que usa cuecas cor de mata-borrão.
Mas sobre ele — como balões no espaço —
flutuam Antimundos!

Há neles um mágico, pior, há um diabo
que governa o mundo:
Antibukachkine, o académico
que dá beliscões às Lollobrigidas!

Mas o Antibukachkine sonha
visões cor de mata-borrão.

Vivam os Antimundos!
Maravilhas — no meio do que não presta!
Sem estupidez não há inteligência,
não há oásis sem haver Karakum!

Não há mulheres —
existem anti-homens.

E as antimáquinas praguejam nas florestas.
A terra produz sal. A terra produz estrume.
E morre o falcão sem a serpente.

Amo os meus críticos.
No pescoço nu e perfumado
de um deles
brilha uma anticabeça!...

... Gosto de dormir com as janelas abertas
e ver brilhar, algures, uma estrela cadente
e os arranha-céus — suspensos
da barriga do espaço
como estalactites.

E por baixo de mim
cabeça ao contrário
espetando um garfo na barriga do mundo,
vives tu, doce borboleta indiferente,
meu pequeno antimundo!

Porque será que, a meio da noite,
se encontram os antimundos?

Porque se sentam eles, aos pares,
a ver televisão?

Nem duas frases
trocam entre si.

Sentados e já sem etiquetas
(e por isso irão sofrer mais tarde!)
com as orelhas em fogo...
como borboletas.

... Um orador meu conhecido
dizia-me ontem:
«Antimundos ? Ninharias!»

Durmo e viro-me na cama,
pensando, sonolento,
na razão da inteligência científica...

O meu gato é como um receptor
e capta o mundo com os seus olhos verdes.
1961

(Versão de Amando da Silva Carvalho, feito sobre tradução directa do russo de Clara Schwarz da Silva)

Com sete tábuas se faz



De Vasco Costa Marques
Com sete tábuas se faz
uma bateira
com sete mares
um pirata
com que se faz um Onassis
só ele pode saber
quantos tubarões venceu
se foram sete ou setenta
diz-se que sem dar um tiro
Poseidon ri submarino
agente da Lloyd's grega
o capitão das vinte mil léguas
foi chamado para o Tejo
para domar o peixe espada
atómico avariado nos lodos
resistentes
sem contar com a semana
da açorda de marisco
que dá diploma
a quem a faz
se o cliente a come
sem entrar em coma

Aqueles olhos segredando de amor


"40 anos de servidão"
1978
Jorge de Sena


DISSOCIAÇÃO

Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor,
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo
buscando o seu corpo pele a pele
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

17/1/39

"40 anos de Servidão", Círculo de Poesia - Moraes Editores, 1978

Toda a vida procurou a árvore das patacas


De Vasco Costa Marques

Toda a vida procurou
a árvore das patacas
mesmo patacas baratas
patacas de bolo rei
mas nem isso mas nem isso
quando apetite exigia
uma de ovos com chouriço
por má sorte ou por feitiço
vinham camarões guizados
ali em cima da draga
cozinhados pelo guarda
na velha doca do pinho
gasosa a cortar o vinho
enquanto a noite se atarda
à procura de destino

Também viajei pela paisagem


"Poemas de sequência"
1958
Carlos Monteiro dos Santos

Também viajei pela paisagem,
vi a paz citadina
e os delitos dos jardins públicos.

O cartaz com as pernas da vedeta,
pés descalços
e o olhar do padre.

Também vi e de tudo só sobrou,
além do polícia a olhar
a mulher infinita de alguém a passar.

Caricatura de Vasco Costa Marques no cartão assinado pelos colegas da agência de publicidade Latina quando da sua saída para a reforma.

Peixe gato

De Vasco Costa Marques
Peixe gato
não consta
que alguma vez
comesse rato

mas também
não sei bem
se alguma vez
o vi no prato

nem mesmo
na casa da vizinha
que dizem não há bicheza
que lhe escape
da cozinha

Aqui estou


"Tempo de heróis"
1961
Alonso Féria

Aqui estou
Errado.. e.. feliz.

Custou

Por um triz
Ia morrendo de velho
Branco.. e.. santo.

Mas aqui estou por fim
Inteiro dentro de mim

"Tempo de Heróis", Colecção Poesia e Verdade - Guimarães Editores - 1961

Dizem?


Poesia
(1945)
Fernando Pessoa

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.

Quando a mão de obra


De Vasco Costa Marques

Quando a mão de obra
mete as mãos à obra
que falta?
que sobra?

uma volta à chave
o dedo inquieto
que o raio dispara
o nobre sem sorte
o verdete amargo
na senda (???) da cobra
achada no escombro
pender a cabeça
e não achar ombro
estender a mão
e não achar faca
senão a que corta
a meia torrada
e o café deserto
no peso da tarde
regalo da mosca
no sono do velho
que pediu conselho
por dez mil ou mais
pois tem o cartão
o sessenta e cinco
que comprou depois
de apertar o cinto

Era a primeira vez que nus os nossos corpos


"David Mourão-Ferreira ou a mestria de Eros"
de Vasco Graça Moura

Poema de
David Mourão-Ferreira
Praia do Paraíso

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam

surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez... Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal....E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo

Devolvem-me os canais em que circulo

De Vasco Costa Marques
Devolvem-me os canais em que circulo
os cartazes do pranto as unhas tensas
cruzando sobre a fronte o desengano
uma chuva de fogo para a noite

Dizendo noite a própria noite vela
para imitar o dia destruí-lo
uma lata vazia um grito gasto
onde a sopa arrefece

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra

Dizendo dia crio a melhor forma
de revender a noite insinuá-la
fio de raiz roendo-me os tecidos
uma estátua crescendo

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra.

Il pleuvait fort sur la grand-route


1967
Georges Brassens

Le parapluie

Il pleuvait fort sur la grand-route,
Ell' cheminait sans parapluie
J'en avais un, volé sans doute
Le matin même à un ami.
Courant alors à sa rescousse,
Je lui propose un peu d'abri
En séchant l'eau de sa frimousse,
D'un air três doux ell' m'a dit oui.

(Refrain)
Un p'tit coin d' parapluie,
Contre un coin d' Paradis.
Elle' avait quelque chos' d'un ange,
Un p'tit coin d' Paradis,
Contre un coin d' parapluie,
Je n' perdais pas au change,
Pardi!

Chemin faisant que ce fut tendre
D'ouir à deux le chant joli
Que l'eau du ciel faisait entendre
Sur le toit de mon parapluie.
J'aurais voulu comme au déluge,
Voir sans arrêt tomber la pluie,
Pour la garder sous mon refuge,
Quarante jours, quarante nuits.

..........................................(au refrain).

Mais bêtement, même en orage,
Les routes vont vers des pays.
Bientôt le sien fit un barrage
A l'horizon de ma folie.
II a fallu qu'elle me quitte,
Après m'avoir dit grand merci.
Et je l'ai vue toute petite
Partir gaiement vers mon oubli.

Na verdade, este livro, cuja capa deve andar por aí caída, não pertence às estantes de VCM, mas às minhas. Teria eu, talvez, os meus 18 anos quando, num dia de inverno, entrei na Buchholz e deparei com ele. Os poemas de Brassens eram uma das minhas paixões, nos meus bolsos não havia um tostão (raramente havia) e na altura os livros estrangeiros não andavam aí por todo o lado como hoje, assim, num passe de mágica que, juro, não consegui repetir na vida, fiz desaparecer o livro na gabardina. Depois tive que arrastar para a porta a minha futura mulher-ex-mulher que estava comigo e tinha paralisado. Aqui fica a confissão em abono da senhora alemã que geria a livraria e era conhecida em Lisboa como desconfiada e pouco simpática, talvez porque lá tivesse as suas razões.

Cesária II

De repente calou-se a trompete

De Vasco Costa Marques
De repente
calou-se a trompete
o embaraço caiu no salão
ninguém levou as damas ao bufete
a menina fugiu com a mão

Azedou a bela companhia
o porteiro cuspiu para o chão
a direcção disse pois que assim
não sabia
se ali haveria
penetras ou não

Nada mais que um cabelo é a fronteira

De Vasco Costa Marques
Nada mais que um cabelo é a fronteira
entre o país da liberdade e o espaço
onde até mesmo os astros são poeira.

Num e noutro me arrisco. Vim tão cedo
que só existo inteiro quando passo
pelas fronteiras nítidas do medo.

Tudo tem de ser fruto do meu braço.
Nem o desastre cedo.

Tudo o que puderes dizer-me


"A doença"
1963
Gastão Cruz

Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o
que ardidos sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo o amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Pregando a palavra

Vasco Costa Marques com...?

Ai que sol de fogo

De Vasco Costa Marques
Ai que sol de fogo
sob a minha mão!
Brumas... brumas só
teus cabelos são.

Mas são brumas ruivas,
ruivas de clarão!

Asas em tuas pernas...
asas te roubaram...

Baila, onda, baila!
Mar e sol e música
é teu corpo claro.