Auto de apreensão

"Auto de apreensão de dois livros aos dezoito dias do mês de Agosto de mil novecentos e sessenta e um na freguesia de Santo Condestável", em Lisboa.

Tão nítida a cidade e não ousamos

De Vasco Costa Marques
Tão nítida a cidade e não ousamos
arrancar a raiz que nos perdura neste
chão de penumbras desoladas.

De mesa em mesa, longamente, vamos
dando e roubando as mãos, a face escura,
entre velas compradas, apagada.

Voa, pássaro de asas inseguras!
A cada sopro novo alarga o pano
das tuas asas de empenhada alvura.

Pesa-te o chumbo de um repúdio de anos,
de pena em pena ganharás altura.

A primeira forma é ainda


"Entre duas memórias"
1971
Carlos de Oliveira
A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas;
mas todas pesam,
elaborando as leis da queda:
e caem; graves; reduzidas
ao espaço do seu peso;
o vôo é o singular abstracto,
melhor, a metáfora das asas,
que subentende coisas
por enquanto sem leis;
mas o plural, os voos, não:
tornam as formas nítidas,
limitam-nas à sua opacidade;
e a cada impulso no ar,
o peso reconduz os corpos
ao início do vôo:
os voos são regressos.

Canto porque pressinto

De Vasco Costa Marques
Canto porque pressinto
a face verdadeira
nesta com que, vivendo, à vida minto.
A cantar, tenho-a inteira.

Mas, tendo-a não tendo,
mais doi o agravo
de o poema ser livre
e o poeta escravo.

porque se defende


1975
José Viale Moutinho

porque se defende
envolto em pólvora
da seca e do cuidado
do sinal do passo

porque se envolve
do cuidado do passo
se defende do sinal
em pólvora da seca

porque de cuidado
do passo defende
do sinal envolto
em pólvora seca

porque em pólvora
do cuidado seco
passo do sinal
se defende envolto

Não se fala de amor em línguas mortas

De Vasco Costa Marques
Não se fala de amor em línguas mortas
Não se consegue a lua rastejando
Não tens amigos se fechares as portas
Não há cravos se os fores arrancando

Não se constrói a força abandonando
As armas conquistadas a vitória
Não se faz o futuro regressando
Ao buraco que temos na memória

Não se avivam as tardes de vermelho
Com demãos de betume e tinta preta
Não se acende a manhã com papéis velhos
Não se chega sem ir em linha recta

Tu te couvres tu t'éclaires


1963

Paul Éluard
Tu te couvres tu t'éclaires
Tu t'endors et tu t'éveilles
Au long des saisons fidèles

Tu bâtis une maison
Et ton coeur la mûrit
Comme un lit comme un fruit

Et ton corps s'y réfugie
Et tes rêves s'y prolongent
C´ést la maison des fruits tendres.

Et des baisers dans la nuit

----------
Il ne faut pas voir la réalité telle que je suis

Ressoa a ponte sob os pés que leva

De Vasco Costa Marques

Ressoa a ponte sob os pés que leva
E deles já de súbito ferrugem
Um sono gordo de poeira e esperma
Pesa ainda nos olhos que ressurgem

Não se inaugura a vida. Qual esperança
de por encanto se mudar de pele ...
Surfar exige ter os pés na prancha
E ser-se a própria onda que a impele

Já nada me interessa. Levanta-te e dá-me vinho!


Omar Khayyam
(Sec. XI)
Já nada me interessa. Levanta-te e dá-me vinho!
Esta noite, a tua boca é a mais bela rosa do universo...
Vinho! Que ele seja rubro como as tuas faces
e os meus remorsos tão leves como os anéis da tua cabeleira.
--------
Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me importa nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.
--------
Silêncio, ó minha dor!
Deixa-me procurar um remédio.
É preciso que eu continue a viver,
porque os mortos não têm memória.
E eu quero rever sem cessar a minha bem-amada.
--------
Numa taberna, pedi a um velho
que me informasse sobre aqueles que morreram.
Respondeu-me:
«Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho!»

A prima freira

Conhecida por Blá, era tia (hoje, dias depois de colocar esta entrada, descobri numa carta que não era a tia Blá, mas sim a prima Blá. Claro que não é importante, mas...) de VCM pelo lado paterno. Pelo que ouvi, era uma daquelas freiras enérgicas e bem dispostas que apareciam regularmente em alguns romances para jovens. O sorriso, na fotografia, parece confirmá-lo,

Em resposta a um anónimo

Perguntaram-me qual seria o próximo passo. Não sei, mas o que encontrei no Google foi isto.

o Próximo Passo é

... clicar o botão

... escolher a linguagem

... trabalhar na inclusão

... conseguir apoio popular

... fazer três riscos

... ensinar outros truques

... preparar os atletas

... entrar em contacto

... assinar o contrato

... preencher o formulário

... compreender melhor

... adquirir "O que é a Semiótica

... seguir o caminho

... combater o tráfico

... fazer o pagamento

... incentivar a produção

... conversar com os amigos

... tomar nota de tudo

... trazer o ministro

... mudar o sistema

... tentar ser feliz

... ralar a mandioca

... procurar os motivos

... ir para a Comissão

... mudar o estilo

... esperar a resposta

... optar pelo regime

... conversar com o director

... verificar as opções

... entrar na justiça

... aprender a jogar

... conhecer a Mônica

O próximo passo é o rímel, é o samba, é a Amazónia

O próximo passo é semelhante, é mais simples, é impossível.

O próximo passo é com você


JG e Google


Comecei como aprendiz

De Vasco Costa Marques
Comecei como aprendiz
a mestre não chegarei
não vou acabar no fim
mas sim onde comecei
porque o meu melhor latim
é querer o que não há
e saber o que não sei

Na poesia


"Sobre o lado esquerdo"
1969
Carlos de Oliveira
Lavoisier

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

De recusa em recusa porta em porta

De Vasco Costa Marques
De recusa em recusa porta em porta
em longos patamares se esvaziam

Fracos os sons que passam nas cortinas
sedimentam nos móveis desfalecem

Um recanto cansado onde a cabeça
pende no fim da tarde os olhos líquidos

Crescem já sobre o corpo as longas folhas
frescas e longas folhas vidro froixo

Trémulo pairo o chão arde na boca
meus irnãos desfocados fome mútua
só saciada quanta vez em cinza.

Oh a mulher como é côncava


"As maçãs de Orestes"
1970
Natália Correia

REBIS

Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem

como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!

Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o ouro
na salmoura da mulher mar

como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!

Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!

Pedro o Ermita

De Vasco Costa Marques
Pedro o Ermita
desceu em Manhatam
e subiu ao último andar
do World Trade Center
- "Falta muito para chegar ao céu?"
perguntou ao segurança.
- "Just a second, Sir" respondeu o rapaz

E assim foi

Memorial de cinzas
quantas e quantas de ossos
que ninguém nunca mais identifica

cartas... milhares...
sem destinatários

de cimento e prosápias
os calvários

la chanson d'un dadaiste


Tristan Tzara

Chanson Dada
I
la chanson d'un dadaiste
qui avait dada au coeur
fatiguait trop son moteur
qui avait dada au coeur

l'ascenseur portait un roi
lourd fragile autonome
il coupa son grand bras droit
l'envoya au pape à rome

c'est pourquoi
l'ascenseur
n'avait plus dada au coeur

mangez du chocolat
lavez votre cerveau
dada
dada
buvez de l'eau

II
la chanson d'un dadaiste
qui n'était ni gai ni triste
et aimait une bicycliste
qui n'était ni gaie ni triste

mais l'époux le jour de l'an
savait tout et dans une crise
envoya au vatican
leurs deux corps en trois valises

ni amant
ni cycliste
n'étaient plus ni gais ni tristes

mangez de bons cerveaux
lavez votre soldat
dada
dada
buvez de l'eau

III
la chanson d'un bicycliste
qui était dada de coeur
qui était donc dadaiste
comme tous les dadas de coeur

un serpent portait des gants
il ferma vite la soupape
mit des gants en peau de serpent
et vint embrasser le pape

c'est touchant
ventre en fleur
n'avait plus dada au coeur

buvez du lait d'oiseaux
lavez vos chocolats
dada
dada
mangez du veau

Retrato de familia

Retrato na casa da familia, em Mafra: Costa Marques, futuro miltante comunista, sentado de chapéu; saudando à maneira fascista, o seu irmão, Mário; à direita, de chapéu de palha, o pai, monárquico; ao centro, a mãe.

Queriam-se

De Vasco Costa Marques
Queriam-se
Alimentavam-se um do outro
Cada contacto aproximava a morte

«Seria só um pássaro desfeito um rio sorvido
Pela própria nascente a paisagem
Que construiu em volta existe apenas
Como um palco fantasma nada mais

Lentamente corroeu-se o tecido das horas
Como a hera trespassa as paredes das casas
E as madeiras antigas se desfazem
Conservando o seu espelho de verniz

Lentamente serrando as pontes das palavras
Rolando sobre a pele a névoa do cansaço
Um perfume que desce ao profundo dos hábitos
Afogando o desgosto a procura o sorriso»

Por não falar correctamente francês


Julho 1957 (Fascículo nº 2)

Mário-Henrique Leiria

Intermédio Parisiense

Por não falar correctamente francês
já muita gente se tem enganado
acerca de viagens
Ao chegarem a Paris
vêem que...... afinal.......a estação
é mesmo a de Estarreja.

Isso não me aconteceu a mim
a mim.......conhecedor de línguas
e de gentes
conhecedor de várias latitudes
mais ou menos habitadas
a mim......que sentado num comboio
não espero que me peçam o bilhete
para saber que vou afanosamente útil
em viagem

Mal lá cheguei
— e já lá vão tantos anos ! —
eu.....que sou viajado
vi logo que estava em Paris
Falei francês como se calcula
(nem outra coisa devem fazer
as pessoas que vão a Paris)
e pediram-me esmola
Dei-a em francês
que para isso me tinham meus pais
mandado à escola

Cosmopolita e informado
visitei com a decência e as maneiras
recomendadas
tudo o que para tal estava
em situação própria
À beira do Sena
— aí a recomendação
é só para Notre Dames —
pediram-me esmola
Dei-a em francês.......evidentemente
que eu falo correctamente francês

Mário Henrique é o nome do autor tal como referido no livro(inho - sem desprimor), mas julgo que posso, sem erro, acrescentar Leiria, atendendo ao estilo e à ironia.

Como a hora

De Vasco Costa Marques
Como a hora
torturado
é o poema;

tumultuoso,
rude, apenas
doce na mais
funda raiz.

Forjado
e inesperado
é o poema.

curioso


"A linguagem do gesto"
1974
Pedro Bandeira Freire
ou coisa assim
curioso
ainda hoje existir
à antiga
sem formas definidas
mas com fórmulas definitivas
uns com linguagem teatral que data
do tempo da língua dos descobrimentos
que nós testemunhamos
espectáculo técnico
num certo particular que poderá ser
literário ou mesmo vocabulário
disposto a fazer à vez um mundo
que deu novos mundos ao mundo

ou coisa assim

dizer

......................ridículo
que por cá é o que se sabe
que tudo é dúvida.........que
pela sua ocorrência chegará?


meus senhores
............e minhas senhoras

um assunto a entrar na ordem dos trabalhos
ser ainda gume
o que era curioso
ou coisa assim

Os olhos perturbados que procuro

De Vasco Costa Marques
Os olhos perturbados que procuro
lançar para o percurso imprevisível
míssil de dentes que nasceram raros
com a fome do mundo

Prendo-os a esta esquina silenciosa
furiosamente de imitar o canto
dos caminhos do espaço

A nuvem passa
com raivosas formigas nos artelhos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem


"Dia do mar"
1961
Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não p'lo meu ser que só atravessei,
Não p'lo meu rumor que só perdi,
Não p'los incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Um dia acreditámos que podia

De Vasco Costa Marques
Um dia acreditámos que podia
viver o amor de duas mãos cortadas,
só porque, de silêncio, anoitecia

Mas só de assim buscá-lo se esquivava.

Passou à 3ª idade



Passou à 3ª idade
sem ter vivido a segunda
quanto à primeira afundou-se
onde a memória se afunda

assim hoje quando agarra
na guiterra e toca o fado
canta um fado sem futuro
sem presente e sem passado

Anoitece com cítaras... com cítaras

De Vasco Costa Marques
Anoitece com cítaras... com cítaras
a entornar um vinho melodioso
sobre os livros da escrita.

« — Não acendeu a luz. sr. Veloso! ?
Sr. Veloso! Está tão frio!...»

Sr. Veloso não tugiu,
Sr. Veloso não mugiu.
Sr. Veloso não deixou montepio.

Ê assim que anoitece com cítaras.

O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão


1953
António Plácido de Abreu
POEMA A ZSUZSA

O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão
................................ entre duas almas unidas pelo corpo.
Todas as barreiras de súbito se volveram cinza e destroços
E tudo foi paz intimidade e compreensão naquele mundo
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, de minutos que criáramos.

«Não tenho cigarros, Zsuzsa, esqueci-me dos cigarros...»

Zsuzsa não respondeu.
Dirigiu-se à" caixa onde guardara as relíquias de sua Mãe
............................................................... já morta ...
Uma cigarreira de ouro ... Alguns cigarros velhos ...
Zsuzsa deu-me o menos amachucado.

Minha serena flor da haste clara,

de Vasco Costa Marques
Minha serena flor da haste clara,
será tua cor a vitória mais rara...
o caso é que vás!

Minha serena flor de formosura,
será o teu cheiro a nascente mais pura.
o caso é que vás...

O mar que tu és
não cabe onde estás.

Lisboa tem suas barcas


Fiama Hasse Pais Brandão

Barcas Novas
En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar.
..............
..............
João Zorro


Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
os homens que levam guerra

Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas

1) Para aqueles a quem não ocorra de imediato o contexto histórico, aqui fica a nota de que à data deste poema, seguramente do início dos anos sessenta, embarcavam em Lisboa os primeiros contigentes militares a caminho da guerra colonial.
2) Embora a capa do livro tenha sido publicada na inserção anterior, aqui fica também a imagem desta página com os nomes dos poetas publicados e dos organizadores da antologia.

a minha idade é triste ou demasiado feliz


"Antologia de poesia universitária"
1964 
Eduardo do Prado Coelho

Algumas Notas Explicativas de uma Geração

a minha idade é triste ou demasiado feliz
é brutal como os gritos no cais e açucarada nos cafés
e não sabe que uma chávena de café vale três sacos
sobre o tronco esgarçado dos carregadores
(isto disse-me uma rapariga mas mudámos de assunto
porque talvez começasse a chover e houvesse
dias frios no começo da semana)
a minha idade não é de oiro ou heróis ou pedras de sal
nem de terra ou feno ou ferro
nós homens de ferro forjado!
(assim escreveu o mais poeta dos meus amigos)
nós barqueiros navegantes humildes caminhantes
de rumos insondáveis e antigos e na palma das mãos
ou na arena do peito temos gravados roteiros e astrolábios
os instrumentos da viagem mas não há viagem
há seco areal e falta de alimentos
há ainda as modernas latitudes as ilhas submersas
e os mapas cobertos de um bolor cor de brasão
mas temos a cinza duma esperança esperança ainda mole
que nos embala como um berço derrubado é triste
é triste a minha idade: há nela as sílabas ácidas da morte

mas gostamos dos nós flexíveis nos cabelos das raparigas
e lemos Éluard Aragon os cantos de Neruda os versos fraternais
e temos amigos todos os meus amigos são amigos
porque um dia me reconheceram e com eles
repetimos as primeiras palavras
as mais puras e corajosas e gostamos de amar
e acreditamos na lúcida alegria das palavras justas

Ilustração de António Areal

Encontraram-se reunidos

De Vasco Costa Marques
Encontraram-se reunidos
Perto do vinho da destruição

É sua condição
Viver sobre detritos

De três palhas vazias
Construir a bonança

Inventar a riqueza
É o seu alimento

«O pão que dou
Se não o suo
Soa sem dor
A um solene
Silêncio cúmplice
Quem o aguarda
Não se pergunta
Se só lho trago
Se me alimenta
Mas minha fome
Só a sacio
Se saciando-a
Se me acrescenta»

Criei a alma. A vegetação de países


"A noção de poema"
1972
Nuno Júdice

OUTONO
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.

As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.

O mar não tem volta

De Vasco Costa Marques
O mar não tem volta
na ponta o mar aponta
sempre para outro lado
mar é só amar e ir
e o mais não conta
por mais de rosas seja
ou mais salgado

Todo o mar que se presa
não é lago

Europa 1946

1946
Adolfo Casais Monteiro
EUROPA, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda,
nações com seu riso franco
abertas de par em par!

............

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-de ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!
Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livres modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar!

..................

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Renascerás, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre as nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
dos cofres digerindo o sangue do rebanho
— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

Capa de António Dacosta

(Publicado meses depois de terminada a guerra, aqui colocado semanas depois das eleições europeias. Apenas, porque sim.)

Na minha pele a ardência do deserto

De Vasco Costa Marques
Na minha pele a ardência do deserto
na minha alma a angústia da distância. ..
Trago a rudeza de um caminho aberto
não me peças que reze as orações de infância

Vasco Costa Marques no fotógrafo

... quando os meninos olhavam por óculos de osso. 

O osso buco bucólico

De Vasco Costa Marques
O osso buco bucólico
nu como cela de monge
fez dele o menino um óculo
para ver sonhos ao longe
sonhos que a onda revela
versáteis como a fuga das gazelas
leves como barco à vela
longe longe longe longe

De Mário-Henrique Leiria ? I


Manuscrito de Mário-Henrique Leiria 
Caxias 1952

Dois poemas em três folhas de papel barato e amarelecido:  um datado de Março de 1952 tendo a indicação forte de Caxias, o outro de 3 / 4 / 1953. Ambos assinados com “Mário Henrique”.
Estas folhas já por várias vezes me tinham passado pelas mãos quando remexia a papelada de VCM, mas só hoje me ocorreu a possibilidade de se tratar de poemas escritos na prisão por  Mário-Henrique Leiria.  Garantir, não garanto, mas o certo é que: a)  MHL assinava “Mário Henrique”;  b) as assinaturas são, pelo menos para olhos não treinados como os meus, a mesma que encontro no livro “Casos de Direito Galático”, autografado por ele; c) atendendo às datas, é possível que se tenha cruzado com VCM na prisão.
Aceito opiniões.

A rapariga foi presa

De Vasco Costa Marques
(A rapariga foi presa
por estar a beijar o noivo
no parque municipal.
Decreto-lei n.° tantos
do dia tantos do tal
vigésimo quarto ano
após a revolução;
Só tem direito de amar
quem pagar contribuição).

A moça dos olhos claros
como uma réstea de lua
num dia de fome e mais nada
saiu à rua...
Sacrificou-se no altar
de uma cama sem lençóis

……………..

Nos romances
que as costureiras gostam de assinar
as marquesas empenham «caracóis».

Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)


"DISCURSO 
sobre a reabilitação do real quotidiano"
1952
rio Cesariny de Vasconcelos


Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
— fumar, quere-se dizer.

Esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro com versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável.

O Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(Que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas dos outros)
Aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).
Sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
— Antes andar por ai relativamente farto
antes para tabaco que para Cesariny
(Mário) de Vasconcelos

Braços já decompondo-se

De Vasco Costa Marques
Braços já decompondo-se
nas garras
do mais louco relógio
os olhos correm
sobre as chuvas nocturnas
o destino
de alguém rato volúvel

A pele cresta as mãos. A cada instante,

De Vasco Costa Marques
A pele cresta as mãos. A cada instante,
é preciso acertar os olhos no crepúsculo
O cotão invadiu os olhos e os músculos
Frustrou-se a gravidez do deus mutante

Uma cadeira rangedoira, um dente
cortando gravemente a carne mole ...
um pedaço de pão que está pendente
do fotão que não vem de nenhum sol

Aprender os impulsos de outra língua,
aprender a prudência do presente
papiros quebradiços, Índia a Índia
Comidos por camelos e serpentes

Não vinga neste chão o que se vinga

Aprender que futuro não dura sempre

Li no jornal:


"Cantigas da dúvida e do perguntar"
(Edição da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa)
1970
José Fanha


Questão de palitos

Li no jornal:
                       "Os palitos portugueses
são os mais bem afiados do mundo"

Já pude dormir descansado



25 Abril - 20, e mais, anos depois

De Vasco Costa Marques
Abril 20 anos depois

O Porthos casou-se rico
Athos tornou-se aldeão
Aramis é quase bispo
o D’Artagnan … Capitão?

------------------------

ABRIL ABRIL

Abril Abril Abril novo
Riso aberto na cidade
Porta de passar o povo
Águas mil de Liberdade
----
As portas que Abril abriu
viram coisas do Diabo
Mouro não saiu nenhum
mas entrou muito ladrão
a gritar por Santiago
----
As portas que Abril abriu
são portuguesas castiças
Nunca mais levaram tinta
nem óleo nas dobradiças

A vida para além da poesia

Não fazia alarde, raramente falava das suas aventuras e desventuras políticas. Mesmo assim, aqui fica a nota sobre a sua prisão. Dando ouvidos à minha memória, terá havido uma segunda, já que a sua filha me falava de se recordar de, muito pequena, ir com a mão ver o pai à prisão, e não podia referir-se ao episódio referido no documento, pois à data tinha menos de um ano. Talvez alguma passagem mais curta e sem registo, coisa que presumo vulgar na época. 
No Post anterior, um poema bem neo-realista, a condizer.  

Rua cinzenta

De Vasco Costa Marques
Rua cinzenta —
à meia luz da tarde nevoenta
brincam creanças de rostos magros
e duros como os músculos dos braços dos pais.
Mulheres às portas
com as mãos cruzadas por sobre o ventre
olham paradas
paradas
como se estivessem esquecidas de viver
como se a tarde se cristalizasse
na expressão desfeita dos seus olhos sábios
sábios das vidas do lixo das pedras
da rua cinzenta
onde estagnaram
com as mãos cruzadas sobre os aventais
a ver brincar repetições de filhos
de rostos magros e duros
como os músculos dos braços dos pais.

Adis-Abeba tem belos eucaliptos


1971 (A antologia)
José Manuel

Nevou no Congo
Ninguém viu

in «Eros», 1953
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Pedro Tamen

Adis-Abeba tem belos eucaliptos
e quatrocentos mil abexins
ruas rasgadas para o sudoeste da cidade
e um grande leão coroado a caracóis
O sol cai sincero sobre o pó
mas eu tenho a minha mesa
à sombra onde três cubos de gelo
lentamente se transformam em John Haig
Logo à noite há um passeio até aos coqueiros
uma etíope cristã de nome Parka
e estrelas insolúveis evidentes
até que venha o sono
Com Adis-Abeba só sei falar por gestos
por isso eu sei de peles sobretudo morenas

Do Livro «Daniel na cova dos leões», 1970

Identificação

Profissionalmente,  Vasco Costa Marques foi um homem da publicidade. É da sua autoria o conhecido slogan "Bosch é bom", com frequência erradamente atribuído a Alexandre O'Neill.  Sem meter totalmente as mãos no fogo, creio ser também da sua autoria a popular campanha "Antracol vence o míldio", que durante uma boa parte dos anos 6o acompanhou as tardes de domingo dos adeptos de futebol . 
VCM teve a sua própria agência, a "CM Publicidade", e passou pela "Latina", entre outras. Vem a propósito recordar que pelos anos 60 e 70, a publicidade seria um dos (poucos) sectores de actividade que acolhiam gente da oposição ao regime com ligações conhecidas ao Partido Comunista.