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O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão


1953
António Plácido de Abreu
POEMA A ZSUZSA

O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão
................................ entre duas almas unidas pelo corpo.
Todas as barreiras de súbito se volveram cinza e destroços
E tudo foi paz intimidade e compreensão naquele mundo
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, de minutos que criáramos.

«Não tenho cigarros, Zsuzsa, esqueci-me dos cigarros...»

Zsuzsa não respondeu.
Dirigiu-se à" caixa onde guardara as relíquias de sua Mãe
............................................................... já morta ...
Uma cigarreira de ouro ... Alguns cigarros velhos ...
Zsuzsa deu-me o menos amachucado.

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa


"Tempo de fantasmas"
1951
Alexandre O'Neill

O revólver de trazer por casa

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa 
fizeram já de mim o revólver de trazer por casa 
aquele que toda a gente uma duas vezes na vida 
encosta por teatro a um ouvido 
que acaba por se fechar envergonhado

Um bom revólver domesticado 
algumas noções de pré-suicídio mas não mais 
que a vida está muito cara e a aventura 
nem sempre devolve o barco que lhe mandam

Quem espera por mim não espera por mim 
e talvez me encontre por um acaso distraído 
mas no meu obsceno mostruário de gestos 
guardo o mais obsceno 
para quando a ilusão se der

Reuniste os estilhaços


"Notícias do bloqueio - fascículos de poesia"
1957
António José Fernandes
Os amantes verdadeiros
Reuniste os estilhaços 
da minha face partida

Ensinaste-me a frescura 
da respiração completa

Um rio de palavras novas 
fertiliza os meus desertos

Dissipaste o pesadelo 
acendendo os meus cigarros

Se o mundo fosse aceitável 
meu amor seria azul

A  paisagem  disponível 
é negra como o carvão

Amanhã serão alegres 
os amantes verdadeiros