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Aqueles olhos segredando de amor


"40 anos de servidão"
1978
Jorge de Sena


DISSOCIAÇÃO

Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor,
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo
buscando o seu corpo pele a pele
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

17/1/39

"40 anos de Servidão", Círculo de Poesia - Moraes Editores, 1978

Também viajei pela paisagem


"Poemas de sequência"
1958
Carlos Monteiro dos Santos

Também viajei pela paisagem,
vi a paz citadina
e os delitos dos jardins públicos.

O cartaz com as pernas da vedeta,
pés descalços
e o olhar do padre.

Também vi e de tudo só sobrou,
além do polícia a olhar
a mulher infinita de alguém a passar.

Aqui estou


"Tempo de heróis"
1961
Alonso Féria

Aqui estou
Errado.. e.. feliz.

Custou

Por um triz
Ia morrendo de velho
Branco.. e.. santo.

Mas aqui estou por fim
Inteiro dentro de mim

"Tempo de Heróis", Colecção Poesia e Verdade - Guimarães Editores - 1961

Dizem?


Poesia
(1945)
Fernando Pessoa

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.

Era a primeira vez que nus os nossos corpos


"David Mourão-Ferreira ou a mestria de Eros"
de Vasco Graça Moura

Poema de
David Mourão-Ferreira
Praia do Paraíso

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam

surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez... Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal....E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo

Il pleuvait fort sur la grand-route


1967
Georges Brassens

Le parapluie

Il pleuvait fort sur la grand-route,
Ell' cheminait sans parapluie
J'en avais un, volé sans doute
Le matin même à un ami.
Courant alors à sa rescousse,
Je lui propose un peu d'abri
En séchant l'eau de sa frimousse,
D'un air três doux ell' m'a dit oui.

(Refrain)
Un p'tit coin d' parapluie,
Contre un coin d' Paradis.
Elle' avait quelque chos' d'un ange,
Un p'tit coin d' Paradis,
Contre un coin d' parapluie,
Je n' perdais pas au change,
Pardi!

Chemin faisant que ce fut tendre
D'ouir à deux le chant joli
Que l'eau du ciel faisait entendre
Sur le toit de mon parapluie.
J'aurais voulu comme au déluge,
Voir sans arrêt tomber la pluie,
Pour la garder sous mon refuge,
Quarante jours, quarante nuits.

..........................................(au refrain).

Mais bêtement, même en orage,
Les routes vont vers des pays.
Bientôt le sien fit un barrage
A l'horizon de ma folie.
II a fallu qu'elle me quitte,
Après m'avoir dit grand merci.
Et je l'ai vue toute petite
Partir gaiement vers mon oubli.

Na verdade, este livro, cuja capa deve andar por aí caída, não pertence às estantes de VCM, mas às minhas. Teria eu, talvez, os meus 18 anos quando, num dia de inverno, entrei na Buchholz e deparei com ele. Os poemas de Brassens eram uma das minhas paixões, nos meus bolsos não havia um tostão (raramente havia) e na altura os livros estrangeiros não andavam aí por todo o lado como hoje, assim, num passe de mágica que, juro, não consegui repetir na vida, fiz desaparecer o livro na gabardina. Depois tive que arrastar para a porta a minha futura mulher-ex-mulher que estava comigo e tinha paralisado. Aqui fica a confissão em abono da senhora alemã que geria a livraria e era conhecida em Lisboa como desconfiada e pouco simpática, talvez porque lá tivesse as suas razões.

Tudo o que puderes dizer-me


"A doença"
1963
Gastão Cruz

Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o
que ardidos sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo o amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Mas há de ser assim, na vida, eternamente.


1925
Campos Lima

.............................
.............................

.........................CEGO
Mas há de ser assim, na vida, eternamente.
Por cada amor feliz uma dor permanente,
Por cada riso claro a lágrima vertida:
Nesta contradição é que consiste a vida.

...................OPERÁRIO
Ah não, virá um dia em que um sopro fecundo
Ainda há de mudar toda a face do mundo:
O dia em que se ouvir vibrante aquela voz
Que a vida anda a gritar há muito dentro em nós.

.................. cai o PANO
..........VAGAROSAMENTE

Diremos prado bosque


"Antologia  1945-1961"
1961
Eugénio de Andrade

Serão palavras só...
..........................................................................Ao René
Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração

Diremos luz ou mar
ou madressilva
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura)


luis Suardíaz

UMA RAPARIGA MUITO ESTRANHA

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura),
do compromisso que cada um tem,
das elegias de Duino e de outros êxitos
de Rainier M. Rilke.
Acompanhei-a a um exame de francês,
a uma reposição de Calígula, a um cinema
atroz onde levavam Júlio César
na versão de Marlon Brando.

Dei-lhe o meu telefone, uma biografia de Tolstoi
ou Dostoyevsky, uma lapiseira azul, uma preciosa
gravação do pássaro de fogo.

Mostrei-lhe todas as persianas de velho estilo
que então conhecia, as livrarias secretas,
as paisagens dos arredores, um ídolo taino
que me emprestaram os amigos, alguns poemas.

Uma vez deixou entrever
que a humanidade não lhe interessava nada.

Não voltámos a ver-nos desde então.

(1936)

Dês que vi, formosa Elvira


"Marília de Dirceu e mais poesias"
Tomás António Gonzaga

Dês que vi, formosa Elvira,
os teus divinos cabelos,
esses vivos olhos belos,
que inveja dos astros são,
foi-se, Elvira, foi-se embora
toda a paz do coração.
............E talvez, talvez que Elvira
............nem se lembre de que Alceu,
............se suspira,
............se delira,
............é só por motivo seu.

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei


1971
Jorge Luis Borges


LIMITES

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

................... De Inscripciones (Montevideu, 1923),
.....................de JULIO PLATERO HAEDO

.Era uma vez um país


"Tempo da lendas das amendoeiras"
1964
José Carlos Ary dos Santos

.....................................Era uma vez um país
...............................................na ponta do fim do mundo
...............................................onde o mar não tinha eco
...............................................onde o céu não tinha fundo.
..................................... ...... ..Onde longe longe longe
......................................... .....mais longe que a ventania
........................................ ......mais longe que a flor da sombra
........................................ ......ou a flor da maresia
........................................ ......em sete lagos de pedra
....................................... .......sete castelos de nuvens
........................................ ......em sete cristais de gelo
........................................ ......uma princesa vivia.

A PRINCESA

Em sete cristais de gelo
nesse país eu vivia.

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.


"Poesias completas de António Gedeão"
1968
António Gedeão

Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Sinal de cavalos paralelos


"Morfismos - Poesia 61" 
1961
Fiama Hasse Pais Brandão


Sinal de cavalos paralelos
castrados de rotações
infecundos para o vácuo
ou ventre ou crina vidro
ou espasmo
ou vidro ou branco
crina
Sinal de fêmeas
com ventre no bojo da lua
desflorada
o quadrante cor
nem pleno branco
ou crina ou vácuo ou espasmo
ou branco
O vácuo branco
nem cavalo espasmo vidro
o equilátero do tempo
prenhe
éguas
sirenes largas decapitadas retinas
o alarme dos ponteiros sucessivos ancas vértices
no branco no pleno no espasmo no vácuo
das cores dos sinais

Cão passageiro, cão estrito,


"Noticias do bloqueio - fascículos de poesia" 
1960
Alexandre O'Neill

Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui.
Cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia.
Cão estouvado de alegria,
Cão formal da poesia,
Cão-soneto de ão-ão bem martelado,
Cão moído de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pre-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema !

Despe-te de verdades


O Editor é Luís Pacheco (1925-2008), que em 1950 criou a editora Contraponto, responsável pelas primeiras edições (creio, não estou certo) de autores como Mário Cesariny, Vergílio Ferreira e Herberto Helder, entre outros.

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Mário Cesariny de Vasconcelos
(in "Manual de Prestidigitação" - 1956 / capa já publicada neste Blogue)

Discurso Ao Príncipe de Epaminondas,
Mancebo de Grande Futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalento nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti

Alegrias, as não medidas.


1970
Bertolt Brecht
Lista das preferências de Orge

Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.

Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.

Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.

Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.

Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.

Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptíveis.

Cores, o rubro.
Meses, Outubro.

Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.

Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.

Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.