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Iça a adriça

De Vasco Costa Marques
Iça a adriça
solta o catau
desfralda a bandeira
no mastro real

Sopra o vento leste
o que traz a nau
na coberta peste
no porão pardaus

E por falar do mau

De Vasco Costa Marques
E por falar do mau
lembra-me o Tenreiro
pássaro bisnau
que a bem da Nação
quase levou o bacalhau
a filiar-se na Legião

Velejámos na noite

De Vasco Costa Marques
Velejámos na noite
à vela solta
e parecia
que tudo podia
ser de novo
revivido
mas de molde
a nascer um sorriso
no rosto dos deuses
e não apenas
o horror de uma chaga
mal curada
a corroer
o precário segundo
que todos merecem
conquistar na vida
sem precisar de olhar

Capitão de mar e guerra

De Vasco Costa Marques
Capitão de mar e guerra
fica em terra
na esplanada do café

Do mar chega-lhe o cheiro
e a neblina que o transporta
e da guerra
e do inferno
resta-lhe o troar se berra
num gesto de comando erguendo o braço
"É rapaz ... mais um bagaço!"

Do que nunca serei regresso

De Vasco Costa Marques
Do que nunca serei regresso
Como a chuva é do vento eu sou daqui ...
marinheiros para sempre submersos ...
quantos corpos vazios que vesti

Uma árvore ao fim da tapada
uma esquina na mesa de um bar
uma praia de areia privada
a coutada onde não vou caçar

a moeda na slot machine
o olhar entrevisto na gare
a memória submissa de um crime
um destino para transplantar

Encravou-se a roleta russa
são cinzentas as manchas de sangue
são as mesmas as sombras convulsas
dos bordéis de Pequim a Los Angeles

O pedrado sonâmbulo trouxe
novo tema para ser odiado
de repente o livro fechou-se
e finou-se no quarto fechado

Como o cego na escada do Metro
como a hora dos travestis
como duas alianças no prego
como o lixo de um dia feliz ...

No percurso de uma estátua equestre
no dizeres-me naquela manhã
no rasgão do palimpsesto
na meada enleada de lã

Mercenário de todas as Franças
Vagabundo de qualquer Brasil
explodiram-me as veias da esperança
em Chernobyl

Faz-te ao mar

De Vasco Costa Marques
Faz-te ao mar
nem que te obrigues a fazer primeiro
os estaleiros em que os mares se fazem
Os mares não se ganham por herança
nem há planos de poupança-mar
Assim vai vai mesmo sem bonança
num ontem recriado o mais tardar
enquanto a chama arde
que logo ou amanhã já será tarde

Pela noite fora

De Vasco Costa Marques
Pela noite fora
O dia cá dentro
abrindo janelas
todas a nascente

e depois que importa
se é a sul ou norte
se é mesmo a poente
que se encontra a porta

que me importa isso
uma porta falsa
um velho feitiço
e ala que é serviço

E isso sim importa
com porta ou sem porta
postigo ou portão
se estás vivo sais

se estás morto não

Deixemo-nos de megalomanias

De Vasco Costa Marques
Deixemo-nos de megalomanias
Do mar tudo o que temos
é a orla costeira
e a maresia

O mar a conquistar
está noutro espaço
onde não chegam naves
de vela e mastro
e onde a Terra discreta
não passa
de terceiro planeta
e nela um Portugalinho
de Frei Bartolomeu
e de Gago Coutinho

Porque quanto ao satélite
que se atirou pró ar
esteja onde estiver
ande por onde andar
talvez seja melhor nem se falar

No entanto
mesmo sem cartão Visa
Há muito onde chegar
o nosso engenho e arte
muito onde ferrar
o dente o Siza
e o Damásio apontar
o erro de Descartes
e porque não falar
no Saramago
levantado do chão
com o mesmo à vontade
com que à cegueira
deu visibilidade
nobelizando o português
parente pobre
que assim passou
do esquálido
"vae victis"
sem bula pontifícia
a "urbi et orbe"

E depois de Melinde e Calecute

De Vasco Costa Marques
E depois de Melinde e Calecute
atenção ao "casting"
da mega produção
que é coisa de melindre e de desfrute
escolher a vítima e o vilão
na confusão
da história tragico-marítima
não sendo Salomão

Ai a maré

De Vasco Costa Marques
Ai a maré
Ai a maré
Tão de brinquedo
molhar o pé
depois depois
todo te enleia
na maré cheia
que sobe sobe
que te rodeia
azul e branco
verde profundo
e negro sépia
tinta de choco
fundo de poço
tão negro e fundo
como o segredo
do fim do mundo

Mar largo

De Vasco Costa Marques
Mar largo
em chão de pedra
calçada à portuguesa
olhá-la dá-nos enjoos de mar
sem risco
mas que mareia
e dá para pensar na areia
com peixes de barriga para o ar
que nem à fome da gaivota
servem de isco
por cheiro ou porventura paladar

Ave Maria

De Vasco Costa Marques
Ave Maria
ave marítima
não pomba branca
gaivota íntima
pena empastada
do óleo negro
o olho baço
a asa inútil
o esforço fútil
adejo adeus
que Deus te leve
para o mar que há
seguramente
na sua mão
limpa de crude

Deixo pender a mão ao lume da água

De Vasco Costa Marques
Deixo pender a mão ao lume da água
cortando a água ao ritmo da remada
retornar é por vezes frustração
de querer regressar e não haver passado
e o mar o próprio mar
ser em segunda mão

A minha Índia está aqui

De Vasco Costa Marques
A minha Índia está aqui
entre as magnólias
cortada por uma velha estrada
de escremento seco
toda monumental e inconsútil
encharcada de Ganges
de doenças sagradas
deuses enormes e indiferentes
e anjos magros de lábios lilazes
tirando cursos de eunucos
por correspondência em inglês

Reservei para mim
um espaço de meio passo
entre o carro de gelados
e a entrada do templo

Quem o mar ama

De Vasco Costa Marques
Quem o mar ama
não quer amarração
mesmo que de oiro
a amarra seja

é mar amor
que se deseja
livre e sem fim

o resto é charco
onde se atola
o alento e o barco

Hoje pedalei

De Vasco Costa Marques
Hoje pedalei
para lado nenhum
porque o exercício afasta
e o caminho é sempre a descer
qualquer que seja
regae ou rock
que agite as docas
definitivamente
sem lodo no cais senão enlatado
com figurantes à hora
vestidos Salazar
tão produzidos
que até parece que há
deuses com espírito de humor
sabe-se lá ... há?

Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique

De Vasco Costa Marques
Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique
dedo polegar por certo se servia de tampão ou qualquer outro
se servia de rolha e qual conforme o calibre do furo
ou a mão toda se racha fosse

Quem não se chateia com a friagem no dedo
já azul e exangue e a dor que alastra
num de repente pelo corpo todo
e de gritar já rouco alertas sem resposta
senão risos daqueles que de indicador na testa
lhe chamam louco e se estão borrifando
Quem não se chateia de ficar na história
como o maior otário holandês
atascado na água dos canais
até aos canais semi-circulares nariz empinado
a ponto de lhe chamarem arrogante
e os mestres de obras a acusarem-no
de ter feito o buraco – terrorista!
porque os diques ali o juravam
tinham sido erguidos com o melhor
material e tecnologia mais de ponta
que era a deles e distribuiam cartões aos circunstantes
Um cego começou a tocar violino
Alguém trouxe um carro para vender cachorros
As meninas saíram das montras e miravam-no
com interesse – Não é um querido? ...

Golfinho deu à costa

De Vasco Costa Marques
Golfinho deu à costa
na Praia de Santo Amaro
e às dez da manhã
acabou por morrer

Nenhum rasgão na pele
nenhum sangue a escorrer
que há-de fazer golfinho
quando o mar o repele
senão escolher um areal decente
despedir-se do mar com dignidade
deixando sobre a areia
o peso da saudade verdadeira

O mar nasceu

De Vasco Costa Marques
O mar nasceu
de um pinheiro sonhador
não para um Deus andar
por sobre as águas
como um Onassis cósmico
mas para que o Adão
despejado do belo Paraíso
por pura embirração do senhorio
pescasse o seu cação
o seu safio
para regalo da Eva despeitada
com uma caldeirada
que fizesse o velho Deus
morrer de inveja
e dizer "Isto é bom
e pelos séculos dos séculos
assim seja!"
Não acredita não?
Vá o meu caro amigo
ali à margem sul e veja.