Quand je ne serai plus,

(Japão, início Sec. XI)
Izumi Shikibu
Quand je ne serai plus,
Pour avoir dans un autre monde
Un heureux souvenir
Je voudrais une fois encore
Te rencontrer aujourd'hui

Parce qu’en pensant à elle

(Japão Sec. IX)
Ono no Komachi

Parce qu’en pensant à elle
Je m’étais endormi
Sans doute ele m’apparut.
Si j’avais su que c’était um rêve
Je ne me serais certes pas réveillé

In Anthologie de la poésie japonaise classique, Poésie/Gallimard

Que farei no outono quando ardem


"As aves"
1969
Gastão Cruz

Que farei quando tudo arde ?
Sá de Miranda

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

E o mar fez-se


De Vasco Costa Marques
E o mar fez-se
quando a primeira nave
ao mar se fez

Tronco de árvore escavado
ou galera de escravos
aventura que rasga
azeite de acalmia...

Quantos ossos são hoje
doce areia
quanto suor salgado
às águas torna...

Quanto do mar é morte
quanto do mar Maria

Fácil


José Augusto Seabra
Fácil
é desprender as mãos numa carícia
e largá-las num longo esvoaçar
de dedos.
Fácil
é esquecer os olhos num
inesperado rosto.
Fácil
é a graça do fruto que
colhido
se abandona, húmida polpa
e sumo.

Mas fácil
mais fácil é somente reclinar
o gesto
e acordar-te.

Qual tem a borboleta por costume


Qual tem a borboleta por costume,
que, enlevada na luz da acesa vela,
dando vai voltas mil, até que nela
se queima agora, agora se consume,

tal eu correndo vou ao vivo lume
desses olhos gentis, Aônia bela ;
e abraso-me, por mais que com cautela
livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
o quanto se levanta o pensamento,
o como vou morrendo claramente;

porém, não quer Amor que lhe resista,
nem a minha alma o quer, que em tal tormento,
qual em glória maior, está contente.

Uma pequena, quiçá abusiva, intervenção do "fazedor" do blog a propósito da data e dos tempos


Pois é, também tenho direito e acho que é preciso.
Para comemorar o 25 de Abril.
Por várias razões.
A primeira, porque me é penoso encontrar, cada vez mais, a propósito da crise e do FMI, louvores aos "velhos tempos" e ao antigo regime. Talvez, quem sabe, alguns deles venham dos a quem bastou ir "para a repartição sem gravata" que VCM refere, mas acredito que não. Há quem já não se lembre ou não tenha vivido esse tempo.
Para relembrar ou mostrar, deixo esta imagem do Portugal dos "bons tempos". E não me digam que é por ser antiga, embora de facto o seja, porque nos anos 70, mesmo antes do 25 de Abril, muito Portugal estava ainda assim, tirando, em parte, o pé descalço que foi "eficientemente" tratado por decreto e repressão policial. Eu vi. Eu estava lá.
A segunda, porque hoje - 24 de Abril de 2011 -um cronista dos nossos jornais falava da facilidade com que Portugal esquece. E eu lembrei-me, como me acontece frequentemente, da forma como uma guerra em que andámos envolvidos 13 anos nos "esqueceu". Entre aspas, sim, porque a minha opinião não é que tenhamos esquecido, é que silenciámos. Contrariamente ao que diz o cronista, acho que temos esta coisa de silenciar mais do que esquecer.
Eu andei lá, pelas guerras, em Moçambique, Cabo Delgado, o que não foi nem "pêra doce", nem, já gora, um Vietname, e não posso deixar de estranhar que, vivendo e cruzando-me todos os dias com pessoas que também por lá andaram - e fomos quase todos os que hoje temos entre 70 e 60 - nunca se fale disso. Queira-se ou não, tínhamos 20 anos e estivemos dois anos a ver morrer e, nalguns casos, a matar. E "esquecemos"?
A fotografia da mensagem anterior, que acompanha a diabrite sobre a guerra feita na época por Vasco Costa Marques e que nos"bons velhos tempos", se publicada, seria suficiente para o levar de novo à prisão, foi tirada por mim.
Íamos em "bicha de pirilau", como chamávamos a este andar em coluna que, no caso e contra o costume, está bastante "abandalhada", de armas ao ombro, em resultado de já andarmos há vários dias no mato sem sinal de Frelimo. Quem, em último lugar, olha para trás é o Cabo enfermeiro, de nome Barbosa. Um bom amigo, que hoje vive para as bandas do Seixal.
Para terminar, só quero deixar claro que não ando desesperado para falar desses tempos. Não, não esqueci mas também não penso nisso senão quando algo, muito espaçadamente, me empurra para tal. Mas acho estranho, sempre achei, e houve mesmo alturas em que me revoltava contra um silêncio que sentia imposto, antes e depois do 25 de Abril. Sobretudo depois, por estranho que pareça.
E habituei-me a ignorar uma parte importante - boa ou má não importa - da minha vida. Como muitos outros.
E cá estou, eu "fazedor do blog", num desabafo a propósito da data e de uns "versinhos" que encontrei entre os papéis de Vasco Costa Marques.

No ultramar está-se


De Vasco Costa Marques

"No ultramar está-se
para ficar!"
-Para ficar ultramado...-
diz o soldado.
......
Heróis do mar...

A muitos bastou a solução barata


De Vasco Costa Marques
25 de Abril
A muitos bastou a solução
barata
.........
De ir para a repartição
De barba por fazer
E sem gravata

Maná de cão vagabundo


De Vasco Costa Marques

Maná de cão vagabundo
quando a fome ladra à lua
e todo o seu horizonte
se concentra de repente
na matéria branca e nua
de um osso em segundo dente
de um cão do terceiro mundo

Disse Inês que me queria


(1940)
Francisco Rodrigues Lôbo
Disse Inês que me queria
No tempo que me enganava;
E eu queria, ela zombava.

Deu-me mostras e sinais
Que me amava de verdade,
Cativou minha vontade
Para assim querer-lhe mais;
Cuidei que eram naturais
Os extremos que mostrava,
E eu queria, ela zombava.

Era de mim tão contente
Que assim mesmo tinha inveja,
Que o que muito se deseja
Logo se crê facilmente;
Logo ela era tão diferente
Que em tudo o que me tratava
Eu queria, ela zombava.

Foi-me assim, zomba zombando,
Vencendo por graça e riso;
Sem nunca me amar de siso,
O siso me foi tirando;
Fiquei doido, como quando
Pelo amor, que me mostrava,
Eu queria, ela zombava.

Diziam-me os guardadores:
— Olha ora por ti, Joane,
Deixa Inês e não te engane,
Que ela tem outros amores. —
Cuidavam que eram melhores
Os que comigo tratava:
E eu queria, ela zombava.

Memória não é porta giratória

De Vasco Costa Marques
Memória não é porta giratória
em farsa de Oliude
Memória é outra estória não apenas
intriga de rival ou nota falsa
bomba de terrorista mercenário

Pode ser - mas não creio - trampolim
para qualquer Catão fora de prazo
ou hacker trapalhão
pois quando incautamente a compaginas
não mostra ser senão a sombra peregrina
que vem dizer “Ninguém!...”
à porta de serviço
e sabes bem
“ninguém” é sempre alguém
nem que seja o fantasma
que se infiltra na sala
a sacudir dos pés a poeira do Além
a tossir sobre nós ataques de asma
baralhando epopeias de cruzadas
e intrigas templárias
hoje enfim preferindo-se em eventos
de “champanhe francês” e croquetes
com fotos em revistas “jet set”

Memória para ser reconhecida
tal como a lei impunha ao reformado
terá de apresentar prova de vida
senão é fruto chocho é osso oco e serve só

para passar o tempo
enquanto não se joga o dominó

Conheço uma cidade


"Sentimento do tempo"
1971
Giuseppe Ungaretti


SILÊNCIO

Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento

Cheguei lá quase à noite

No coração durava o ruído
das cigarras

Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abraço de lumes no ar indeciso
suspensos

- Ganhar o bife?


De Vasco Costa Marques
- Ganhar o bife?
- Comer o bife
com a mostarda
que a vida der.
- Morrer de farda ...
- Morrer de gripe
Como Guillaume Apollinaire ...

através da fina divisória


"Poemas escolhidos de Samuel Becket"
1970
Samuel Beckett

ASCENSÃO

através da fina divisória
nesse dia em que um filho
pródigo à sua maneira
voltou para a família
oiço uma voz
que comovida comenta
a taça do mundo em futebol

demasiado jovem como sempre

ao mesmo tempo pela janela aberta
pelos ares simplesmente
secretamente
o marulhar dos crentes

o seu sangue esguichou com abundância
sobre os lençóis sobre ervilhas-de-cheiro sobre o seu queridinho
saindo dos seus dedos repulsivos
depois cerrou as pálpebras
sobre os olhos enormes verdes espantados

ligeira
divagando
sobre o meu túmulo de ar

Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho

Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos

De Vasco Costa Marques
Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos
dormi sem perguntar se dormir tem regresso
sem saber em que foz se afundaria o rio
se a moeda teria enfim o seu reverso

Tudo simples tranquilo a beatitude
de um céu estrelado e folhas murmurantes
um fio de água escorrendo no açude
como quem diz “eu espero mais adiante”

Morrer assim é morte sem virtude
Nem dá para caixeiro viajante