Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,


"De ombro na ombreira"
1969
Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: — Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
— Bem queria, Sr. 0'Neill! E... as varizes?

No écran da memória o filme corre


De Vasco Costa Marques
No écran da memória o filme corre
De diante para trás
Como acontece dizem a quem morre
E a história nunca faz

QUERERIA saber se a vida também vos pesa


"Vida terrena"
1966
Félix Cucurull

QUERERIA saber se a vida também vos pesa
sobre os ombros. Se os vossos anseios
doem como um peso inútil ou vos levam à esperança.
Se perdidos entre enigmas mendigais às estrelas

uma resposta e sois, em permanente fuga
de vós próprios, eternos peregrinos
desnorteados, tacteando a poeira dos caminhos
buscando em vão a voz insistente que vos chama.

Saber se nas vossas noites o pálido clarão
da existência terrena terá cores de fábula,
e vos enche o peito com um leve tremor

chamejante que vos incendeia as palavras.
Saber se a vossa angústia procura no nosso horizonte
o afago dalgum mito que torne a dor mais suave.

(Tradução de António Macedo com a colaboração de Carlos Oliveira)

De Vasco Costa Marques

- Ganhar o bife?
- Comer o bife
com a mostarda
que a vida der.
- Morrer de farda ...
- Morrer de gripe
Como Guillaume Apollinaire ...

No nosso prédio


"Antimundos"
(1970)
Voznessenski

ANTIMUNDOS

No nosso prédio
mora o vizinho Bukachkine,
que usa cuecas cor de mata-borrão.
Mas sobre ele — como balões no espaço —
flutuam Antimundos!

Há neles um mágico, pior, há um diabo
que governa o mundo:
Antibukachkine, o académico
que dá beliscões às Lollobrigidas!

Mas o Antibukachkine sonha
visões cor de mata-borrão.

Vivam os Antimundos!
Maravilhas — no meio do que não presta!
Sem estupidez não há inteligência,
não há oásis sem haver Karakum!

Não há mulheres —
existem anti-homens.

E as antimáquinas praguejam nas florestas.
A terra produz sal. A terra produz estrume.
E morre o falcão sem a serpente.

Amo os meus críticos.
No pescoço nu e perfumado
de um deles
brilha uma anticabeça!...

... Gosto de dormir com as janelas abertas
e ver brilhar, algures, uma estrela cadente
e os arranha-céus — suspensos
da barriga do espaço
como estalactites.

E por baixo de mim
cabeça ao contrário
espetando um garfo na barriga do mundo,
vives tu, doce borboleta indiferente,
meu pequeno antimundo!

Porque será que, a meio da noite,
se encontram os antimundos?

Porque se sentam eles, aos pares,
a ver televisão?

Nem duas frases
trocam entre si.

Sentados e já sem etiquetas
(e por isso irão sofrer mais tarde!)
com as orelhas em fogo...
como borboletas.

... Um orador meu conhecido
dizia-me ontem:
«Antimundos ? Ninharias!»

Durmo e viro-me na cama,
pensando, sonolento,
na razão da inteligência científica...

O meu gato é como um receptor
e capta o mundo com os seus olhos verdes.
1961

(Versão de Amando da Silva Carvalho, feito sobre tradução directa do russo de Clara Schwarz da Silva)

Com sete tábuas se faz



De Vasco Costa Marques
Com sete tábuas se faz
uma bateira
com sete mares
um pirata
com que se faz um Onassis
só ele pode saber
quantos tubarões venceu
se foram sete ou setenta
diz-se que sem dar um tiro
Poseidon ri submarino
agente da Lloyd's grega
o capitão das vinte mil léguas
foi chamado para o Tejo
para domar o peixe espada
atómico avariado nos lodos
resistentes
sem contar com a semana
da açorda de marisco
que dá diploma
a quem a faz
se o cliente a come
sem entrar em coma

Aqueles olhos segredando de amor


"40 anos de servidão"
1978
Jorge de Sena


DISSOCIAÇÃO

Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor,
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo
buscando o seu corpo pele a pele
e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.

17/1/39

"40 anos de Servidão", Círculo de Poesia - Moraes Editores, 1978

Toda a vida procurou a árvore das patacas


De Vasco Costa Marques

Toda a vida procurou
a árvore das patacas
mesmo patacas baratas
patacas de bolo rei
mas nem isso mas nem isso
quando apetite exigia
uma de ovos com chouriço
por má sorte ou por feitiço
vinham camarões guizados
ali em cima da draga
cozinhados pelo guarda
na velha doca do pinho
gasosa a cortar o vinho
enquanto a noite se atarda
à procura de destino

Também viajei pela paisagem


"Poemas de sequência"
1958
Carlos Monteiro dos Santos

Também viajei pela paisagem,
vi a paz citadina
e os delitos dos jardins públicos.

O cartaz com as pernas da vedeta,
pés descalços
e o olhar do padre.

Também vi e de tudo só sobrou,
além do polícia a olhar
a mulher infinita de alguém a passar.

Caricatura de Vasco Costa Marques no cartão assinado pelos colegas da agência de publicidade Latina quando da sua saída para a reforma.

Peixe gato

De Vasco Costa Marques
Peixe gato
não consta
que alguma vez
comesse rato

mas também
não sei bem
se alguma vez
o vi no prato

nem mesmo
na casa da vizinha
que dizem não há bicheza
que lhe escape
da cozinha

Aqui estou


"Tempo de heróis"
1961
Alonso Féria

Aqui estou
Errado.. e.. feliz.

Custou

Por um triz
Ia morrendo de velho
Branco.. e.. santo.

Mas aqui estou por fim
Inteiro dentro de mim

"Tempo de Heróis", Colecção Poesia e Verdade - Guimarães Editores - 1961

Dizem?


Poesia
(1945)
Fernando Pessoa

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não Fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.

Quando a mão de obra


De Vasco Costa Marques

Quando a mão de obra
mete as mãos à obra
que falta?
que sobra?

uma volta à chave
o dedo inquieto
que o raio dispara
o nobre sem sorte
o verdete amargo
na senda (???) da cobra
achada no escombro
pender a cabeça
e não achar ombro
estender a mão
e não achar faca
senão a que corta
a meia torrada
e o café deserto
no peso da tarde
regalo da mosca
no sono do velho
que pediu conselho
por dez mil ou mais
pois tem o cartão
o sessenta e cinco
que comprou depois
de apertar o cinto

Era a primeira vez que nus os nossos corpos


"David Mourão-Ferreira ou a mestria de Eros"
de Vasco Graça Moura

Poema de
David Mourão-Ferreira
Praia do Paraíso

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam

surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez... Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal....E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo

Devolvem-me os canais em que circulo

De Vasco Costa Marques
Devolvem-me os canais em que circulo
os cartazes do pranto as unhas tensas
cruzando sobre a fronte o desengano
uma chuva de fogo para a noite

Dizendo noite a própria noite vela
para imitar o dia destruí-lo
uma lata vazia um grito gasto
onde a sopa arrefece

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra

Dizendo dia crio a melhor forma
de revender a noite insinuá-la
fio de raiz roendo-me os tecidos
uma estátua crescendo

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra.

Il pleuvait fort sur la grand-route


1967
Georges Brassens

Le parapluie

Il pleuvait fort sur la grand-route,
Ell' cheminait sans parapluie
J'en avais un, volé sans doute
Le matin même à un ami.
Courant alors à sa rescousse,
Je lui propose un peu d'abri
En séchant l'eau de sa frimousse,
D'un air três doux ell' m'a dit oui.

(Refrain)
Un p'tit coin d' parapluie,
Contre un coin d' Paradis.
Elle' avait quelque chos' d'un ange,
Un p'tit coin d' Paradis,
Contre un coin d' parapluie,
Je n' perdais pas au change,
Pardi!

Chemin faisant que ce fut tendre
D'ouir à deux le chant joli
Que l'eau du ciel faisait entendre
Sur le toit de mon parapluie.
J'aurais voulu comme au déluge,
Voir sans arrêt tomber la pluie,
Pour la garder sous mon refuge,
Quarante jours, quarante nuits.

..........................................(au refrain).

Mais bêtement, même en orage,
Les routes vont vers des pays.
Bientôt le sien fit un barrage
A l'horizon de ma folie.
II a fallu qu'elle me quitte,
Après m'avoir dit grand merci.
Et je l'ai vue toute petite
Partir gaiement vers mon oubli.

Na verdade, este livro, cuja capa deve andar por aí caída, não pertence às estantes de VCM, mas às minhas. Teria eu, talvez, os meus 18 anos quando, num dia de inverno, entrei na Buchholz e deparei com ele. Os poemas de Brassens eram uma das minhas paixões, nos meus bolsos não havia um tostão (raramente havia) e na altura os livros estrangeiros não andavam aí por todo o lado como hoje, assim, num passe de mágica que, juro, não consegui repetir na vida, fiz desaparecer o livro na gabardina. Depois tive que arrastar para a porta a minha futura mulher-ex-mulher que estava comigo e tinha paralisado. Aqui fica a confissão em abono da senhora alemã que geria a livraria e era conhecida em Lisboa como desconfiada e pouco simpática, talvez porque lá tivesse as suas razões.

Cesária II

De repente calou-se a trompete

De Vasco Costa Marques
De repente
calou-se a trompete
o embaraço caiu no salão
ninguém levou as damas ao bufete
a menina fugiu com a mão

Azedou a bela companhia
o porteiro cuspiu para o chão
a direcção disse pois que assim
não sabia
se ali haveria
penetras ou não

Nada mais que um cabelo é a fronteira

De Vasco Costa Marques
Nada mais que um cabelo é a fronteira
entre o país da liberdade e o espaço
onde até mesmo os astros são poeira.

Num e noutro me arrisco. Vim tão cedo
que só existo inteiro quando passo
pelas fronteiras nítidas do medo.

Tudo tem de ser fruto do meu braço.
Nem o desastre cedo.

Tudo o que puderes dizer-me


"A doença"
1963
Gastão Cruz

Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o
que ardidos sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo o amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Pregando a palavra

Vasco Costa Marques com...?

Ai que sol de fogo

De Vasco Costa Marques
Ai que sol de fogo
sob a minha mão!
Brumas... brumas só
teus cabelos são.

Mas são brumas ruivas,
ruivas de clarão!

Asas em tuas pernas...
asas te roubaram...

Baila, onda, baila!
Mar e sol e música
é teu corpo claro.

Mas há de ser assim, na vida, eternamente.


1925
Campos Lima

.............................
.............................

.........................CEGO
Mas há de ser assim, na vida, eternamente.
Por cada amor feliz uma dor permanente,
Por cada riso claro a lágrima vertida:
Nesta contradição é que consiste a vida.

...................OPERÁRIO
Ah não, virá um dia em que um sopro fecundo
Ainda há de mudar toda a face do mundo:
O dia em que se ouvir vibrante aquela voz
Que a vida anda a gritar há muito dentro em nós.

.................. cai o PANO
..........VAGAROSAMENTE

Demos três voltas à torre

De Vasco Costa Marques
Demos três voltas à torre
sem achar por onde entrar.. .
— Senhor guarda cavaleiro
porque não deixa passar?
(E o guarda de armas de breu
nem sequer nos respondeu)
Temos lá mulheres e filhas
temos o vinho e o pão...
Senhor guarda cavaleiro
não queira guardar ladrão,
(Mas ele não respondia
e firme e forte parecia)
Maldiçoado cavaleiro
que de nós estás a zombar
nos ramos deste pinheiro
vamos te já enforcar. ..

E fomos todos a ele
fomos a fazer-lhe guerra
mas logo ao primeiro impulso
cavaleiro se ia a terra —
que há muito que estava morto
e comido da bicheza
e assim esteve anos e anos
à porta da fortaleza.

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Uma antecipação de 24 anos ao que iria ser o 25 de Abril

Nada do que me dás me deves

De Vasco Costa Marques
Nada do que me dás me deves
esse é o preço do amor.
Livres, os instantes breves,
no relógio com que os medes,
tornam-se ainda menores.

Leis e trabalhos sabotam
os «pipe-lines» do amor;
julgam que o amor derrotam,
porém, as chamas que brotam,
como um orvalho, onde tocam
tornam o amor maior

Diremos prado bosque


"Antologia  1945-1961"
1961
Eugénio de Andrade

Serão palavras só...
..........................................................................Ao René
Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração

Diremos luz ou mar
ou madressilva
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.

Mar de Tormentas planas

De Vasco Costa Marques
Mar de Tormentas planas
mar voraz
os afogados pendem de oliveiras
e o branco dos cascos sempre inertes
lembram algumas estrofes de Luís Vaz
na calma
cardos flutuam
como sargaços no ar que ondula
quase escondem monstros e sereias
a fome e a sede estreme
em pão e água
eucaristia magra
sem conduto
de um deus amnésico
que criou o Alentejo
sem porquê se lembrar julgando
agora que talvez
talvez que haja virtude
nas miragens de mar
com que se ilude

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura)


luis Suardíaz

UMA RAPARIGA MUITO ESTRANHA

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura),
do compromisso que cada um tem,
das elegias de Duino e de outros êxitos
de Rainier M. Rilke.
Acompanhei-a a um exame de francês,
a uma reposição de Calígula, a um cinema
atroz onde levavam Júlio César
na versão de Marlon Brando.

Dei-lhe o meu telefone, uma biografia de Tolstoi
ou Dostoyevsky, uma lapiseira azul, uma preciosa
gravação do pássaro de fogo.

Mostrei-lhe todas as persianas de velho estilo
que então conhecia, as livrarias secretas,
as paisagens dos arredores, um ídolo taino
que me emprestaram os amigos, alguns poemas.

Uma vez deixou entrever
que a humanidade não lhe interessava nada.

Não voltámos a ver-nos desde então.

(1936)

Sim Podem encontrar-me

De Vasco Costa Marques


Sim
Podem encontrar-me
à porta da igreja
a pedir esmola a viuvas recentes
e velhas pensionistas
dois anos de mesa de café
agradecendo a bica
de amigos antigos
dizendo "cá vamos indo,
não há-de ser nada,
estou à espera..."

O olhar entre enfadado e desgostoso
o cheiro da miséria a soprar para longe
dois anos a fazer-me encontrado
a mandar Boas Festas a deixar recados
"não posso deixar o número
tem havido avaria, isto hoje os telefones"
mensagens em garrafas
recolhidas porventura na Tasmânia
a pedir seja o que for
a agradecer coisa nenhuma
a informar que vendo horas de escrita
pela tarifa de caboverdianas da limpeza

Agora, pois, podem encontrar-me
à porta da igreja. Um sítio abrigado
um pouco frio, porém. Mas a gente que entra e sai raramente não deixa o seu óbulo (boa palavra esta), às vezes um queque
já sem bicos que o menino chuchou.
Tudo se aproveita.
Às vezes há música lá dentro.

Dês que vi, formosa Elvira


"Marília de Dirceu e mais poesias"
Tomás António Gonzaga

Dês que vi, formosa Elvira,
os teus divinos cabelos,
esses vivos olhos belos,
que inveja dos astros são,
foi-se, Elvira, foi-se embora
toda a paz do coração.
............E talvez, talvez que Elvira
............nem se lembre de que Alceu,
............se suspira,
............se delira,
............é só por motivo seu.

Deixa-me o desengano desta noite

De Vasco Costa Marques
Deixa-me o desengano desta noite
tão sabido e esquecido em cada dia
com a sua indigestão a dar sentido
ao bafo das palavras macias

Seja eu o cuidado dos amigos
de propósito desenterrado
para chorarem lágrimas sinceras
com grande espanto dos criados

Sem os meus vermes não seriam sérios
e bons amigos nesta noite agreste
quem sabe mesmo se estariam vivos
se eu não açambarcasse toda a peste? …

Passa-me um beijo (cala as frases claras)
vale mais do que trinta véganines
E enquanto dura a autópsia encostemos as caras
às luzes das vitrines

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei


1971
Jorge Luis Borges


LIMITES

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

................... De Inscripciones (Montevideu, 1923),
.....................de JULIO PLATERO HAEDO

As águas desceram o monte

De Vasco Costa Marques
As águas desceram o monte
invadiram o cemitério
desenterraram os mortos
e levaram-nos para outras navegações
muitos nunca tinham visto
o mar ao vivo

As águas turvam
o voo das aves

.Era uma vez um país


"Tempo da lendas das amendoeiras"
1964
José Carlos Ary dos Santos

.....................................Era uma vez um país
...............................................na ponta do fim do mundo
...............................................onde o mar não tinha eco
...............................................onde o céu não tinha fundo.
..................................... ...... ..Onde longe longe longe
......................................... .....mais longe que a ventania
........................................ ......mais longe que a flor da sombra
........................................ ......ou a flor da maresia
........................................ ......em sete lagos de pedra
....................................... .......sete castelos de nuvens
........................................ ......em sete cristais de gelo
........................................ ......uma princesa vivia.

A PRINCESA

Em sete cristais de gelo
nesse país eu vivia.

Creio que é um negócio feliz.

De Vasco costa Marques
Creio que é um negócio feliz. Boa
fonte assegura as nossas posições.
Escreva: «Envie — urgência — cotações —
six hundred tons of butter — CIF Lisboa.»

Temos talvez de entrar em concessões,
mas sem exagerar, pois, como vê,
solvemos a psicose de escassez.
Ponha: «incluídas — nossas — comissões.»

Mais uma vez a situação, repare,
exige rapidez e rapidez !
Você embarca às oito da manhã.

Trabalhe bem o crédito holandês.
O Delegado do Governo parte
no mesmo «clipper» para Amesterdam.

Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam


Tom Waits
Muriel
Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que eu vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Nós somos os que perderam

de Vasco Costa Marques
Nós somos os que perderam
a derradeira coisa que se perde
se as que não se perdem temos
quem por cá ficar que as herde

Alpercatas de memória
palavra de passe senha
que se impunha não esquecer

Hoje pés de calos grossos:
os alcantis da montanha
são ossos duros de roer

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.


"Poesias completas de António Gedeão"
1968
António Gedeão

Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Fotografia

Vasco Costa Marques com Henrique Mendes. Foram colegas de liceu, época de que deve datar a fotografia, e lembro-me de VCM e a sua mulher falarem dele com alguma ternura. A terceira pessoa, não sei quem seja.

A minha poesia:

De Vasco Costa Marques
A minha poesia:
estes calos grossos
de lágrimas de unhas cravadas
nas palmas das mãos
mãos de cavar caminhos
em cidades de pasmos de granito
este amar de pé prostitutas amargas
na angústia da sombra de qualquer desvio
esta raiva de lábios cerrados
com punhais de vingança
em sonhos de pesadelo
todos os farrapos de mim semeados sem resposta
todo o desejo de chegar
que me rói
até ao último pedaço de carne
todo este com unhas e dentes
em cortinas de lume de horizontes pintados
todo o sentir-me na raiz e nas sementes
todos os oprimidos esbulhados traídos
revoltados.

Em qualquer papel se anota um verso


- E?...
- Ah, esse morreu
- E morreu de quê?
- Morreu de respeito
...p'las instituições
- E sem uma praga?
- Sem uma praga
.........
Av. da Liberdade - Lisboa
14.45 hrs
Para Constância Lucas, http://constancalucas.blogspot.com/ . Porque gostou de ver, aqui vai mais uma imagem de Lisboa, esta com restos de iluminações natalicias em dia de chuva e 4º de temperatura à "hora do calor".

Sinal de cavalos paralelos


"Morfismos - Poesia 61" 
1961
Fiama Hasse Pais Brandão


Sinal de cavalos paralelos
castrados de rotações
infecundos para o vácuo
ou ventre ou crina vidro
ou espasmo
ou vidro ou branco
crina
Sinal de fêmeas
com ventre no bojo da lua
desflorada
o quadrante cor
nem pleno branco
ou crina ou vácuo ou espasmo
ou branco
O vácuo branco
nem cavalo espasmo vidro
o equilátero do tempo
prenhe
éguas
sirenes largas decapitadas retinas
o alarme dos ponteiros sucessivos ancas vértices
no branco no pleno no espasmo no vácuo
das cores dos sinais

Osso solidário

De Vasco Costa marques
Osso solidário
cavaleiro andante
a medula pronta
para o transplante
Ainda há Quixotes
heróis de virtudes
quase teologais
No entanto menos
do que "rocinantes"
técnicos de contas
já havia dantes
(hoje são de menos
ou talvez de mais)
de contas de contos
de contas correntes
de contas errantes
com engenharias
bem extravagantes
pelas zonas francas
de luxos selectos
para os cabedais
fazerem turismo
livres de indiscretos
em ilhas Caimão
onde a Inspecção
nunca põe o pé
nunca mete a mão