Nada mais que um cabelo é a fronteira

De Vasco Costa Marques
Nada mais que um cabelo é a fronteira
entre o país da liberdade e o espaço
onde até mesmo os astros são poeira.

Num e noutro me arrisco. Vim tão cedo
que só existo inteiro quando passo
pelas fronteiras nítidas do medo.

Tudo tem de ser fruto do meu braço.
Nem o desastre cedo.

Tudo o que puderes dizer-me


"A doença"
1963
Gastão Cruz

Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o
que ardidos sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo o amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Pregando a palavra

Vasco Costa Marques com...?

Ai que sol de fogo

De Vasco Costa Marques
Ai que sol de fogo
sob a minha mão!
Brumas... brumas só
teus cabelos são.

Mas são brumas ruivas,
ruivas de clarão!

Asas em tuas pernas...
asas te roubaram...

Baila, onda, baila!
Mar e sol e música
é teu corpo claro.

Mas há de ser assim, na vida, eternamente.


1925
Campos Lima

.............................
.............................

.........................CEGO
Mas há de ser assim, na vida, eternamente.
Por cada amor feliz uma dor permanente,
Por cada riso claro a lágrima vertida:
Nesta contradição é que consiste a vida.

...................OPERÁRIO
Ah não, virá um dia em que um sopro fecundo
Ainda há de mudar toda a face do mundo:
O dia em que se ouvir vibrante aquela voz
Que a vida anda a gritar há muito dentro em nós.

.................. cai o PANO
..........VAGAROSAMENTE

Demos três voltas à torre

De Vasco Costa Marques
Demos três voltas à torre
sem achar por onde entrar.. .
— Senhor guarda cavaleiro
porque não deixa passar?
(E o guarda de armas de breu
nem sequer nos respondeu)
Temos lá mulheres e filhas
temos o vinho e o pão...
Senhor guarda cavaleiro
não queira guardar ladrão,
(Mas ele não respondia
e firme e forte parecia)
Maldiçoado cavaleiro
que de nós estás a zombar
nos ramos deste pinheiro
vamos te já enforcar. ..

E fomos todos a ele
fomos a fazer-lhe guerra
mas logo ao primeiro impulso
cavaleiro se ia a terra —
que há muito que estava morto
e comido da bicheza
e assim esteve anos e anos
à porta da fortaleza.

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Uma antecipação de 24 anos ao que iria ser o 25 de Abril

Nada do que me dás me deves

De Vasco Costa Marques
Nada do que me dás me deves
esse é o preço do amor.
Livres, os instantes breves,
no relógio com que os medes,
tornam-se ainda menores.

Leis e trabalhos sabotam
os «pipe-lines» do amor;
julgam que o amor derrotam,
porém, as chamas que brotam,
como um orvalho, onde tocam
tornam o amor maior

Diremos prado bosque


"Antologia  1945-1961"
1961
Eugénio de Andrade

Serão palavras só...
..........................................................................Ao René
Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração

Diremos luz ou mar
ou madressilva
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.

Mar de Tormentas planas

De Vasco Costa Marques
Mar de Tormentas planas
mar voraz
os afogados pendem de oliveiras
e o branco dos cascos sempre inertes
lembram algumas estrofes de Luís Vaz
na calma
cardos flutuam
como sargaços no ar que ondula
quase escondem monstros e sereias
a fome e a sede estreme
em pão e água
eucaristia magra
sem conduto
de um deus amnésico
que criou o Alentejo
sem porquê se lembrar julgando
agora que talvez
talvez que haja virtude
nas miragens de mar
com que se ilude

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura)


luis Suardíaz

UMA RAPARIGA MUITO ESTRANHA

Falei-lhe de Kafka (um luxo nessa altura),
do compromisso que cada um tem,
das elegias de Duino e de outros êxitos
de Rainier M. Rilke.
Acompanhei-a a um exame de francês,
a uma reposição de Calígula, a um cinema
atroz onde levavam Júlio César
na versão de Marlon Brando.

Dei-lhe o meu telefone, uma biografia de Tolstoi
ou Dostoyevsky, uma lapiseira azul, uma preciosa
gravação do pássaro de fogo.

Mostrei-lhe todas as persianas de velho estilo
que então conhecia, as livrarias secretas,
as paisagens dos arredores, um ídolo taino
que me emprestaram os amigos, alguns poemas.

Uma vez deixou entrever
que a humanidade não lhe interessava nada.

Não voltámos a ver-nos desde então.

(1936)

Sim Podem encontrar-me

De Vasco Costa Marques


Sim
Podem encontrar-me
à porta da igreja
a pedir esmola a viuvas recentes
e velhas pensionistas
dois anos de mesa de café
agradecendo a bica
de amigos antigos
dizendo "cá vamos indo,
não há-de ser nada,
estou à espera..."

O olhar entre enfadado e desgostoso
o cheiro da miséria a soprar para longe
dois anos a fazer-me encontrado
a mandar Boas Festas a deixar recados
"não posso deixar o número
tem havido avaria, isto hoje os telefones"
mensagens em garrafas
recolhidas porventura na Tasmânia
a pedir seja o que for
a agradecer coisa nenhuma
a informar que vendo horas de escrita
pela tarifa de caboverdianas da limpeza

Agora, pois, podem encontrar-me
à porta da igreja. Um sítio abrigado
um pouco frio, porém. Mas a gente que entra e sai raramente não deixa o seu óbulo (boa palavra esta), às vezes um queque
já sem bicos que o menino chuchou.
Tudo se aproveita.
Às vezes há música lá dentro.

Dês que vi, formosa Elvira


"Marília de Dirceu e mais poesias"
Tomás António Gonzaga

Dês que vi, formosa Elvira,
os teus divinos cabelos,
esses vivos olhos belos,
que inveja dos astros são,
foi-se, Elvira, foi-se embora
toda a paz do coração.
............E talvez, talvez que Elvira
............nem se lembre de que Alceu,
............se suspira,
............se delira,
............é só por motivo seu.

Deixa-me o desengano desta noite

De Vasco Costa Marques
Deixa-me o desengano desta noite
tão sabido e esquecido em cada dia
com a sua indigestão a dar sentido
ao bafo das palavras macias

Seja eu o cuidado dos amigos
de propósito desenterrado
para chorarem lágrimas sinceras
com grande espanto dos criados

Sem os meus vermes não seriam sérios
e bons amigos nesta noite agreste
quem sabe mesmo se estariam vivos
se eu não açambarcasse toda a peste? …

Passa-me um beijo (cala as frases claras)
vale mais do que trinta véganines
E enquanto dura a autópsia encostemos as caras
às luzes das vitrines

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei


1971
Jorge Luis Borges


LIMITES

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

................... De Inscripciones (Montevideu, 1923),
.....................de JULIO PLATERO HAEDO

As águas desceram o monte

De Vasco Costa Marques
As águas desceram o monte
invadiram o cemitério
desenterraram os mortos
e levaram-nos para outras navegações
muitos nunca tinham visto
o mar ao vivo

As águas turvam
o voo das aves

.Era uma vez um país


"Tempo da lendas das amendoeiras"
1964
José Carlos Ary dos Santos

.....................................Era uma vez um país
...............................................na ponta do fim do mundo
...............................................onde o mar não tinha eco
...............................................onde o céu não tinha fundo.
..................................... ...... ..Onde longe longe longe
......................................... .....mais longe que a ventania
........................................ ......mais longe que a flor da sombra
........................................ ......ou a flor da maresia
........................................ ......em sete lagos de pedra
....................................... .......sete castelos de nuvens
........................................ ......em sete cristais de gelo
........................................ ......uma princesa vivia.

A PRINCESA

Em sete cristais de gelo
nesse país eu vivia.

Creio que é um negócio feliz.

De Vasco costa Marques
Creio que é um negócio feliz. Boa
fonte assegura as nossas posições.
Escreva: «Envie — urgência — cotações —
six hundred tons of butter — CIF Lisboa.»

Temos talvez de entrar em concessões,
mas sem exagerar, pois, como vê,
solvemos a psicose de escassez.
Ponha: «incluídas — nossas — comissões.»

Mais uma vez a situação, repare,
exige rapidez e rapidez !
Você embarca às oito da manhã.

Trabalhe bem o crédito holandês.
O Delegado do Governo parte
no mesmo «clipper» para Amesterdam.

Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam


Tom Waits
Muriel
Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que eu vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Nós somos os que perderam

de Vasco Costa Marques
Nós somos os que perderam
a derradeira coisa que se perde
se as que não se perdem temos
quem por cá ficar que as herde

Alpercatas de memória
palavra de passe senha
que se impunha não esquecer

Hoje pés de calos grossos:
os alcantis da montanha
são ossos duros de roer

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.


"Poesias completas de António Gedeão"
1968
António Gedeão

Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Fotografia

Vasco Costa Marques com Henrique Mendes. Foram colegas de liceu, época de que deve datar a fotografia, e lembro-me de VCM e a sua mulher falarem dele com alguma ternura. A terceira pessoa, não sei quem seja.

A minha poesia:

De Vasco Costa Marques
A minha poesia:
estes calos grossos
de lágrimas de unhas cravadas
nas palmas das mãos
mãos de cavar caminhos
em cidades de pasmos de granito
este amar de pé prostitutas amargas
na angústia da sombra de qualquer desvio
esta raiva de lábios cerrados
com punhais de vingança
em sonhos de pesadelo
todos os farrapos de mim semeados sem resposta
todo o desejo de chegar
que me rói
até ao último pedaço de carne
todo este com unhas e dentes
em cortinas de lume de horizontes pintados
todo o sentir-me na raiz e nas sementes
todos os oprimidos esbulhados traídos
revoltados.

Em qualquer papel se anota um verso


- E?...
- Ah, esse morreu
- E morreu de quê?
- Morreu de respeito
...p'las instituições
- E sem uma praga?
- Sem uma praga
.........
Av. da Liberdade - Lisboa
14.45 hrs
Para Constância Lucas, http://constancalucas.blogspot.com/ . Porque gostou de ver, aqui vai mais uma imagem de Lisboa, esta com restos de iluminações natalicias em dia de chuva e 4º de temperatura à "hora do calor".

Sinal de cavalos paralelos


"Morfismos - Poesia 61" 
1961
Fiama Hasse Pais Brandão


Sinal de cavalos paralelos
castrados de rotações
infecundos para o vácuo
ou ventre ou crina vidro
ou espasmo
ou vidro ou branco
crina
Sinal de fêmeas
com ventre no bojo da lua
desflorada
o quadrante cor
nem pleno branco
ou crina ou vácuo ou espasmo
ou branco
O vácuo branco
nem cavalo espasmo vidro
o equilátero do tempo
prenhe
éguas
sirenes largas decapitadas retinas
o alarme dos ponteiros sucessivos ancas vértices
no branco no pleno no espasmo no vácuo
das cores dos sinais

Osso solidário

De Vasco Costa marques
Osso solidário
cavaleiro andante
a medula pronta
para o transplante
Ainda há Quixotes
heróis de virtudes
quase teologais
No entanto menos
do que "rocinantes"
técnicos de contas
já havia dantes
(hoje são de menos
ou talvez de mais)
de contas de contos
de contas correntes
de contas errantes
com engenharias
bem extravagantes
pelas zonas francas
de luxos selectos
para os cabedais
fazerem turismo
livres de indiscretos
em ilhas Caimão
onde a Inspecção
nunca põe o pé
nunca mete a mão


2010
1 Janeiro - 14.02h
Lisboa - Chiado

Cão passageiro, cão estrito,


"Noticias do bloqueio - fascículos de poesia" 
1960
Alexandre O'Neill

Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui.
Cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia.
Cão estouvado de alegria,
Cão formal da poesia,
Cão-soneto de ão-ão bem martelado,
Cão moído de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pre-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema !

Despe-te de verdades


O Editor é Luís Pacheco (1925-2008), que em 1950 criou a editora Contraponto, responsável pelas primeiras edições (creio, não estou certo) de autores como Mário Cesariny, Vergílio Ferreira e Herberto Helder, entre outros.

****
Mário Cesariny de Vasconcelos
(in "Manual de Prestidigitação" - 1956 / capa já publicada neste Blogue)

Discurso Ao Príncipe de Epaminondas,
Mancebo de Grande Futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalento nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti

O casal de septuagenários

De Vasco Costa Marques
O casal de septuagenários
não abandonou a aldeia
diz que foi da barragem
diz que foi do gás natural
diz que foi do arranque da vinha ...
A verdade é que a aldeia
ficou como um cemitério de granito
com o casal repetindo
os gestos quotidianos
uma caixa de fósforos vazia
sem memória de lume
o gato foi atrás de pássaro
e não voltou
a cabra secou
era uma cobra José era uma cobra
o fim repele
o princípio do mundo
o que vale é que o monte
ainda não resvala
e em casa não precisam
de bengala

Alegrias, as não medidas.


1970
Bertolt Brecht
Lista das preferências de Orge

Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.

Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.

Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.

Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.

Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.

Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptíveis.

Cores, o rubro.
Meses, Outubro.

Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.

Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.

Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.

É difícil olhar

De Vasco Costa Marques
É difícil olhar
é difícil ouvir
é difícil pensar
é difícil dormir

é difícil não estar
é difícil não ir
é difícil optar
é difícil agir

é difícil passar
sem queimar os navios
é difícil amar
quando estamos vazios

é difícil não dar
é difícil pedir
Ai as portas prò mar
e o pavor de as abrir...

Recuso-me a todos os teus nomes


"Espelho do invisível"
1959
José Terra

Recuso-me a todos os teus nomes,
à tua forma, ao teu encanto, à tua
dúplice presença de egéria ou deusa,
ao teu sorriso capcioso, às unhas

sub-reptícias que sob a porta, à noite,
tentam surpreender-me no obscuro.
Calafeto a casa a lucidez e cerro
os meus ouvidos ao teu canto incerto.

Lá fora zunes sob a pele da noite
com ademanes que não vejo, sinto,
e por dentro de mim sou uma chama

vigilante e voraz que me alumia,
olho raiando as paredes do sono,
intervalo de fogo sobre o tempo.

Para onde os rumos perdidos

De Vasco Costa Marques
Para onde os rumos perdidos
dos meus dedos ?
Para onde senão para ti
Para onde a prece de silêncio
das horas de paisagem
Para onde senão para ti
Para ti que me aguardas
na pergunta de qualquer cruzamento
Humana de todos os desejos.

E tu reapareces a rir com a cabeleira bêbeda


"Vocação animal"
1971
Herberto Helder


E tu reapareces a rir com a cabeleira bêbeda, o ar é uma árvore onde a a estação treme com as folhas depressa, o assunto das colinas torna-se tenebroso e azul, reapareces do fundo radioactivo da ausência, boa-noite, fecho os olhos a essa coisa como entendido pavor, amo esta espécie de algum movimento contra a luz fixa, noite poeira de tabaco e agora o louvor da tua ressurreição, e a primavera é um choque no angélico barro adormecido, e os animais entram no espaço que te segue por toda a parte, e eu desejo regenerar a solidão e o sono, das negras dunas de seus corpos sobem estrelas operárias ferozmente embriagadas, e de novo cerro os olhos com ironia mortal e lentidão humana, eu digo: ela é uma paisagem repentina que se exerce — e agora a paciência devasta a minha vida respiratória como um símbolo, o coração tem sono leve, tu és doce num esquecimento inclinado para trás, boa-noite, e digo: o ar é magnético— tu ris para provar que somos eternos, mas eu sei que a idade se fez milagrosa, e estamos numa imagem voltada perigosamente para o terror e a paixão — a alegria como um princípio teatral, dizes tu, e os animais passam com a flor das cabeças dobrada num perfume forte — as raízes dos cometas cravam as unhas no ar, e tu reapareces.

Bom senso é arquivar a última carícia

De Vasco Costa Marques
Bom senso é arquivar a última carícia
numa burocracia sem memória,
perfeitamente isentos da cobiça
de conhecer, em nós, o fim da história.

Pois, quantas pontes já não construímos
de mais, para saber dos outros lados?...
Por isso nos sorrimos
Por entre os dentes ralos e parados.

Ó secreta violência


"Minha senhora de mim"
1971
Maria Teresa Horta

Violência

Ó secreta violência
dos meus sentidos domados

em mim parto
e em mim esqueço

senhora de meu
silêncio
com tantos quartos fechados

Anoitece e desguarneço
despeço aquilo que
faço

Ó semelhança firmeza
mulher doente de afagos

Auto de apreensão

"Auto de apreensão de dois livros aos dezoito dias do mês de Agosto de mil novecentos e sessenta e um na freguesia de Santo Condestável", em Lisboa.

Tão nítida a cidade e não ousamos

De Vasco Costa Marques
Tão nítida a cidade e não ousamos
arrancar a raiz que nos perdura neste
chão de penumbras desoladas.

De mesa em mesa, longamente, vamos
dando e roubando as mãos, a face escura,
entre velas compradas, apagada.

Voa, pássaro de asas inseguras!
A cada sopro novo alarga o pano
das tuas asas de empenhada alvura.

Pesa-te o chumbo de um repúdio de anos,
de pena em pena ganharás altura.

A primeira forma é ainda


"Entre duas memórias"
1971
Carlos de Oliveira
A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas;
mas todas pesam,
elaborando as leis da queda:
e caem; graves; reduzidas
ao espaço do seu peso;
o vôo é o singular abstracto,
melhor, a metáfora das asas,
que subentende coisas
por enquanto sem leis;
mas o plural, os voos, não:
tornam as formas nítidas,
limitam-nas à sua opacidade;
e a cada impulso no ar,
o peso reconduz os corpos
ao início do vôo:
os voos são regressos.

Canto porque pressinto

De Vasco Costa Marques
Canto porque pressinto
a face verdadeira
nesta com que, vivendo, à vida minto.
A cantar, tenho-a inteira.

Mas, tendo-a não tendo,
mais doi o agravo
de o poema ser livre
e o poeta escravo.

porque se defende


1975
José Viale Moutinho

porque se defende
envolto em pólvora
da seca e do cuidado
do sinal do passo

porque se envolve
do cuidado do passo
se defende do sinal
em pólvora da seca

porque de cuidado
do passo defende
do sinal envolto
em pólvora seca

porque em pólvora
do cuidado seco
passo do sinal
se defende envolto