Europa 1946

1946
Adolfo Casais Monteiro
EUROPA, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda,
nações com seu riso franco
abertas de par em par!

............

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-de ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!
Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livres modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar!

..................

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Renascerás, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre as nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
dos cofres digerindo o sangue do rebanho
— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

Capa de António Dacosta

(Publicado meses depois de terminada a guerra, aqui colocado semanas depois das eleições europeias. Apenas, porque sim.)

Na minha pele a ardência do deserto

De Vasco Costa Marques
Na minha pele a ardência do deserto
na minha alma a angústia da distância. ..
Trago a rudeza de um caminho aberto
não me peças que reze as orações de infância

Vasco Costa Marques no fotógrafo

... quando os meninos olhavam por óculos de osso. 

O osso buco bucólico

De Vasco Costa Marques
O osso buco bucólico
nu como cela de monge
fez dele o menino um óculo
para ver sonhos ao longe
sonhos que a onda revela
versáteis como a fuga das gazelas
leves como barco à vela
longe longe longe longe

De Mário-Henrique Leiria ? I


Manuscrito de Mário-Henrique Leiria 
Caxias 1952

Dois poemas em três folhas de papel barato e amarelecido:  um datado de Março de 1952 tendo a indicação forte de Caxias, o outro de 3 / 4 / 1953. Ambos assinados com “Mário Henrique”.
Estas folhas já por várias vezes me tinham passado pelas mãos quando remexia a papelada de VCM, mas só hoje me ocorreu a possibilidade de se tratar de poemas escritos na prisão por  Mário-Henrique Leiria.  Garantir, não garanto, mas o certo é que: a)  MHL assinava “Mário Henrique”;  b) as assinaturas são, pelo menos para olhos não treinados como os meus, a mesma que encontro no livro “Casos de Direito Galático”, autografado por ele; c) atendendo às datas, é possível que se tenha cruzado com VCM na prisão.
Aceito opiniões.

A rapariga foi presa

De Vasco Costa Marques
(A rapariga foi presa
por estar a beijar o noivo
no parque municipal.
Decreto-lei n.° tantos
do dia tantos do tal
vigésimo quarto ano
após a revolução;
Só tem direito de amar
quem pagar contribuição).

A moça dos olhos claros
como uma réstea de lua
num dia de fome e mais nada
saiu à rua...
Sacrificou-se no altar
de uma cama sem lençóis

……………..

Nos romances
que as costureiras gostam de assinar
as marquesas empenham «caracóis».

Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)


"DISCURSO 
sobre a reabilitação do real quotidiano"
1952
rio Cesariny de Vasconcelos


Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
— fumar, quere-se dizer.

Esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro com versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável.

O Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(Que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas dos outros)
Aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).
Sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
— Antes andar por ai relativamente farto
antes para tabaco que para Cesariny
(Mário) de Vasconcelos

Braços já decompondo-se

De Vasco Costa Marques
Braços já decompondo-se
nas garras
do mais louco relógio
os olhos correm
sobre as chuvas nocturnas
o destino
de alguém rato volúvel

A pele cresta as mãos. A cada instante,

De Vasco Costa Marques
A pele cresta as mãos. A cada instante,
é preciso acertar os olhos no crepúsculo
O cotão invadiu os olhos e os músculos
Frustrou-se a gravidez do deus mutante

Uma cadeira rangedoira, um dente
cortando gravemente a carne mole ...
um pedaço de pão que está pendente
do fotão que não vem de nenhum sol

Aprender os impulsos de outra língua,
aprender a prudência do presente
papiros quebradiços, Índia a Índia
Comidos por camelos e serpentes

Não vinga neste chão o que se vinga

Aprender que futuro não dura sempre

Li no jornal:


"Cantigas da dúvida e do perguntar"
(Edição da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa)
1970
José Fanha


Questão de palitos

Li no jornal:
                       "Os palitos portugueses
são os mais bem afiados do mundo"

Já pude dormir descansado



25 Abril - 20, e mais, anos depois

De Vasco Costa Marques
Abril 20 anos depois

O Porthos casou-se rico
Athos tornou-se aldeão
Aramis é quase bispo
o D’Artagnan … Capitão?

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ABRIL ABRIL

Abril Abril Abril novo
Riso aberto na cidade
Porta de passar o povo
Águas mil de Liberdade
----
As portas que Abril abriu
viram coisas do Diabo
Mouro não saiu nenhum
mas entrou muito ladrão
a gritar por Santiago
----
As portas que Abril abriu
são portuguesas castiças
Nunca mais levaram tinta
nem óleo nas dobradiças

A vida para além da poesia

Não fazia alarde, raramente falava das suas aventuras e desventuras políticas. Mesmo assim, aqui fica a nota sobre a sua prisão. Dando ouvidos à minha memória, terá havido uma segunda, já que a sua filha me falava de se recordar de, muito pequena, ir com a mão ver o pai à prisão, e não podia referir-se ao episódio referido no documento, pois à data tinha menos de um ano. Talvez alguma passagem mais curta e sem registo, coisa que presumo vulgar na época. 
No Post anterior, um poema bem neo-realista, a condizer.  

Rua cinzenta

De Vasco Costa Marques
Rua cinzenta —
à meia luz da tarde nevoenta
brincam creanças de rostos magros
e duros como os músculos dos braços dos pais.
Mulheres às portas
com as mãos cruzadas por sobre o ventre
olham paradas
paradas
como se estivessem esquecidas de viver
como se a tarde se cristalizasse
na expressão desfeita dos seus olhos sábios
sábios das vidas do lixo das pedras
da rua cinzenta
onde estagnaram
com as mãos cruzadas sobre os aventais
a ver brincar repetições de filhos
de rostos magros e duros
como os músculos dos braços dos pais.

Adis-Abeba tem belos eucaliptos


1971 (A antologia)
José Manuel

Nevou no Congo
Ninguém viu

in «Eros», 1953
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Pedro Tamen

Adis-Abeba tem belos eucaliptos
e quatrocentos mil abexins
ruas rasgadas para o sudoeste da cidade
e um grande leão coroado a caracóis
O sol cai sincero sobre o pó
mas eu tenho a minha mesa
à sombra onde três cubos de gelo
lentamente se transformam em John Haig
Logo à noite há um passeio até aos coqueiros
uma etíope cristã de nome Parka
e estrelas insolúveis evidentes
até que venha o sono
Com Adis-Abeba só sei falar por gestos
por isso eu sei de peles sobretudo morenas

Do Livro «Daniel na cova dos leões», 1970

Identificação

Profissionalmente,  Vasco Costa Marques foi um homem da publicidade. É da sua autoria o conhecido slogan "Bosch é bom", com frequência erradamente atribuído a Alexandre O'Neill.  Sem meter totalmente as mãos no fogo, creio ser também da sua autoria a popular campanha "Antracol vence o míldio", que durante uma boa parte dos anos 6o acompanhou as tardes de domingo dos adeptos de futebol . 
VCM teve a sua própria agência, a "CM Publicidade", e passou pela "Latina", entre outras. Vem a propósito recordar que pelos anos 60 e 70, a publicidade seria um dos (poucos) sectores de actividade que acolhiam gente da oposição ao regime com ligações conhecidas ao Partido Comunista.    

No percurso dos gritos, até onde

De Vasco Costa Marques
No percurso dos gritos, até onde
se esfumam os soluços mais distantes,
só a brisa marinha do teu nome,
só os pássaros claros dos teus olhos,
só a nossa perfeita árvore de carícias.

(Num carro para Campolide. Dia sexual.)


1956
José Gomes  Ferreira

(Num carro para Campolide. Dia sexual.)

uma mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
sentar-se ao meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.

(Mas que bom! Ninguem suspeita 
que levo uma mulher nua nos joelhos.)

Vejo onde estão os ventos, o repouso


De Vasco Costa Marques
Vejo onde estão os ventos, o repouso
permitido nos cumes deserdados.
Um a um os teus ossos, o teu corpo
nunca completamente desvendado.

Só com outras palavras é que falo:
rios alheios de cortar à faca.
Entre detritos, rosto meu, resvalo...
osso desfeito, espuma de ressaca …


Manuel Ribeiro de Pavia


in "Trinta e seis poemas e uma aleluia erótica", de Frederico Garcia Lorca

A morte


1968 (o livro)

Frederico Garcia Lorca

Malaguenha
(Tradução de Eugénio de Andrade)

A morte 
entra e sai 
da taberna.

Passam cavalos negros 
e gente sinistra 
pelos fundos caminhos 
da guitarra.

E há um cheiro a sal
 e a sangue de mulher 
nos nardos febris 
da beira-mar.

A morte 
entra e sai, 
e sai e entra 
a morte 
da taberna.

Aqui estou quieto e calado


De Vasco Costa Marques
Aqui estou quieto e calado
morto há não sei quanto tempo
bicho de conta enrolado
na manta do meu silêncio.
Esquecido um longo momento
de que uso pernas e braços
sou vela à espera de vento
na calma do desalento
do grande mar dos cansaços.

Reconciliamo-nos sempre.


1959 
Jorge de Sena
DEPOIS   DA   ESPERANÇA, 
QUALQUER   PAZ

Reconciliamo-nos sempre. 
No fundo, e às vezes nem muito ao fundo, 
a reconciliação nos espreita,
na mira da primeira fraqueza, da primeira humidade 
de lágrima ou de sexo. Ás vezes,
nem sequer disso: a poalha dispersa
que o sol define em branda agitação,
ou mesmo a própria luz num reflexo
(quanto mais breve e modesto melhor emociona)
lhe bastam.

Espreita-nos para que aceitemos, para que 
pensemos   noutra   coisa   ou  nesse  refúgio  das pequenas coisas
que é, diz-se, não pensar em nada. 
Reconciliamo-nos pois. E amamos logo tudo 
ou, mais subtilmente, fingimos que do tudo 
apenas uns sinais, algo de nobre 
e muito humilde. Assim 
como se a solidão se acompanhasse 
de muitas outras reconciliações humanas, simultâneas,
paralelas, mas não connosco, de outrém. 
Quase mais que a nossa própria nos espreita 
a reconciliação, suposta apenas, de outros.

1958

Exemplo IV

In - Gramática Portuguesa - ensinada pelos exemplos 
Ulysses Machado / 1oª edição, 1915

Fio a fio se despiram

De Vasco Costa Marques
Fio a fio se despiram
Foi como consumarem um suicídio

«Encruzilhada
Em que me debato
Vida privada
Bicho do mato

Mal nascituro
Valetudinário
Peixe inseguro
No aquário

Nada que esconda
O desacato
De um sonho de onda
Fome de gato

Nem palavras. Nem medos. Nem serenas


"Recado para a amiga distante"
1956
Daniel Filipe

Nem palavras. Nem medos. Nem serenas 
pálpebras descidas sobre o sonho. 
Apenas a tua mão na minha. E o rumor 
da música do cego, àquela esquina.

Amo-te. E depois? A vida escorre 
pelas paredes da prisão-país. Morrem poetas. 
Máquinas rodam no silêncio. Esperas 
acontecem, de súbito, violentas.

Como menino a quem foi dado o nome 
sem mistério de seus pais, 
olho sobre o teu corpo a ondulação da música 
e anseio as tuas coxas reveladas.

Não vale nada um “a propósito”

De Vasco Costa Marques
Não vale nada um “a propósito”
como a palavra “rapidamente”
nem beber vinho e o seu depósito
nem ir cortar a cuia rente

Não vale nada comprar bilhete
de avião para Xangai
nem ir fumar para a retrete
e esquecer-se a que horas sai

Não vale nada uma pitada
de cianeto no ananás
nem sustentar a gargalhada
com o andaime que tem por trás

Não vale nada a nota preta
quando o negócio já é tão escuro
nem escrever a carta aberta
em pleno dia em pleno muro

Não vale nada ser bom rapaz
atrás de cada causa perdida
nem só pra verem que se é capaz
casar com uma mulher da vida

Não vale nada este poema
se o epitáfio for lapidar
nem ir dormir para o cinema
com duas letras por liquidar

Não vale nada a reunião
de curso com discurso e tudo
quando parece que é no Japão
ou num congresso de surdos-mudos

Não vale nada amor sabermos
que a fruta verde já está sorvada
Não vale a pena amor morrermos
tão cedo amor não vale nada

As palavras são

De Vasco Costa Marques
As palavras são
o meu modo de vida
dicionário de sementes
sopa de pedra filosofal
dieta completa
priapismo crónico
se não senão
veia vazia
rota seringa
armazém de trespasse
o pássaro foi-se ?
pássaro adeus
ao deus dará
um sopro um vento
já vem ... virá ?

Soprar a cinza
quem sopra sofre
e logo em outro
sacode a caspa
da lapela
ajeita o nó
da gravata
e ala
para a Aula Magna

Descobrimos a ilusão do tempo


"Jardins de guerra"
1966
Casimiro de Brito
Descobrimos a ilusão do tempo, 
a possibilidade 
de controlar 
a respiração das estrelas.

De colar o corpo, de prolongá-lo
harmoniosamente
pelas coisas vivas.

Descobrimos a morte no pleno ofício
do seu movimento. Os pássaros que voam
no coração das pedras. O exílio da luz
na polpa dos frutos. O corpo que se recusa
ao próprio corpo.

Descobrimos o crime em cada pulso (arquipélago) 
da natureza —

descobrimos o amor, descobrimos a morte 
na liberdade do crime.

Gostar de ti


"Naipe de besoiros"
1965
Francisco Viana
Gostar de ti,
é caminhar ruas desertas;
ouvir bater horas perdidas;
continuar de mãos abertas
como folhas pelo vento desprendidas.

Gostar de ti,
é sentir o esvoaçar em derredor,
a todo o instante, duma sombra alucinada;
e escorrer entre os dedos da noite prolongada
um largo anseio, cada vez maior.

Gostar de ti,
é olhar a noite de negrume e solidão 
onde uma luz surgiu e logo se findou 
e ficar com os olhos cheios de escuridão 
julgando ter ainda a luz que se apagou.

Gostar de ti,
é despertar dum sonho angustiante
de gelados ventos fustigando a carne nua;
procurar em volta, um calor distante,
e sentir afinal que o sonho continua.

Gostar de ti, amor, 
é esta miragem deslumbrada 
de estar perto de tudo 
e não ter nada.

Exemplo III

Prisioneiros habituais

De Vasco Costa Marques
Prisioneiros habituais
Construíram hipódromos de aranhas
Percorriam um grão
Até se comoverem

Assim os agitou um vento débil
O seu bafo soprou a geada acumulada
Eram filhos dum ramo habituado
A ter sobrevivido a outro inverno

«Puseram-nos aqui para que sossobrássemos
Permanecemos para sobreviver
Mas o sinal do homem é construir a vida
Igual ao sonho que gerou no deserto

E o cansaço da vida é por vezes com flores
Satisfazer a fome é por vezes suicídio
Só o pão do suplício aceitado e negado
Multiplica o sabor da vida à nossa mesa

Nem só as minhas mãos e a tua sombra
Cortam o fio das veias entre nós
O amor é um terreno que precisa
Dos adubos do tempo»

Não desgosto da devota que passa cá por casa


1948
José ferreira Monte
Não desgosto da devota que passa cá por casa,
(Este verso, amigos, é de António Nobre?)
dando às palavras um tom vago, pobre,
e aos gestos velados uma forma rasa!
Mas se me vê, levanta o braço em asa
e diz: «salve-o Deus, pêlos seus pecados!» Descobre
do chaile negro a outra mão e — sino que dobre! —
pede para sentar-se à lenha em brasa!

Ao quente, com os dedos enlaçados no rosário, 
ora sem descanso, por este mundo, ao de lá... 
(Eu continuo com Junqueiro e com Cesário...) 
Os últimos sermões descreve-mos depois... 
Entretanto, beija o pão e bebe o chá... 
Para si, o outro e meu pai são Deus, os dois!

Exemplo II

In - Gramática Portuguesa - ensinada pelos exemplos 
Ulysses Machado / 1oª edição, 1915

Sentado no pontal olhava o rio

De Vasco Costa Marques
Sentado no pontal olhava o rio
ao sol ardia um peixe de cimento
começava a contagem negativa

A água de Juvêncio foi cortada
por falta de pagamento
Em que dia em que terra
importa tanto assim
o lugar e o tempo

Um lagarto fitou-o por momentos
logo continuou sua caçada pobre

Esquecido entre páginas II

Versão francesa do hino nacional, talvez para que a letra fosse entendida pelos franceses quando as tropas portuguesas o cantavam.   
Guerra 14/18, tropas portuguesas.
Foto obtida em:  www.cheminsdememoire.gouv.fr

Todos nós filhos de Deus …

De Vasco Costa Marques
Todos nós filhos de Deus …
Santos na sala do trono
boas almas no vestíbulo!
Pois mas não deixes Senhor
que alguém por impudor
e burlando incauta fé
nos venha inculcar que é
o boneco do ventríloquo

Eu não nasci aqui. O meu lugar é outro!


"A liturgia do sangue"
1963
José Carlos Ary dos Santos

Eu não nasci aqui. O meu lugar é outro! 
É na terra de fogo onde as palavras ardem, 
É na ilha de sal onde os ventos me levam, 
Na estepe de silêncio onde os homens me ladram.

É no falcão da noite que voa sobre as águas, 
No cavalo dos deuses que corre sobre o vento, 
No flanco da loucura, à direita do mundo, 
Na espora do silêncio, à direita do tempo.

É no ir dos navios que demandam o rumo 
Dum cabo de segredos que não podem dobrar, 
No galope do medo, na viagem do fumo, 
Nas terríveis passadas do destino a andar.

Eu não nasci aqui. O meu lugar é outro.
É onde for o sangue, o abismo, o espasmo, o pólen,
É onde eu não chegar, é onde for o grito
Em que se rasga o mundo quando nasce um homem.

Esquecido entre páginas I

Quando folheava uma gramática de 1915 caiu-me nas mãos um conjunto de folhas de caderno com letras de canções relacionadas com a guerra de 1914/18. 
Escritas  por alguém que viveu nesse período conturbado da história, sobreviveram quase 100 anos a mudanças de casa, e de estantes, entre as páginas de um velho livro que, quem sabe, não era também lido há décadas, para me caírem nas mãos como que acabadas de chegar de uma viagem no tempo. Não será poesia, mas é em verso e estava nas estantes de VCM, por isso, pode caber neste blog, assim como algumas gravuras da gramática, que dizem bem com a caligrafia.

Exemplo I

In - Gramática Portuguesa - ensinada pelos exemplos 
Ulysses Machado / 1oª edição, 1915

Entre os livros e o som

De Vasco Costa Marques
Entre os livros e o som
tão quase nada passa
corpo a corpo o universo
em cada célula só
uma caixa de sombra
resguarda na poeira

o tempo o templo o tempo.

Quando nos servem a água de um jarro


"A nova poesia brasileira"
(Antologia Publicada em Lisboa / 1960)
José Paulo Moreira da Fonseca


Quando nos servem a água de um jarro
o gesto é claro, é antigo e perfeito
como o das mulheres bíblicas,
aquelas serenas mulheres
que na beira de uma fonte
não recusavam a Eliezer ou Tobias
a límpida linfa de seus cântaros.
E é hoje ainda a mesma água que flue,
é hoje a mesma sede nossa,
é a mesma Jerusalém que se busca
pelos caminhos da terra.

Assinaturas e dedicatórias

Alexandre O'Neill

O gigante Adamastor

De Vasco Costa Marques
O gigante Adamastor
tinha um feitio danado
malcriado macambúzio
não se podia aturar

Vai Neptuno e castigou-o
tornando o gigante surdo
às melodias do mar

Por isso o pobre gigante
não larga de mão um búzio
que diz ele é a maneira
de ouvir sereias cantar

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa


"Tempo de fantasmas"
1951
Alexandre O'Neill

O revólver de trazer por casa

Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa 
fizeram já de mim o revólver de trazer por casa 
aquele que toda a gente uma duas vezes na vida 
encosta por teatro a um ouvido 
que acaba por se fechar envergonhado

Um bom revólver domesticado 
algumas noções de pré-suicídio mas não mais 
que a vida está muito cara e a aventura 
nem sempre devolve o barco que lhe mandam

Quem espera por mim não espera por mim 
e talvez me encontre por um acaso distraído 
mas no meu obsceno mostruário de gestos 
guardo o mais obsceno 
para quando a ilusão se der

Retrato

Manuel Marques, pai de Vasco Costa Marques, nascido em 1897, natural de Mafra, freguesia de Santo André.    

Dos tempos de quinhentos

De Vasco Costa Marques
Dos tempos de quinhentos
às lojas dos trezentos
nada de especiarias especiais
bugigangas do oriente
contas de vidro de cor
espelhinhos tesourinhas
cruzes de nosso senhor ...
Nem oiro nem diamantes
nem armas originais ...
almofadas e tapetes
detergentes aventais

Falámos tantos anos de tão pouco


"Teoria da fala"
1972
Gastão Cruz
Falámos tantos anos de tão pouco
entre os campos
do corpo
a fala fende os dentes
o corpo que te ouve ampara
a tua fala

É o último dia mas que dia 
poderia deter assim a boca 
dizíamos ainda que viríamos 
ouvir-nos um ao outro 
a fala dolorosa encontra os dentes 
e olho a tua boca como um corpo

Em qualquer papel se anota um verso

O retrato no topo da coluna da direita deste blog da autoria de Pilo da Silva, o amigo sempre mais referido e com mais ternura? 

Lá para trás do muro

De Vasco Costa Marques
Lá para trás do muro
há uma poça
e na poça
há um sapo cantador
que já foi príncipe em Espanha
com paço em Valadolid
ou talvez em Gibraltar
que sempre é porto de mar

Nos cais há sonhos assim
à espera da maré alta
que afogue o longo tormento
e os leve para o mar
que é sonho de qualquer sapo
ou do príncipe mais guapo

com paço em Valadolid
ou será em Gibraltar