Foram vertendo cuidadosamente

De Vasco Costa Marques
Foram vertendo cuidadosamente
Sobre a própria sombra um ácido
Que deixou nódoas salgadas
Nos lençóis abandonados

De gota a gota de cinzas
As suas mãos transbordaram
Da intimidade da morte

«E as palavras como foram únicas
E batidas de ventos e insubmissas

Seu azeite forrou muitas vezes os dias
Com simulacros de águas e campinas

Não sei se te recordas do teu nome
Havia uma árvore seca e a forma do teu corpo
Nós cruzámos os rios
Para estarmos calados»

Cecília Maria

Cecília, Filha de Vasco Costa Marques, em 1957, 1958?  
Conheci-a em 1976. Se, como ao outro, me é autorizado escrever coisas ridiculas: o poema -porque não? - mais belo porque alguma vez foi responsável. Saudade.
 

Para serem felizes

De Vasco Costa Marques
Para serem felizes
Inventaram os deuses
Ascéticos jejuaram
Até à hipocrisia

«Uma fonte onde a secura se pasmou
Pelos astros sobre as folhas entre as águas

Uma fonte com o sabor das tempestades
E do amor que as ultrapassa que as fecunda

Uma fonte simplesmente pedra e nuvem
Onde os homens bebam rectos e se encontrem»

Em qualquer papel se anota um verso

Para serem felizes

De Vasco Costa Marques
Para serem felizes
Promoveram naufrágios
O silêncio rilhou
Os seus ossos no escuro

«Entre os dois entre os dois fez-se um curto caminho
O mistério afogou-se no copo dos dentes
Ficou o sabor azedo do vinho
E dos frutos doentes

Mesmo o fim de semana nas Berlengas
A ver o mar a ver o céu a ver as frotas
Teve o fio de traição das lengalengas
Idiotas das gaivotas»

Identificação

Quando chego a casa


"Canto adolescente - poesia 61"
1961
CASIMIRO DE BRITO
encosto-me ao tempo

Quando chego a casa 
o deserto é outro

Abro a janela
recordo que houve sol
invento corpos no corpo das sombras
e a noite me encontra
silencioso e fácil
à beira do sono

Capitão de mar e guerra

De Vasco Costa Marques
Capitão de mar e guerra
fica em terra
na esplanada do café

Do mar chega-lhe o cheiro
e a neblina que o transporta
e da guerra
e do inferno
resta-lhe o troar se berra
num gesto de comando erguendo o braço
"É rapaz ... mais um bagaço!"

A gónica noite estremece


1959
RUI  KNOPFLI

Dawn

A gónica noite estremece
e despedaça-se
lá fora em chuva
nas vidraças.
Das   sombras,   das   solidões.
dos recantos recônditos
da noite e da chuva
saem homens.
Pela crosta da terra passa
um frémito de arrepio.
Chove.
Chove em África.
É noite.
É noite em África.
Mão desmedida ergue-se
no breu,
corpo da terra que as águas
fecundam, impregnam.
Silêncios, hesitações,
sono de séculos, jugos
racham em surdina.
Jogamos «bridge» na tepidez
do «living»,
reclinamo-nos na norma
penumbra erótica
dos cinemas,
ou dormimos em calma
digestão.
Para lá
da noite angustiada
monótono acalanto ergue
a voz.
No inescrutável,  nas  sombras,
nos recantos recônditos de agónïca noite
África desperta…

Do que nunca serei regresso

De Vasco Costa Marques
Do que nunca serei regresso
Como a chuva é do vento eu sou daqui ...
marinheiros para sempre submersos ...
quantos corpos vazios que vesti

Uma árvore ao fim da tapada
uma esquina na mesa de um bar
uma praia de areia privada
a coutada onde não vou caçar

a moeda na slot machine
o olhar entrevisto na gare
a memória submissa de um crime
um destino para transplantar

Encravou-se a roleta russa
são cinzentas as manchas de sangue
são as mesmas as sombras convulsas
dos bordéis de Pequim a Los Angeles

O pedrado sonâmbulo trouxe
novo tema para ser odiado
de repente o livro fechou-se
e finou-se no quarto fechado

Como o cego na escada do Metro
como a hora dos travestis
como duas alianças no prego
como o lixo de um dia feliz ...

No percurso de uma estátua equestre
no dizeres-me naquela manhã
no rasgão do palimpsesto
na meada enleada de lã

Mercenário de todas as Franças
Vagabundo de qualquer Brasil
explodiram-me as veias da esperança
em Chernobyl

A morte


"Cidadelas submersas"
1961
MARIA TERESA HORTA

Estátua

A morte
é lugar sem sexo
na imagem do sono
Febre vertical nas veias onde os barcos odeiam a estátua
É o naufrágio
no cume da boca
onde
apesar das pirâmides
enroladas nos
rios
nós temos nos lábios
o medo lúbrico dos
sinos

Assinaturas e dedicatórias

David Mourão-Ferreira

A pena de si mesmos alastrou nas paredes

De Vasco Costa Marques
A pena de si mesmos alastrou nas paredes
Um grande dó confundiu-os com o mundo

Um secreto magneto inclinou
Sua haste nocturna
A língua partilhada revelou
Uma velha raiz familiar

Foi como se nascessem de um só ventre
E se tivessem visto antes da luz

«Inesperado como os jogos dos meninos
E contudo no tempo mais propício
Rasgou os nossos corpos em mil bocas
Abriu as flores curvou os rios forjou os céus
E amoleceu de mel gostoso os nossos lábios
Os nossos lábios como um dia de verão»

Desvio dos teus ombros o lençol


"Lira de bolso"
1969
DAVID MOURÃO-FERREIRA
Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que   é   feito   de   ternura   amarrotada, 
da frescura  que vem depois  do Sol, 
quando  depois   do  Sol  não  vem mais  nada.

Olho a  roupa  no  chão:   que tempestade! 
Há restos  de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
onde uma  tempestade  sobreveio...

Começas a  vestir-te,  lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para   enfrentar   lá  fora  aquela   
gente que   da   nossa   ternura   anda   sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a  despimos  assim  que estamos  sós!

Ama-me como os pobres, vem despida

De Vasco Costa Marques
Ama-me como os pobres, vem despida
de toda a exigência.
Já temos tanto imposto nesta vida !...

O que de amor criarmos nos pertence
como o ar, respirado e individido,
como o morrermos voluntariamente
por um sonho que é, noutros só, cumprido.

CERTAS horas que passaram



1949
LUÍS AMARO

Poema do Tempo Perdido

CERTAS horas que passaram, 
Ah!  dou-as por invividas: 
Poeira incerta, infantil 
Que os ventos levaram...

Seu rasto é fumo e nada, 
Mentira, confusão. 
Certas horas diluídas 
Não foram, nem são.

Não me reconheço nelas, 
Porque lá não fui presente. 
Cinza inútil, vaga névoa .. 
— Simplesmente.

Ilustração de António Areal
"Poesia dos Dias Úteis"

Onde as raízes sobem mais fundo

De Vasco Costa Marques
Onde as raízes sobem mais fundo
e os ramos mais alto
na terra e nos frutos te possuo

Tu me brotas regatos
com rumorosos versos entre as pedras
e barcos de velas ao longo dos rumos

Oh madrugadas de orvalho
o Sol chorou na relva dos teus olhos

Que oceanos se vão desfeitos
na espuma das tuas mãos

Na tua boca amadurecem pomos
e nos teus olhos cristalizam fontes
Meus braços te buscariam em todos os horizontes

À tua sombra crescem os desejos
como as heras e os musgos na nascente

És como a terra fértil dos outeiros
desentranhando-se em pinheiros
e em vinhedos roixos na vertente.

Por que foi que me deste os melhores frutos
e a água mais pura e transparente.

Cecília Irene

Mulher de Vasco Costa Marques

Faz-te ao mar

De Vasco Costa Marques
Faz-te ao mar
nem que te obrigues a fazer primeiro
os estaleiros em que os mares se fazem
Os mares não se ganham por herança
nem há planos de poupança-mar
Assim vai vai mesmo sem bonança
num ontem recriado o mais tardar
enquanto a chama arde
que logo ou amanhã já será tarde

Na manhã de cair nas minhas mãos em concha

De Vasco Costa Marques
Na manhã de cair nas minhas mãos em concha
a certeza concreta do primeiro fruto,
o grito da tua boca
há-de dormir conchegado
pelo calor dos meus lábios.

E hei-de vestir o teu corpo
dolorido, ensanguentado,
com a folhagem mais verde
e mais macia do prado,

que só para ti, amiga,
meu campo foi semeado.

O inexprimível viaja para além da morte


1962

JOÃO RUI DE SOUSA

As bruxas de Salém

O inexprimível viaja para além da morte
— e a morte aproveita.

O inexprimível rasga-se pelo céu azul
— e há fogo no fogo.

Só a vingança está pronta
— e espera pela manhã.

Só o silêncio viaja 
— e medita e é sangue.

Vai o bom tempo nas florestas,
é verdade:
Stravinsky, ali. Uma flauta.

E há cruzes possíveis, há espadas 
ao alto.

Há mortes já prontas
                                A-LA-RAN-JADAS.
……………………………..

Alô, Miller!
Não é só desse lado do Atlântico.

Ó Senhor do Bonfim!

De Vasco Costa Marques
Ó Senhor do Bonfim!
Ó meu divino sócio!
Já que a vida é ruim
e me fizeste assim
sem queda pró negócio:
Ao menos para mim...
um osso e ócio

Estou no meu país. Abro as passagens.

De Vasco Costa Marques
Estou no meu país. Abro as passagens.
Já trabalhei demais para esquecer-me.
O motor de um vulcão torna viagem
das raízes do sangue à epiderme.

A nossa mesa é longa e povoada
não há medo ou silêncio na comida.
Sob o carro que esmaga
um osso nu pode dizer a vida.

Esta dúvida atroz antiquíssima e alegre


"Sete poemas de solenidade e um requiem"
1952
CARLOS EURICO DA COSTA

Esta dúvida atroz antiquíssima e alegre
dum mito longínquo inaceitável e verdadeiro
— a costureira pretendendo viver em Nova York
revoltada do contraste idêntico
ao da metafísica vulgo a fera-feroz
com a filosofia de Erasmo O Sábio na Sombra

Se bem que este axioma
seja idêntico à relação inversa
que levou Einstein ao encontro único com Platão
num ponto desconhecido do Universo

teremos:
primeiro —a deformação geométrica do triângulo 
segundo —o homem despersonificado e morto

Um bom anúncio

Entre os muitos, e desorganisados, papéis de Vasco Costa Marques encontrei este anúncio que encaixa aqui muito bem.
Trata-se, julgo, da editora que todos os anos nos oferece o conhecido Borda D'Água.  
O novo endereço é:  www.editorialminerva.com

O nosso amor, amiga, é como uma criança

De Vasco Costa Marques
O nosso amor, amiga, é como uma criança
que estende para a luz uns vagos gestos raros,
mas tem, a arder nas mãos, dez unhas de esperança,
e uns olhos cor de mar, incrivelmente claros.

Os dos bilhetes postais


"Poemas de ponta e mola"
1975
MENDES DE CARVALHO
Os / As

Os dos bilhetes postais
os dos cartões de visita 
dos anúncios nos jornais 
os das palavras cruzadas
dos retratos pornográficos
do amor em dias certos
do amor em certos dias
os que nos contam a fita
os que só falam dos filhos
e lá vem o retratinho
os que são muito machistas
as do furor uterino 
os caçadores de autógrafos 
os que sabem sempre a última 
os dos parabéns por tudo 
dos sentimentos por nada 
os que mandam boas-festas 
os que estão sempre doentes 
os que eles é que sabem 
os que não sabem pevide 
os que se riem por tudo 
os que não riem de nada 
os da lágrima na esquina
os que falam no cinema 
os que ressonam no dito 
os que são sempre os melhores 
os nem homens nem mulheres 
os que só têm memória 
os que perderam a mesma
os da última anedota
os que impingem a receita
e os que fazem dieta
os que nos mandam missivas 
e escrevem em grande estilo 
os que só falam de si
os que só falam dos outros 
os mais isto e mais aquilo

Osso com osso entranhado,

De Vasco Costa Marques
Osso com osso entranhado,
dente fincado no dente,
tutano que resta à gente
por osmose misturado.

Osso túnel do amor,
patamar, ponte, jardim,
osso contabilidade:
conta-corrente de mim;

osso que pede esqueleto
multiplicado, arquitecto,
explosão de sol inquieto,
língua-discurso directo;

osso de dar-receber:
osso que num alvoroço oiço
em meu osso ranger.

Assinaturas e dedicatórias

Mário Cesariny de Vasconcelos

O teu instante


"Dimensão encontrada"
1957 
NATÁLIA CORREIA

Quando falamos de nós falamos dos outros

O teu instante
É o da pedra subitamente estacada
No ar
Entre as esferas.
Não este
Vulto aqui em ângulo recto
Com unhas de cristal.
A face que te pertence é sempre de perfil
Como a trajectória duma seta
Exilada na ponta.
Nasceste para depois da tua última morte.
As estátuas que te reflectem
Desconhecem-te nas areias
Que a tua carne marítima humedece.
É sempre fora dos teus olhos
Que as tuas pálpebras se fecham
Sobre a mitologia do teu sexo:
Pluma cor das violetas
Em forma de arco.

Era um gasto jardim com asas rotas

De Vasco Costa Marques
Era um gasto jardim com asas rotas

No fumo azul da tarde nem a brasa de um grito
Rebelava no peito o apodrecido fogo

Todo um muro perfeito o afogava nos dedos
Resistir foi apenas o silêncio

«Vais como rosa solta
Sobre a poeira acumulada
Dois lagos habituados à vigília
Dois lagos lentamente despovoando-se
Beijam a par e passo os teus percalços

Foi-se empalidecendo o brilho das janelas
O silêncio é um gato preto
Adormecido há muito no teu colo»

Vasco Costa Marques

Das tuas quatro estações

De Vasco Costa Marques
Das tuas quatro estações
fiz o mar e fiz um porto:
tens o acre dos limões
e todo o mel no teu corpo.

Dispersam-me os teus cabelos,
nos teus braços me prolongo,
ardo e em pura chama alongo-me
aos teus encontros mais belos.

Percorro-te a meu prazer,
nas tuas águas me lavo,
foi-se o tempo quer-não quer
de vivermos separados.

Não tem o dia a medida
das montanhas do mistério:
vens e vais, sou percorrida
estrada do teu império.

O sol e o amor são virtudes


"Colheita perdida"
1948
CARLOS DE OLIVEIRA
Cantiga

O sol e o amor são virtudes 
como o vento e a juventude: 
Pecado é esta clausura 
que nos fala de virtude. 
Teus desejos como as aves 
voem da sombra onde estão: 
A virtude é a liberdade, 
o pecado é a solidão. 
Que o vento te despenteie 
e o sol te doire o sorriso: 
Para perdoar a morte 
é que o amor é preciso.

Fomos dedo após dedo hipotecando

De Vasco Costa Marques
Fomos dedo após dedo hipotecando
vida para vida preservar
Uma espuma sumida um rasto brando
é tudo quanto resta desse mar

O amor mesmo o amor veste à medida
da jura eterna previamente adiada
de uma discreta intriga consentida
da sombra de uma letra protestada ...

Tudo desse tamanho raso e estreito
que o cilindro do ódio nos consente
tudo truncado curto insatisfeito

Entre coisinhas ralas desfalece
o olhar que se alongava no oriente
só grande e digno o ódio ao ódio cresce

Para serem felizes

De Vasco Costa Marques
......Para serem felizes
......Desmancharam as horas
......O tédio penetrou
......Na areia dos sentidos

«O fim da tarde é um longo peixe morto
Vinagre de distantes aventuras
E as palavras descendo o pano cor
Topázio esvaiem na sombra as figuras

Todas as portas são um copo de água
Sem a sede de alguém que as justifique
Só esta mágoa a minha mágoa trago-a
De estar onde ninguém me diz que fique

Só ela corre entre as estátuas clara
Só ela nada nas lagoas nua
E discretos nenhum olhar repara
Como na mãe que dá o seio na rua»

Abandono agora estas palavras


"Algumas palavras"
1969
EDUARDO GUERRA CARNEIRO

Abandono agora estas palavras
e deixo que elas sirvam de pedal.
À quinta-feira tombam desarmadas.
Em desleixo as largo. Não são estas
já minhas as palavras. São papel.
Delas me sirvo e logo as abandono.
As palavras violo. O sol lhes roubo.
Para nada mais as quero.
Nem sequer me pertencem.
São coisa digna. Seriam
coisa séria. Caminho entre palavras
calcinadas. São símbolos
apenas. Letra a letra as destruo.
Reconstruo mais tarde
outro edifício. Com outras
ou restos destas mesmo.
Para que mais queria eu palavras?
Palavras não deflagram.
Só servem de rastilho.

O plátano que matou Camus

De Vasco Costa Marques
O plátano que matou Camus
ao quilómetro 88,4
da Estrada Nacional
entre Port-sur-Yonne
e Paris ...

Aqui, o Triângulo das Bermudas
chamava-se Chateau de Lourmarin
Claro o plátano ...
O plátano não estava lá
Ou estava dentro dele, Camus,
ou para lá do portal
noutro espaço noutro tempo
Em Vénus (por exemplo)
num dia de todos os dias de chuva
ou
em Hiroshima (por exemplo)
no dia do Big-Bang (por exemplo -
só por exemplo e depois de saber
se haveria japoneses na sala)

Green Peace defende o plátano
que desde então tem estado
sob vigilância apertadíssima

Não nos deixemos ir assim tão cedo

De Vasco Costa Marques
Não nos deixemos ir assim tão cedo
no esquecimento de que somos breves.
Antes o frio do medo,
se o medo obriga ao passo que se deve.

Nunca o poema ganha o que persegue :
ponte sempre cortada antes da margem,
a única alegria que lhe serve
é o riso a que serve de passagem.

Em qualquer papel se anota um verso

Trazes a mesma saia há quatro anos,

De Vasco Costa Marques
Trazes a mesma saia há quatro anos,
mas o sorriso afasta os teus cabelos
tão docemente...
e desce à toalha fina dos teus seios
como um longo cabelo desprendido.

O DOMINGO era uma coisa pequena.


"As mãos e os frutos"
1948
EUGÉNIO DE ANDRADE

Pequena elegia chamada domingo

O DOMINGO era uma coisa pequena. 
Uma coisa tão pequena 
que cabia inteirinha nos teus olhos. 
Nas tuas mãos abertas 
estavam os montes e os rios 
e as nuvens. 
Mas as rosas, 
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Aterrar, espantar, amedrontar,

De Vasco Costa Marques
Aterrar, espantar, amedrontar,
corromper, compelir, impor, forçar,
iludir, perverter, desvirtuar,
cuspir, espezinhar, escravizar,

embrutecer, escarnecer, violar,
humilhar, desprezar, vilipendiar,
agredir, explorar, aprisionar,
mentir, espoliar, arruinar,

bater, envilecer, atrofiar,
desiludir, rasgar, atraiçoar,
extorquir, subverter, desbaratar,

atrair, investir, encurralar,
ignorar, abortar, assassinar...
É da gente que estamos a falar.

Pela noite fora

De Vasco Costa Marques
Pela noite fora
O dia cá dentro
abrindo janelas
todas a nascente

e depois que importa
se é a sul ou norte
se é mesmo a poente
que se encontra a porta

que me importa isso
uma porta falsa
um velho feitiço
e ala que é serviço

E isso sim importa
com porta ou sem porta
postigo ou portão
se estás vivo sais

se estás morto não

Quem são? II

Ficam-nos, em caixas velhas, fotografias de gentes e momentos que não foram nossos, e interrogamo-nos: quem são, onde estavam e quando, o que faziam?
Reconheço, ou julgo reconhecer, alguns, outros desafiam-me, lá de longe, do tempo. 
Alguém sabe (usando os comentários) dizer-me os nomes?
(Para aumentar clique sobre a fotografia)

Quem são? I

(Para aumentar clique sobre a fotografia)


E nada disto é pois de confiança

De Vasco Costa Marques
E nada disto é pois de confiança
E nada disto vive integralmente
A parteira morreu com a criança
O grito sufocou entre parêntesis

Bolor nas velhas cartas na flor seca
O cravo abandonado ainda ecoa
Saber partir não quer dizer que chega
............................................................
Becos demais nas noites de Lisboa

A cabeça de arcaifaz (sismo)


"ALGUNS MITOS MAIORES
alguns mitos menores 
propostos à circulação pelo autor" 
1958
MARIO CESARINY DE VASCONCELOS



(Para ler clique sobre a imagem)

Foste para mim

De Vasco Costa Marques
Foste para mim
como o iceberg
foi para o Titanic
mal tive do teu corpo a visão breve
fui a pique