Nem olhos nem amor há que descubram
Na manhã de cair nas minhas mãos em concha
O inexprimível viaja para além da morte

Ó Senhor do Bonfim!
Estou no meu país. Abro as passagens.
Esta dúvida atroz antiquíssima e alegre

1952
Um bom anúncio
O nosso amor, amiga, é como uma criança
Os dos bilhetes postais

1975
Osso com osso entranhado,
O teu instante

1957
Era um gasto jardim com asas rotas
Das tuas quatro estações
O sol e o amor são virtudes

1948
Fomos dedo após dedo hipotecando
Para serem felizes
Abandono agora estas palavras

1969
O plátano que matou Camus
Não nos deixemos ir assim tão cedo
Trazes a mesma saia há quatro anos,
O DOMINGO era uma coisa pequena.

1948
Aterrar, espantar, amedrontar,
Pela noite fora
Quem são? II

E nada disto é pois de confiança
A cabeça de arcaifaz (sismo)
Foste para mim
Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo

1956
Se eu te falasse
Vinha do outro lado do tempo do inverno seguinte

1969 (?)
Deixemo-nos de megalomanias
Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo
Quero-te
Clube Português de Poesia II
E depois de Melinde e Calecute
Ai a maré
Quando os deuses chegaram


A minha mão sinistra
Penduraram o esqueleto
Clube Português de Poesia I

(Acontece que, depois de ter ganho os Jogos Florais Universitários, no “Dia do Estudante”, me animei a concorrer afoitamente ao "Prémio Revelação", da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era dirigida por um naipe de notáveis em que coabitavam elementos da oposição intelectual e do próprio regime, numa promiscuidade literária pouco propícia à isenção. ... Mas, afinal, o prémio acabou por não ser esse ano atribuído, na área da poesia... A razão dessa omissão vim depois a sabê-la, através do poeta Armindo Rodrigues, que me procurou a mim e a um amigo poeta também concorrente, o João Guterres, explicando-nos que devido a um desacordo entre os membros do júri, que chegou a pensar atribuir-nos o prémio ex-aequo este tinha decidido anulá-lo. E isso devido a divergências mais políticas do que literárias, como nos confidenciou esse poeta (neo-realista) num desabafo com o seu quê de patético, numa noitada em sua casa, em que tivemos de ouvi-lo ler, narcisicamente, entre copos de uísque, os seus próprios poemas...
Ficámos edificados, eu e o meu perplexo confrade. Melhor dizendo: enojados. E decidimos criar, para defesa da poesia contra a sua desonra - ou a dos poetas, como diria Benjamin Péret - uma associação de jovens escritores. Ela viria a chamar-se, mais restritamente, Clube dos Poetas, tendo chegado a ter uma existência embrionária, com a participação de poetas ainda não "consagrados", como o João Rui de Sousa, o Vasco Costa Marques, o Nuno Gonçalves, o Carlos Monteiro dos Santos, a Teresa Rita Lopes e outros que já esqueço. )
In, Seabra, José Augusto (2001) , Antologia Pessoal, Thesaurus Editora
Ocultámos o amor como a falta de um dente
Dissemos chave e o som foi de uma porta
Poeminha
Cada poema é um fruto
de gosto peculiar:
cada um descobre nele
o gosto que lhe dá gosto
de que gosta de gostar
senão zás num bater de asa
voa pra outro lugar
se for pra perto melhor
ninguém está pra se cansar
Ainda que se hermetize
e por vezes seja brinde
de bolinhos de Taiwan
em muita trova persiste
como colher sem decoro
entre marido e mulher
o ribombar e o choro
do Alencar de Alenquer
Céus, nuvens, ondas, ventos,

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.
Elementos da natureza gastos por tantos versos,
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.
Aquela que eu amei um verão na praia
— pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.
A que veio dos fjords e vivia num barco
encostado no cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção...
Existe? Fugiu à ocupação? Casou? Teve filhos?
Engordou? Odeia os barcos? Morreu prisioneira?
'Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente, ..
Notícias do seixo branco que trocamos
com palavras de amor em inglês mal decorado.
Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.
Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe
o tecto dos meus dedos.. o tabaco
entre duas facturas.. lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã
Recolhe cedo a casa.. longos pássaros
debicam-lhe o silêncio.. ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.
Procuro entre detritos...recupero
uma voz entre mil...uma só sílaba
depois abro as janelas.. precipícios
torres que não encontro na memória
É esta a minha noite com ruídos
de máquinas crescendo um céu de vinho
sem badana em couché sem necrológio
senão suicídios lentos verdadeiros
Penso este só guisado de feijão
com líquenes que a luz não atormenta
um ventre destruído acrescentando
a ternura do pão.. um suor morno
Aqui nos reunimos claramente
um tremular de velas a friagem
dos canos fundos que nos despe longe
longe.. sem o prenúncio da manhã
Estas noites de mar

1961
MARIA TERESA HORTA
Estas noites de mar
incrustadas
de luz
ou estes olhos
de polos
distanciados no nada
Este ódio de chuva
este dia montanha
Esta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios na
montra
Este ardor de palavras
no perfil
das bocas
este grito que
tenho
nas mãos misturadas
ou mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido das casas


















