Esta dúvida atroz antiquíssima e alegre


"Sete poemas de solenidade e um requiem"
1952
CARLOS EURICO DA COSTA

Esta dúvida atroz antiquíssima e alegre
dum mito longínquo inaceitável e verdadeiro
— a costureira pretendendo viver em Nova York
revoltada do contraste idêntico
ao da metafísica vulgo a fera-feroz
com a filosofia de Erasmo O Sábio na Sombra

Se bem que este axioma
seja idêntico à relação inversa
que levou Einstein ao encontro único com Platão
num ponto desconhecido do Universo

teremos:
primeiro —a deformação geométrica do triângulo 
segundo —o homem despersonificado e morto

Um bom anúncio

Entre os muitos, e desorganisados, papéis de Vasco Costa Marques encontrei este anúncio que encaixa aqui muito bem.
Trata-se, julgo, da editora que todos os anos nos oferece o conhecido Borda D'Água.  
O novo endereço é:  www.editorialminerva.com

O nosso amor, amiga, é como uma criança

De Vasco Costa Marques
O nosso amor, amiga, é como uma criança
que estende para a luz uns vagos gestos raros,
mas tem, a arder nas mãos, dez unhas de esperança,
e uns olhos cor de mar, incrivelmente claros.

Os dos bilhetes postais


"Poemas de ponta e mola"
1975
MENDES DE CARVALHO
Os / As

Os dos bilhetes postais
os dos cartões de visita 
dos anúncios nos jornais 
os das palavras cruzadas
dos retratos pornográficos
do amor em dias certos
do amor em certos dias
os que nos contam a fita
os que só falam dos filhos
e lá vem o retratinho
os que são muito machistas
as do furor uterino 
os caçadores de autógrafos 
os que sabem sempre a última 
os dos parabéns por tudo 
dos sentimentos por nada 
os que mandam boas-festas 
os que estão sempre doentes 
os que eles é que sabem 
os que não sabem pevide 
os que se riem por tudo 
os que não riem de nada 
os da lágrima na esquina
os que falam no cinema 
os que ressonam no dito 
os que são sempre os melhores 
os nem homens nem mulheres 
os que só têm memória 
os que perderam a mesma
os da última anedota
os que impingem a receita
e os que fazem dieta
os que nos mandam missivas 
e escrevem em grande estilo 
os que só falam de si
os que só falam dos outros 
os mais isto e mais aquilo

Osso com osso entranhado,

De Vasco Costa Marques
Osso com osso entranhado,
dente fincado no dente,
tutano que resta à gente
por osmose misturado.

Osso túnel do amor,
patamar, ponte, jardim,
osso contabilidade:
conta-corrente de mim;

osso que pede esqueleto
multiplicado, arquitecto,
explosão de sol inquieto,
língua-discurso directo;

osso de dar-receber:
osso que num alvoroço oiço
em meu osso ranger.

Assinaturas e dedicatórias

Mário Cesariny de Vasconcelos

O teu instante


"Dimensão encontrada"
1957 
NATÁLIA CORREIA

Quando falamos de nós falamos dos outros

O teu instante
É o da pedra subitamente estacada
No ar
Entre as esferas.
Não este
Vulto aqui em ângulo recto
Com unhas de cristal.
A face que te pertence é sempre de perfil
Como a trajectória duma seta
Exilada na ponta.
Nasceste para depois da tua última morte.
As estátuas que te reflectem
Desconhecem-te nas areias
Que a tua carne marítima humedece.
É sempre fora dos teus olhos
Que as tuas pálpebras se fecham
Sobre a mitologia do teu sexo:
Pluma cor das violetas
Em forma de arco.

Era um gasto jardim com asas rotas

De Vasco Costa Marques
Era um gasto jardim com asas rotas

No fumo azul da tarde nem a brasa de um grito
Rebelava no peito o apodrecido fogo

Todo um muro perfeito o afogava nos dedos
Resistir foi apenas o silêncio

«Vais como rosa solta
Sobre a poeira acumulada
Dois lagos habituados à vigília
Dois lagos lentamente despovoando-se
Beijam a par e passo os teus percalços

Foi-se empalidecendo o brilho das janelas
O silêncio é um gato preto
Adormecido há muito no teu colo»

Vasco Costa Marques

Das tuas quatro estações

De Vasco Costa Marques
Das tuas quatro estações
fiz o mar e fiz um porto:
tens o acre dos limões
e todo o mel no teu corpo.

Dispersam-me os teus cabelos,
nos teus braços me prolongo,
ardo e em pura chama alongo-me
aos teus encontros mais belos.

Percorro-te a meu prazer,
nas tuas águas me lavo,
foi-se o tempo quer-não quer
de vivermos separados.

Não tem o dia a medida
das montanhas do mistério:
vens e vais, sou percorrida
estrada do teu império.

O sol e o amor são virtudes


"Colheita perdida"
1948
CARLOS DE OLIVEIRA
Cantiga

O sol e o amor são virtudes 
como o vento e a juventude: 
Pecado é esta clausura 
que nos fala de virtude. 
Teus desejos como as aves 
voem da sombra onde estão: 
A virtude é a liberdade, 
o pecado é a solidão. 
Que o vento te despenteie 
e o sol te doire o sorriso: 
Para perdoar a morte 
é que o amor é preciso.

Fomos dedo após dedo hipotecando

De Vasco Costa Marques
Fomos dedo após dedo hipotecando
vida para vida preservar
Uma espuma sumida um rasto brando
é tudo quanto resta desse mar

O amor mesmo o amor veste à medida
da jura eterna previamente adiada
de uma discreta intriga consentida
da sombra de uma letra protestada ...

Tudo desse tamanho raso e estreito
que o cilindro do ódio nos consente
tudo truncado curto insatisfeito

Entre coisinhas ralas desfalece
o olhar que se alongava no oriente
só grande e digno o ódio ao ódio cresce

Para serem felizes

De Vasco Costa Marques
......Para serem felizes
......Desmancharam as horas
......O tédio penetrou
......Na areia dos sentidos

«O fim da tarde é um longo peixe morto
Vinagre de distantes aventuras
E as palavras descendo o pano cor
Topázio esvaiem na sombra as figuras

Todas as portas são um copo de água
Sem a sede de alguém que as justifique
Só esta mágoa a minha mágoa trago-a
De estar onde ninguém me diz que fique

Só ela corre entre as estátuas clara
Só ela nada nas lagoas nua
E discretos nenhum olhar repara
Como na mãe que dá o seio na rua»

Abandono agora estas palavras


"Algumas palavras"
1969
EDUARDO GUERRA CARNEIRO

Abandono agora estas palavras
e deixo que elas sirvam de pedal.
À quinta-feira tombam desarmadas.
Em desleixo as largo. Não são estas
já minhas as palavras. São papel.
Delas me sirvo e logo as abandono.
As palavras violo. O sol lhes roubo.
Para nada mais as quero.
Nem sequer me pertencem.
São coisa digna. Seriam
coisa séria. Caminho entre palavras
calcinadas. São símbolos
apenas. Letra a letra as destruo.
Reconstruo mais tarde
outro edifício. Com outras
ou restos destas mesmo.
Para que mais queria eu palavras?
Palavras não deflagram.
Só servem de rastilho.

O plátano que matou Camus

De Vasco Costa Marques
O plátano que matou Camus
ao quilómetro 88,4
da Estrada Nacional
entre Port-sur-Yonne
e Paris ...

Aqui, o Triângulo das Bermudas
chamava-se Chateau de Lourmarin
Claro o plátano ...
O plátano não estava lá
Ou estava dentro dele, Camus,
ou para lá do portal
noutro espaço noutro tempo
Em Vénus (por exemplo)
num dia de todos os dias de chuva
ou
em Hiroshima (por exemplo)
no dia do Big-Bang (por exemplo -
só por exemplo e depois de saber
se haveria japoneses na sala)

Green Peace defende o plátano
que desde então tem estado
sob vigilância apertadíssima

Não nos deixemos ir assim tão cedo

De Vasco Costa Marques
Não nos deixemos ir assim tão cedo
no esquecimento de que somos breves.
Antes o frio do medo,
se o medo obriga ao passo que se deve.

Nunca o poema ganha o que persegue :
ponte sempre cortada antes da margem,
a única alegria que lhe serve
é o riso a que serve de passagem.

Em qualquer papel se anota um verso

Trazes a mesma saia há quatro anos,

De Vasco Costa Marques
Trazes a mesma saia há quatro anos,
mas o sorriso afasta os teus cabelos
tão docemente...
e desce à toalha fina dos teus seios
como um longo cabelo desprendido.

O DOMINGO era uma coisa pequena.


"As mãos e os frutos"
1948
EUGÉNIO DE ANDRADE

Pequena elegia chamada domingo

O DOMINGO era uma coisa pequena. 
Uma coisa tão pequena 
que cabia inteirinha nos teus olhos. 
Nas tuas mãos abertas 
estavam os montes e os rios 
e as nuvens. 
Mas as rosas, 
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Aterrar, espantar, amedrontar,

De Vasco Costa Marques
Aterrar, espantar, amedrontar,
corromper, compelir, impor, forçar,
iludir, perverter, desvirtuar,
cuspir, espezinhar, escravizar,

embrutecer, escarnecer, violar,
humilhar, desprezar, vilipendiar,
agredir, explorar, aprisionar,
mentir, espoliar, arruinar,

bater, envilecer, atrofiar,
desiludir, rasgar, atraiçoar,
extorquir, subverter, desbaratar,

atrair, investir, encurralar,
ignorar, abortar, assassinar...
É da gente que estamos a falar.

Pela noite fora

De Vasco Costa Marques
Pela noite fora
O dia cá dentro
abrindo janelas
todas a nascente

e depois que importa
se é a sul ou norte
se é mesmo a poente
que se encontra a porta

que me importa isso
uma porta falsa
um velho feitiço
e ala que é serviço

E isso sim importa
com porta ou sem porta
postigo ou portão
se estás vivo sais

se estás morto não

Quem são? II

Ficam-nos, em caixas velhas, fotografias de gentes e momentos que não foram nossos, e interrogamo-nos: quem são, onde estavam e quando, o que faziam?
Reconheço, ou julgo reconhecer, alguns, outros desafiam-me, lá de longe, do tempo. 
Alguém sabe (usando os comentários) dizer-me os nomes?
(Para aumentar clique sobre a fotografia)

Quem são? I

(Para aumentar clique sobre a fotografia)


E nada disto é pois de confiança

De Vasco Costa Marques
E nada disto é pois de confiança
E nada disto vive integralmente
A parteira morreu com a criança
O grito sufocou entre parêntesis

Bolor nas velhas cartas na flor seca
O cravo abandonado ainda ecoa
Saber partir não quer dizer que chega
............................................................
Becos demais nas noites de Lisboa

A cabeça de arcaifaz (sismo)


"ALGUNS MITOS MAIORES
alguns mitos menores 
propostos à circulação pelo autor" 
1958
MARIO CESARINY DE VASCONCELOS



(Para ler clique sobre a imagem)

Foste para mim

De Vasco Costa Marques
Foste para mim
como o iceberg
foi para o Titanic
mal tive do teu corpo a visão breve
fui a pique

Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo


"Aventura"
1956
ANTÓNIO DE SOUSA FREITAS

Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo 
(oxalá nos leve ao Mar Mediterrâneo!), 
talvez deseje ancorar.

Quero a Grécia à minha frente
pra ver Sócrates e Platão
sentados num cais de Atenas a rasgar filosofias
e a atirá-las ao vento.

— Agora tenho pena de não ter uma âncora 
para poder ancorar!

Se eu te falasse

De Vasco Costa Marques
Se eu te falasse
com poemas de pássaros ao luar
se corresse o teu corpo
com dedos de folhas caindo
nos poentes de Outono
amarias o esqueleto de bruma
que eu te pendurasse ao pescoço
pelas noites de ansiar
de teus sonhos doentes.

Não.
Venho nu e rugoso como os troncos
só me veste por dentro
esta fúria de semente
só te trago a fome longuíssima
dos meus braços sem metafísica.

Vinha do outro lado do tempo do inverno seguinte


"Dezanove cantos"
1969 (?)
LUIZA NETO JORGE

Recanto 12

Vinha    do outro lado do tempo    do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abencoe-
-etecetera-amén-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosa indispensável
porque é uma roda e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamentamante
lemos  o   capítulo   do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrém
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

Deixemo-nos de megalomanias

De Vasco Costa Marques
Deixemo-nos de megalomanias
Do mar tudo o que temos
é a orla costeira
e a maresia

O mar a conquistar
está noutro espaço
onde não chegam naves
de vela e mastro
e onde a Terra discreta
não passa
de terceiro planeta
e nela um Portugalinho
de Frei Bartolomeu
e de Gago Coutinho

Porque quanto ao satélite
que se atirou pró ar
esteja onde estiver
ande por onde andar
talvez seja melhor nem se falar

No entanto
mesmo sem cartão Visa
Há muito onde chegar
o nosso engenho e arte
muito onde ferrar
o dente o Siza
e o Damásio apontar
o erro de Descartes
e porque não falar
no Saramago
levantado do chão
com o mesmo à vontade
com que à cegueira
deu visibilidade
nobelizando o português
parente pobre
que assim passou
do esquálido
"vae victis"
sem bula pontifícia
a "urbi et orbe"

Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo

De Vasco Costa Marques
Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo
o meu amor até ao osso,
e é daqui, de longe, que lhe beijo
a magra curva do pescoço.

Quero-te

De Vasco Costa Marques
Quero-te
como cão esfomeado
quer o osso
que só sonhando morde
pois sempre não está lá
se a mosca do destino
ao pobre impõe que acorde

Clube Português de Poesia II

primeiros artigos dos

 ESTATUTOS
1955/6 (?)

(Para ler clicar sobre a imagem)



Trata-se de uma proposta de estatutos que, julgamos, nunca terá chegado a ser aprovada, embora não tenhamos dados que confirmem esta afirmação.

E depois de Melinde e Calecute

De Vasco Costa Marques
E depois de Melinde e Calecute
atenção ao "casting"
da mega produção
que é coisa de melindre e de desfrute
escolher a vítima e o vilão
na confusão
da história tragico-marítima
não sendo Salomão

Ai a maré

De Vasco Costa Marques
Ai a maré
Ai a maré
Tão de brinquedo
molhar o pé
depois depois
todo te enleia
na maré cheia
que sobe sobe
que te rodeia
azul e branco
verde profundo
e negro sépia
tinta de choco
fundo de poço
tão negro e fundo
como o segredo
do fim do mundo

Quando os deuses chegaram



1959(?)
JOÃO RIBEIRO MELO
Efeméride
Quando os deuses chegaram 
O  sol  já não tinha significado 
E o verde dos prados era só um pouco de clorofila.   

Os deuses vieram numa longa fila estropiada 
Com os aleijões envernizados e os velhos truques 
...........................reaprendidos 
...E tiveram uma recepção inesperadamente sensacional:   

B. Mille contratou Ravana para a vaga de Humphrey 
.............................Bogart 
E os quatro braços de Kali embalando um Eros 
..............................gonorreico 
Foram o sketch do dia das câmaras de T. V.  

E eis como os demiurgos estremunhados pelo Cronos 
Com a espantosa notícia da fissão do átomo 
Correram um ano de luz para adorar o novo Júpiter   

E   depararam — surpresa   das   surpresas ! — 
Com   uma  raça  de  humanoides  civilizadíssimos 
Que os  levou  em  triunfo com  música de Armstrong.  

A minha mão sinistra

De Vasco Costa Marques
A minha mão sinistra
é pata de ave
quase sumida a carne
o osso avulta
radiografia arqueação de nave
que o mar há muito já
mantém sepulta

olho-a como um peixe solitário
passa um vago
olhar indiferente
pelo vidro invisível do aquário

Penduraram o esqueleto

De Vasco Costa Marques
Penduraram o esqueleto
na loja de ferro-velho
de um lado a águia empalhada
do outro a caixa-bacio
em frente oxidado espelho
e por toda a estreita cave
aquele cheiro a bafio

pobre fado triste fado
pra quem foi fado vadio

Clube Português de Poesia I

(Para ler clicar sobre a imagem)
1955/6 (?)
Circular destinada à captação de sócios para um "Clube Português de Poesia" em fase de formação que, supomos, será o mesmo que é referido por José Augusto Seabra no texto abaixo, onde se explicam as razões na origem desta iniciativa que não terá ido longe.

(Acontece que, depois de ter ganho os Jogos Florais Universitários, no “Dia do Estudante”, me animei a concorrer afoitamente ao "Prémio Revelação", da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era dirigida por um naipe de notáveis em que coabitavam elementos da oposição intelectual e do próprio regime, numa promiscuidade literária pouco propícia à isenção. ... Mas, afinal, o prémio acabou por não ser esse ano atribuído, na área da poesia... A razão dessa omissão vim depois a sabê-la, através do poeta Armindo Rodrigues, que me procurou a mim e a um amigo poeta também concorrente, o João Guterres, explicando-nos que devido a um desacordo entre os membros do júri, que chegou a pensar atribuir-nos o prémio ex-aequo este tinha decidido anulá-lo. E isso devido a divergências mais políticas do que literárias, como nos confidenciou esse poeta (neo-realista) num desabafo com o seu quê de patético, numa noitada em sua casa, em que tivemos de ouvi-lo ler, narcisicamente, entre copos de uísque, os seus próprios poemas...

Ficámos edificados, eu e o meu perplexo confrade. Melhor dizendo: enojados. E decidimos criar, para defesa da poesia contra a sua desonra - ou a dos poetas, como diria Benjamin Péret - uma associação de jovens escritores. Ela viria a chamar-se, mais restritamente, Clube dos Poetas, tendo chegado a ter uma existência embrionária, com a participação de poetas ainda não "consagrados", como o João Rui de Sousa, o Vasco Costa Marques, o Nuno Gonçalves, o Carlos Monteiro dos Santos, a Teresa Rita Lopes e outros que já esqueço. )

In, Seabra, José Augusto (2001) , Antologia Pessoal,  Thesaurus Editora

Ocultámos o amor como a falta de um dente

De Vasco Costa Marques
Ocultámos o amor como a falta de um dente
o que tornou ridículo o sorriso.

Quase é suicídio o tê-lo entre a gente,
ofendendo os trigais do paraíso.

Dissemos chave e o som foi de uma porta

De Vasco Costa Marques
Dissemos chave e o som foi de uma porta
completando a espessura da muralha.

Ave que vai voando e já vai morta…

Com que novas palavras amaremos,
se já não há silêncio que nos valha,
nem nos encontra a língua que sabemos?...

Poeminha


Poeminha de ralhete, em cartão destinado a acompanhar a prenda do primeiro natal da filha, Cecilia Maria, nascida a 02/12/52.

Cada poema é um fruto

De Vasco Costa Marques
Cada poema é um fruto
de gosto peculiar:
cada um descobre nele
o gosto que lhe dá gosto
de que gosta de gostar

senão zás num bater de asa
voa pra outro lugar
se for pra perto melhor
ninguém está pra se cansar

Ainda que se hermetize

De Vasco Costa Marques
Ainda que se hermetize
e por vezes seja brinde
de bolinhos de Taiwan
em muita trova persiste
como colher sem decoro
entre marido e mulher
o ribombar e o choro
do Alencar de Alenquer

Céus, nuvens, ondas, ventos,


1958
EGITO GONÇALVES

Anúncio no ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha romântica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um verão na praia
— pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fjords e vivia num barco
encostado no cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção...
Existe? Fugiu à ocupação? Casou? Teve filhos?
Engordou? Odeia os barcos? Morreu prisioneira?

'Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente, ..

Notícias do seixo branco que trocamos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe

De Vasco Costa Marques
Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe
o tecto dos meus dedos.. o tabaco
entre duas facturas.. lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã

Recolhe cedo a casa.. longos pássaros
debicam-lhe o silêncio.. ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.

Procuro entre detritos...recupero

De Vasco Costa Marques
Procuro entre detritos...recupero
uma voz entre mil...uma só sílaba
depois abro as janelas.. precipícios
torres que não encontro na memória

É esta a minha noite com ruídos
de máquinas crescendo um céu de vinho
sem badana em couché sem necrológio
senão suicídios lentos verdadeiros

Penso este só guisado de feijão
com líquenes que a luz não atormenta
um ventre destruído acrescentando
a ternura do pão.. um suor morno

Aqui nos reunimos claramente
um tremular de velas a friagem
dos canos fundos que nos despe longe
longe.. sem o prenúncio da manhã

Estas noites de mar


"Tatuagem - poesia 61"
1961
MARIA TERESA HORTA

Outubro

Estas noites de mar
incrustadas
de luz

ou estes olhos
de polos
distanciados no nada

Este ódio de chuva

este dia montanha

Esta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios na
montra

Este ardor de palavras
no perfil
das bocas

este grito que
tenho
nas mãos misturadas

ou mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido das casas

Mar largo

De Vasco Costa Marques
Mar largo
em chão de pedra
calçada à portuguesa
olhá-la dá-nos enjoos de mar
sem risco
mas que mareia
e dá para pensar na areia
com peixes de barriga para o ar
que nem à fome da gaivota
servem de isco
por cheiro ou porventura paladar

Ave Maria

De Vasco Costa Marques
Ave Maria
ave marítima
não pomba branca
gaivota íntima
pena empastada
do óleo negro
o olho baço
a asa inútil
o esforço fútil
adejo adeus
que Deus te leve
para o mar que há
seguramente
na sua mão
limpa de crude

Deixo pender a mão ao lume da água

De Vasco Costa Marques
Deixo pender a mão ao lume da água
cortando a água ao ritmo da remada
retornar é por vezes frustração
de querer regressar e não haver passado
e o mar o próprio mar
ser em segunda mão

A minha Índia está aqui

De Vasco Costa Marques
A minha Índia está aqui
entre as magnólias
cortada por uma velha estrada
de escremento seco
toda monumental e inconsútil
encharcada de Ganges
de doenças sagradas
deuses enormes e indiferentes
e anjos magros de lábios lilazes
tirando cursos de eunucos
por correspondência em inglês

Reservei para mim
um espaço de meio passo
entre o carro de gelados
e a entrada do templo