Pela noite fora
Quem são? II

E nada disto é pois de confiança
A cabeça de arcaifaz (sismo)
Foste para mim
Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo

1956
Se eu te falasse
Vinha do outro lado do tempo do inverno seguinte

1969 (?)
Deixemo-nos de megalomanias
Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo
Quero-te
Clube Português de Poesia II
E depois de Melinde e Calecute
Ai a maré
Quando os deuses chegaram


A minha mão sinistra
Penduraram o esqueleto
Clube Português de Poesia I

(Acontece que, depois de ter ganho os Jogos Florais Universitários, no “Dia do Estudante”, me animei a concorrer afoitamente ao "Prémio Revelação", da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era dirigida por um naipe de notáveis em que coabitavam elementos da oposição intelectual e do próprio regime, numa promiscuidade literária pouco propícia à isenção. ... Mas, afinal, o prémio acabou por não ser esse ano atribuído, na área da poesia... A razão dessa omissão vim depois a sabê-la, através do poeta Armindo Rodrigues, que me procurou a mim e a um amigo poeta também concorrente, o João Guterres, explicando-nos que devido a um desacordo entre os membros do júri, que chegou a pensar atribuir-nos o prémio ex-aequo este tinha decidido anulá-lo. E isso devido a divergências mais políticas do que literárias, como nos confidenciou esse poeta (neo-realista) num desabafo com o seu quê de patético, numa noitada em sua casa, em que tivemos de ouvi-lo ler, narcisicamente, entre copos de uísque, os seus próprios poemas...
Ficámos edificados, eu e o meu perplexo confrade. Melhor dizendo: enojados. E decidimos criar, para defesa da poesia contra a sua desonra - ou a dos poetas, como diria Benjamin Péret - uma associação de jovens escritores. Ela viria a chamar-se, mais restritamente, Clube dos Poetas, tendo chegado a ter uma existência embrionária, com a participação de poetas ainda não "consagrados", como o João Rui de Sousa, o Vasco Costa Marques, o Nuno Gonçalves, o Carlos Monteiro dos Santos, a Teresa Rita Lopes e outros que já esqueço. )
In, Seabra, José Augusto (2001) , Antologia Pessoal, Thesaurus Editora
Ocultámos o amor como a falta de um dente
Dissemos chave e o som foi de uma porta
Poeminha
Cada poema é um fruto
de gosto peculiar:
cada um descobre nele
o gosto que lhe dá gosto
de que gosta de gostar
senão zás num bater de asa
voa pra outro lugar
se for pra perto melhor
ninguém está pra se cansar
Ainda que se hermetize
e por vezes seja brinde
de bolinhos de Taiwan
em muita trova persiste
como colher sem decoro
entre marido e mulher
o ribombar e o choro
do Alencar de Alenquer
Céus, nuvens, ondas, ventos,

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.
Elementos da natureza gastos por tantos versos,
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.
Aquela que eu amei um verão na praia
— pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.
A que veio dos fjords e vivia num barco
encostado no cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção...
Existe? Fugiu à ocupação? Casou? Teve filhos?
Engordou? Odeia os barcos? Morreu prisioneira?
'Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente, ..
Notícias do seixo branco que trocamos
com palavras de amor em inglês mal decorado.
Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.
Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe
o tecto dos meus dedos.. o tabaco
entre duas facturas.. lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã
Recolhe cedo a casa.. longos pássaros
debicam-lhe o silêncio.. ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.
Procuro entre detritos...recupero
uma voz entre mil...uma só sílaba
depois abro as janelas.. precipícios
torres que não encontro na memória
É esta a minha noite com ruídos
de máquinas crescendo um céu de vinho
sem badana em couché sem necrológio
senão suicídios lentos verdadeiros
Penso este só guisado de feijão
com líquenes que a luz não atormenta
um ventre destruído acrescentando
a ternura do pão.. um suor morno
Aqui nos reunimos claramente
um tremular de velas a friagem
dos canos fundos que nos despe longe
longe.. sem o prenúncio da manhã
Estas noites de mar

1961
MARIA TERESA HORTA
Estas noites de mar
incrustadas
de luz
ou estes olhos
de polos
distanciados no nada
Este ódio de chuva
este dia montanha
Esta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios na
montra
Este ardor de palavras
no perfil
das bocas
este grito que
tenho
nas mãos misturadas
ou mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido das casas
Mar largo
em chão de pedra
calçada à portuguesa
olhá-la dá-nos enjoos de mar
sem risco
mas que mareia
e dá para pensar na areia
com peixes de barriga para o ar
que nem à fome da gaivota
servem de isco
por cheiro ou porventura paladar
Ave Maria
ave marítima
não pomba branca
gaivota íntima
pena empastada
do óleo negro
o olho baço
a asa inútil
o esforço fútil
adejo adeus
que Deus te leve
para o mar que há
seguramente
na sua mão
limpa de crude
Há quem use boné de marinheiro
e nunca tenha posto o cu num bote
a esses não há ilha que os detenha
nem onda vagabunda que os derrote
Como futuro
optou por correr mundo
O mundo correu com ele
E é triste agora vê-lo
a espremer o último neurónio
na bicha da sopinha do Sidónio
Deixo pender a mão ao lume da água
cortando a água ao ritmo da remada
retornar é por vezes frustração
de querer regressar e não haver passado
e o mar o próprio mar
ser em segunda mão
A minha Índia está aqui
entre as magnólias
cortada por uma velha estrada
de escremento seco
toda monumental e inconsútil
encharcada de Ganges
de doenças sagradas
deuses enormes e indiferentes
e anjos magros de lábios lilazes
tirando cursos de eunucos
por correspondência em inglês
Reservei para mim
um espaço de meio passo
entre o carro de gelados
e a entrada do templo
Deixai que a vida sobre vós repouse
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse
erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.
Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.
Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
ajustei-me para sparring partner
O que eu lutei com a minha sombra
nem é bom falar
aparando golpes inventando performances
cúmplice do engano
de nunca me ter vencido
na esquiva dos jabs
e dos upercuts
Lembro-me mais é de me ver
nos espelhos dos bares
e das medalhas dos rótulos das garrafas
e do cheiro dos urinois de vomitar
igual ao dos balneários
e das esquadras da Polícia
Ainda me lembro do Santa Camarão
já ele estava no fim
fins que demoram muito
Santa Camarão, ou Zé Santa, foi um pugilista dos anos 20 e 30 do século passado, que se destacou pela sua grande estatura e força. Numa carreira curta, que terá terminado em 1934, combateu na Europa e nas Américas acumulando vitórias suficientes para o tornar um herói popular. (nota de JG)
Fala do guarda-nocturno
mais conhecido no bairro pelo “leão da Metro”
por seus enormes bocejos"
Não será que em hoje
há sempre um amanhãzinha
coisa pequena
de trazer por dentro
um pratinho de sopa
um copinho de branco
uma velinha acesa
sem ter de morrer ninguém
Não será que pensá-lo
é já quase amanhã
sem Zéspereiras sem “slogans”
sem discursos sem cartazes
mas como a semente
que se apanha do chão
e se enterra num vaso
só para ver o que dá
Se der ... Lá vai!
Desculpe lá
Por que exiges o amor de uma escova de dentes?
Nem virás a saber o sabor de outros lábios.
Certo, afinal, é ver que estamos doentes.
Mas já que imaginámos tantos astrolábios
para vogar no céu daqui a dois mil anos,
saibamos conquistar, humanos ratos, sábios,
a escuridão dos canos.
Mãe, o Cristo-Rei não se come?
Não, filho, não come não:
o Cristo-Rei é do patrão.
Mãe, o Padrão não se come?
Não, filho, não come não:
o Padrão é do patrão.
Mãe, e se o Cristo-Rei
fosse um grande Bolo-Rei! ?
Dorme, filho, dorme, dorme:
enquanto se dorme não se tem fome.
A embalagem perdida
o restinho da bisnaga
esferográfica entupida
uma coisinha de nada
a malhasinha caída
a ligadura esfiada
a maquineta de pilhas
que já não são fabricadas
o atraso no horário
a torneira mal vedada
o "Citro" utilitário
com usura acoplada
o fósforo que não acende
a espuma da imperial
a edição que se suspende
no fascículo número tal
a meia hora na bicha
a resistência queimada
o insecticida que esguicha
só meia lata e mais nada
a moedinha sumida
na cabina avariada
vida que se vai esvaída
mal vendida mal comprada.
Já contei e recontei
as viagens em que andei
dentro do meu copo de água.
Quatrocentas carpideiras
e vinte padres do altar
choraram a minha mágoa
que a eles todos paguei.
Mas pró Diabo as carpideiras
e mais os padres do altar.
Vou construir um batel,
vou meter-me dentro dele
e ala pró alto mar.
sento-me nestas cadeiras que limitam

1961
terra de geometria
alicerce de pó
que nos mantém a vida
casa forma passiva de ser móvel
horizonte de braços
telhado
que deixa o sol entrar
Quem o mar ama
não quer amarração
mesmo que de oiro
a amarra seja
é mar amor
que se deseja
livre e sem fim
o resto é charco
onde se atola
o alento e o barco
Hoje pedalei
para lado nenhum
porque o exercício afasta
e o caminho é sempre a descer
qualquer que seja
regae ou rock
que agite as docas
definitivamente
sem lodo no cais senão enlatado
com figurantes à hora
vestidos Salazar
tão produzidos
que até parece que há
deuses com espírito de humor
sabe-se lá ... há?
As águas pela noite estão caladas
As águas pela noite estão caladas
e mais barcos vão chegando à mesma foz.
As águas pela noite estão serenas
e os barcos que regressam adormecem.
Ficámos com as mãos mais apertadas
dois apenas sufocando um grande medo.
Ficámos com os olhos mais parados
que as quilhas destes barcos de segredo.
A noite aglutinou lençóis de espuma
e as areias cobriram-se de redes.
Os barcos nesta noite não arquejam,
são mudos na verdade do silêncio.
Deus inscreveu-se
na Associação de Autores
para ver se recebe
alguns direitos
Até que há praí uns tipos
que querem plagiá-lo
e como está
prevenido
como se sabe ele não dorme
que nunca se sabe
pois criou homens
capazes de tudo clonar
Quanta vez o que resta da memória
é só um breve trecho de canção
a porta que se abre ao fundo do segredo
dócil subitamente à nossa mão
Quanta vez o que resta é essa frágil chave
perdida na algibeira da infância
que franqueia de novo os portais para a vida
que promete de novo um percurso à bonança
À luz deste sonho estelar

Improviso sobre um verso de Afonso Duarte
deste sonho estelar
dum olhar terrestre
que a loucura escurece,
lá vamos nós,
lá somos, Mestre,
aquelas sombras flutuando no luar.
esse magoado coração do espaço,
chama ainda por nós.
Em menos de um segundo a excepção
passou à decepção de um simulacro
pó de oiro que um instante foi paixão
e logo foi areia e logo vácuo
Serenidade neste jogo antigo
mais sacro ritual do que teatro
em que o risco é a norma e o sentido
e a máscara de ser o ser de facto
Assim reza o contrato ...
De resto a eternidade é ser clonado
Vou de metro em paz podre
suburbana
e chego a Entrecampos
entre mortos
criteriosamente conservados
A Empresa financia
assino o pacto
Cecília Irene
O nosso leito de amor
será de pedras e espinhos
e nada vale que me digas
que tenho um manto de estrelas
para cobrir o teu corpo
e nada vale que te diga
que o calor da minha carne
será mais forte que o frio
das longas noites de inverno.
Virá o teu fruto amiga
antes do dia da espera.
Sê paciente, espera
Que cada palavra amadureça
E se desprenda, como um fruto,
Ao passar o vento que a mereça
Diz-se controlo e pensa-se com trela
diz-se diálogo e pensa-se artimanha
dizendo solidário pensa-se que lucro ...
“português-treta” um novo dicionário
a acrescentar um ponto ao conto do vigário
Aqui fechado
o mar é som diluído
na humidade
de bolor negro
nenhuma chave abre o fio
de uma teia de sol
No despido segredo
que habitamos
nem hoje o mar é livre
Corto Maltese
comprou a farda
numa feira da ladra
da ilha de If



















