Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo


"Aventura"
1956
ANTÓNIO DE SOUSA FREITAS

Se o vento nos levar ao Mar Mediterrâneo 
(oxalá nos leve ao Mar Mediterrâneo!), 
talvez deseje ancorar.

Quero a Grécia à minha frente
pra ver Sócrates e Platão
sentados num cais de Atenas a rasgar filosofias
e a atirá-las ao vento.

— Agora tenho pena de não ter uma âncora 
para poder ancorar!

Se eu te falasse

De Vasco Costa Marques
Se eu te falasse
com poemas de pássaros ao luar
se corresse o teu corpo
com dedos de folhas caindo
nos poentes de Outono
amarias o esqueleto de bruma
que eu te pendurasse ao pescoço
pelas noites de ansiar
de teus sonhos doentes.

Não.
Venho nu e rugoso como os troncos
só me veste por dentro
esta fúria de semente
só te trago a fome longuíssima
dos meus braços sem metafísica.

Vinha do outro lado do tempo do inverno seguinte


"Dezanove cantos"
1969 (?)
LUIZA NETO JORGE

Recanto 12

Vinha    do outro lado do tempo    do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abencoe-
-etecetera-amén-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosa indispensável
porque é uma roda e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamentamante
lemos  o   capítulo   do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrém
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

Deixemo-nos de megalomanias

De Vasco Costa Marques
Deixemo-nos de megalomanias
Do mar tudo o que temos
é a orla costeira
e a maresia

O mar a conquistar
está noutro espaço
onde não chegam naves
de vela e mastro
e onde a Terra discreta
não passa
de terceiro planeta
e nela um Portugalinho
de Frei Bartolomeu
e de Gago Coutinho

Porque quanto ao satélite
que se atirou pró ar
esteja onde estiver
ande por onde andar
talvez seja melhor nem se falar

No entanto
mesmo sem cartão Visa
Há muito onde chegar
o nosso engenho e arte
muito onde ferrar
o dente o Siza
e o Damásio apontar
o erro de Descartes
e porque não falar
no Saramago
levantado do chão
com o mesmo à vontade
com que à cegueira
deu visibilidade
nobelizando o português
parente pobre
que assim passou
do esquálido
"vae victis"
sem bula pontifícia
a "urbi et orbe"

Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo

De Vasco Costa Marques
Pois eu, eu só daqui, de longe, vejo
o meu amor até ao osso,
e é daqui, de longe, que lhe beijo
a magra curva do pescoço.

Quero-te

De Vasco Costa Marques
Quero-te
como cão esfomeado
quer o osso
que só sonhando morde
pois sempre não está lá
se a mosca do destino
ao pobre impõe que acorde

Clube Português de Poesia II

primeiros artigos dos

 ESTATUTOS
1955/6 (?)

(Para ler clicar sobre a imagem)



Trata-se de uma proposta de estatutos que, julgamos, nunca terá chegado a ser aprovada, embora não tenhamos dados que confirmem esta afirmação.

E depois de Melinde e Calecute

De Vasco Costa Marques
E depois de Melinde e Calecute
atenção ao "casting"
da mega produção
que é coisa de melindre e de desfrute
escolher a vítima e o vilão
na confusão
da história tragico-marítima
não sendo Salomão

Ai a maré

De Vasco Costa Marques
Ai a maré
Ai a maré
Tão de brinquedo
molhar o pé
depois depois
todo te enleia
na maré cheia
que sobe sobe
que te rodeia
azul e branco
verde profundo
e negro sépia
tinta de choco
fundo de poço
tão negro e fundo
como o segredo
do fim do mundo

Quando os deuses chegaram



1959(?)
JOÃO RIBEIRO MELO
Efeméride
Quando os deuses chegaram 
O  sol  já não tinha significado 
E o verde dos prados era só um pouco de clorofila.   

Os deuses vieram numa longa fila estropiada 
Com os aleijões envernizados e os velhos truques 
...........................reaprendidos 
...E tiveram uma recepção inesperadamente sensacional:   

B. Mille contratou Ravana para a vaga de Humphrey 
.............................Bogart 
E os quatro braços de Kali embalando um Eros 
..............................gonorreico 
Foram o sketch do dia das câmaras de T. V.  

E eis como os demiurgos estremunhados pelo Cronos 
Com a espantosa notícia da fissão do átomo 
Correram um ano de luz para adorar o novo Júpiter   

E   depararam — surpresa   das   surpresas ! — 
Com   uma  raça  de  humanoides  civilizadíssimos 
Que os  levou  em  triunfo com  música de Armstrong.  

A minha mão sinistra

De Vasco Costa Marques
A minha mão sinistra
é pata de ave
quase sumida a carne
o osso avulta
radiografia arqueação de nave
que o mar há muito já
mantém sepulta

olho-a como um peixe solitário
passa um vago
olhar indiferente
pelo vidro invisível do aquário

Penduraram o esqueleto

De Vasco Costa Marques
Penduraram o esqueleto
na loja de ferro-velho
de um lado a águia empalhada
do outro a caixa-bacio
em frente oxidado espelho
e por toda a estreita cave
aquele cheiro a bafio

pobre fado triste fado
pra quem foi fado vadio

Clube Português de Poesia I

(Para ler clicar sobre a imagem)
1955/6 (?)
Circular destinada à captação de sócios para um "Clube Português de Poesia" em fase de formação que, supomos, será o mesmo que é referido por José Augusto Seabra no texto abaixo, onde se explicam as razões na origem desta iniciativa que não terá ido longe.

(Acontece que, depois de ter ganho os Jogos Florais Universitários, no “Dia do Estudante”, me animei a concorrer afoitamente ao "Prémio Revelação", da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era dirigida por um naipe de notáveis em que coabitavam elementos da oposição intelectual e do próprio regime, numa promiscuidade literária pouco propícia à isenção. ... Mas, afinal, o prémio acabou por não ser esse ano atribuído, na área da poesia... A razão dessa omissão vim depois a sabê-la, através do poeta Armindo Rodrigues, que me procurou a mim e a um amigo poeta também concorrente, o João Guterres, explicando-nos que devido a um desacordo entre os membros do júri, que chegou a pensar atribuir-nos o prémio ex-aequo este tinha decidido anulá-lo. E isso devido a divergências mais políticas do que literárias, como nos confidenciou esse poeta (neo-realista) num desabafo com o seu quê de patético, numa noitada em sua casa, em que tivemos de ouvi-lo ler, narcisicamente, entre copos de uísque, os seus próprios poemas...

Ficámos edificados, eu e o meu perplexo confrade. Melhor dizendo: enojados. E decidimos criar, para defesa da poesia contra a sua desonra - ou a dos poetas, como diria Benjamin Péret - uma associação de jovens escritores. Ela viria a chamar-se, mais restritamente, Clube dos Poetas, tendo chegado a ter uma existência embrionária, com a participação de poetas ainda não "consagrados", como o João Rui de Sousa, o Vasco Costa Marques, o Nuno Gonçalves, o Carlos Monteiro dos Santos, a Teresa Rita Lopes e outros que já esqueço. )

In, Seabra, José Augusto (2001) , Antologia Pessoal,  Thesaurus Editora

Ocultámos o amor como a falta de um dente

De Vasco Costa Marques
Ocultámos o amor como a falta de um dente
o que tornou ridículo o sorriso.

Quase é suicídio o tê-lo entre a gente,
ofendendo os trigais do paraíso.

Dissemos chave e o som foi de uma porta

De Vasco Costa Marques
Dissemos chave e o som foi de uma porta
completando a espessura da muralha.

Ave que vai voando e já vai morta…

Com que novas palavras amaremos,
se já não há silêncio que nos valha,
nem nos encontra a língua que sabemos?...

Poeminha


Poeminha de ralhete, em cartão destinado a acompanhar a prenda do primeiro natal da filha, Cecilia Maria, nascida a 02/12/52.

Cada poema é um fruto

De Vasco Costa Marques
Cada poema é um fruto
de gosto peculiar:
cada um descobre nele
o gosto que lhe dá gosto
de que gosta de gostar

senão zás num bater de asa
voa pra outro lugar
se for pra perto melhor
ninguém está pra se cansar

Ainda que se hermetize

De Vasco Costa Marques
Ainda que se hermetize
e por vezes seja brinde
de bolinhos de Taiwan
em muita trova persiste
como colher sem decoro
entre marido e mulher
o ribombar e o choro
do Alencar de Alenquer

Céus, nuvens, ondas, ventos,


1958
EGITO GONÇALVES

Anúncio no ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha romântica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um verão na praia
— pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fjords e vivia num barco
encostado no cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção...
Existe? Fugiu à ocupação? Casou? Teve filhos?
Engordou? Odeia os barcos? Morreu prisioneira?

'Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente, ..

Notícias do seixo branco que trocamos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe

De Vasco Costa Marques
Trago um poeta na algibeira.. visto-lhe
o tecto dos meus dedos.. o tabaco
entre duas facturas.. lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã

Recolhe cedo a casa.. longos pássaros
debicam-lhe o silêncio.. ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.

Procuro entre detritos...recupero

De Vasco Costa Marques
Procuro entre detritos...recupero
uma voz entre mil...uma só sílaba
depois abro as janelas.. precipícios
torres que não encontro na memória

É esta a minha noite com ruídos
de máquinas crescendo um céu de vinho
sem badana em couché sem necrológio
senão suicídios lentos verdadeiros

Penso este só guisado de feijão
com líquenes que a luz não atormenta
um ventre destruído acrescentando
a ternura do pão.. um suor morno

Aqui nos reunimos claramente
um tremular de velas a friagem
dos canos fundos que nos despe longe
longe.. sem o prenúncio da manhã

Estas noites de mar


"Tatuagem - poesia 61"
1961
MARIA TERESA HORTA

Outubro

Estas noites de mar
incrustadas
de luz

ou estes olhos
de polos
distanciados no nada

Este ódio de chuva

este dia montanha

Esta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios na
montra

Este ardor de palavras
no perfil
das bocas

este grito que
tenho
nas mãos misturadas

ou mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido das casas

Mar largo

De Vasco Costa Marques
Mar largo
em chão de pedra
calçada à portuguesa
olhá-la dá-nos enjoos de mar
sem risco
mas que mareia
e dá para pensar na areia
com peixes de barriga para o ar
que nem à fome da gaivota
servem de isco
por cheiro ou porventura paladar

Ave Maria

De Vasco Costa Marques
Ave Maria
ave marítima
não pomba branca
gaivota íntima
pena empastada
do óleo negro
o olho baço
a asa inútil
o esforço fútil
adejo adeus
que Deus te leve
para o mar que há
seguramente
na sua mão
limpa de crude

Deixo pender a mão ao lume da água

De Vasco Costa Marques
Deixo pender a mão ao lume da água
cortando a água ao ritmo da remada
retornar é por vezes frustração
de querer regressar e não haver passado
e o mar o próprio mar
ser em segunda mão

A minha Índia está aqui

De Vasco Costa Marques
A minha Índia está aqui
entre as magnólias
cortada por uma velha estrada
de escremento seco
toda monumental e inconsútil
encharcada de Ganges
de doenças sagradas
deuses enormes e indiferentes
e anjos magros de lábios lilazes
tirando cursos de eunucos
por correspondência em inglês

Reservei para mim
um espaço de meio passo
entre o carro de gelados
e a entrada do templo

Deixai que a vida sobre vós repouse

1955
JORGE DE SENA

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
26/03/1954

ajustei-me para sparring partner

De Vasco Costa Marques
ajustei-me para sparring partner

O que eu lutei com a minha sombra
nem é bom falar
aparando golpes inventando performances
cúmplice do engano
de nunca me ter vencido
na esquiva dos jabs
e dos upercuts

Lembro-me mais é de me ver
nos espelhos dos bares
e das medalhas dos rótulos das garrafas
e do cheiro dos urinois de vomitar
igual ao dos balneários
e das esquadras da Polícia

Ainda me lembro do Santa Camarão
já ele estava no fim
fins que demoram muito

Santa Camarão, ou Zé Santa, foi um pugilista dos anos 20 e 30 do século passado, que se destacou pela sua grande estatura e força. Numa carreira curta, que terá terminado em 1934, combateu na Europa e nas Américas acumulando vitórias suficientes para o tornar um herói popular. (nota de JG)

Fala do guarda-nocturno

De Vasco Costa Marques
"Fala do guarda-nocturno
mais conhecido no bairro pelo “leão da Metro”
por seus enormes bocejos"

Não será que em hoje
há sempre um amanhãzinha
coisa pequena
de trazer por dentro
um pratinho de sopa
um copinho de branco
uma velinha acesa
sem ter de morrer ninguém

Não será que pensá-lo
é já quase amanhã
sem Zéspereiras sem “slogans”
sem discursos sem cartazes
mas como a semente
que se apanha do chão
e se enterra num vaso
só para ver o que dá

Se der ... Lá vai!
Desculpe lá

o riso imenso

"Poesia e tempo"
1962
DÓRDIO GUIMARÃES
Ophélia 1

o riso imenso
enche o amor inabitado

o logro

de querer a água
a máscara a trança
permanente
na memória flutuante
reflectida estática

o riso largo
habita a boca desunida
em lábio

o mal de ser um
grito prolongado
sem história

e terra

e vidro

Por que exiges o amor de uma escova de dentes?

De Vasco Costa Marques
Por que exiges o amor de uma escova de dentes?
Nem virás a saber o sabor de outros lábios.
Certo, afinal, é ver que estamos doentes.

Mas já que imaginámos tantos astrolábios
para vogar no céu daqui a dois mil anos,
saibamos conquistar, humanos ratos, sábios,
a escuridão dos canos.

Mãe, o Cristo-Rei não se come?

De Vasco Costa Marques
Mãe, o Cristo-Rei não se come?
Não, filho, não come não:
o Cristo-Rei é do patrão.

Mãe, o Padrão não se come?
Não, filho, não come não:
o Padrão é do patrão.

Mãe, e se o Cristo-Rei
fosse um grande Bolo-Rei! ?
Dorme, filho, dorme, dorme:

enquanto se dorme não se tem fome.

A embalagem perdida

De Vasco Costa Marques
A embalagem perdida
o restinho da bisnaga
esferográfica entupida
uma coisinha de nada

a malhasinha caída
a ligadura esfiada
a maquineta de pilhas
que já não são fabricadas

o atraso no horário
a torneira mal vedada
o "Citro" utilitário
com usura acoplada

o fósforo que não acende
a espuma da imperial
a edição que se suspende
no fascículo número tal

a meia hora na bicha
a resistência queimada
o insecticida que esguicha
só meia lata e mais nada

a moedinha sumida
na cabina avariada
vida que se vai esvaída
mal vendida mal comprada.

Em qualquer papel se anota um verso

(Para ler clicar sobre a imagem)

Já contei e recontei

De Vasco Costa Marques
Já contei e recontei
as viagens em que andei
dentro do meu copo de água.
Quatrocentas carpideiras
e vinte padres do altar
choraram a minha mágoa
que a eles todos paguei.
Mas pró Diabo as carpideiras
e mais os padres do altar.
Vou construir um batel,
vou meter-me dentro dele
e ala pró alto mar.

sento-me nestas cadeiras que limitam


"Queda livre - poesia 61"
1961
E. M. DE MELO E CASTRO

sento-me nestas cadeiras que limitam
quatro paredes brancas
onde me quebro as noites

terra de geometria

alicerce de pó
que nos mantém a vida

casa forma passiva de ser móvel

horizonte de braços

telhado

que deixa o sol entrar
e a chuva fugir
"Casa/Casas" - Excerto

Quem o mar ama

De Vasco Costa Marques
Quem o mar ama
não quer amarração
mesmo que de oiro
a amarra seja

é mar amor
que se deseja
livre e sem fim

o resto é charco
onde se atola
o alento e o barco

Hoje pedalei

De Vasco Costa Marques
Hoje pedalei
para lado nenhum
porque o exercício afasta
e o caminho é sempre a descer
qualquer que seja
regae ou rock
que agite as docas
definitivamente
sem lodo no cais senão enlatado
com figurantes à hora
vestidos Salazar
tão produzidos
que até parece que há
deuses com espírito de humor
sabe-se lá ... há?

As águas pela noite estão caladas

"Poemas da noite nova"
JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ


O Silêncio e os Barcos

As águas pela noite estão caladas
e mais barcos vão chegando à mesma foz.

As águas pela noite estão serenas
e os barcos que regressam adormecem.

Ficámos com as mãos mais apertadas
dois apenas sufocando um grande medo.

Ficámos com os olhos mais parados
que as quilhas destes barcos de segredo.

A noite aglutinou lençóis de espuma
e as areias cobriram-se de redes.

Os barcos nesta noite não arquejam,
são mudos na verdade do silêncio.
Capa de René Bertholo - Lisboa 1957

Deus inscreveu-se

De Vasco Costa Marques
Deus inscreveu-se
na Associação de Autores
para ver se recebe
alguns direitos
Até que há praí uns tipos
que querem plagiá-lo
e como está
prevenido
como se sabe ele não dorme
que nunca se sabe
pois criou homens
capazes de tudo clonar

Quanta vez o que resta da memória

De Vasco Costa Marques
Quanta vez o que resta da memória
é só um breve trecho de canção
a porta que se abre ao fundo do segredo
dócil subitamente à nossa mão

Quanta vez o que resta é essa frágil chave
perdida na algibeira da infância
que franqueia de novo os portais para a vida
que promete de novo um percurso à bonança

À luz deste sonho estelar


"Cadernos do meio-dia 3"
1958
CARLOS DE OLIVEIRA

Improviso sobre um verso de Afonso Duarte
.......................................São as aves demais para chorar ?

À luz
deste sonho estelar
a que chamam luar
e que é apenas o silêncio branco
das pedras tumulares
sobre os ossos humanos,
são as aves o menos que choramos.

Lágrimas vivas
dum olhar terrestre
que a loucura escurece,
lá vamos nós,
lá somos, Mestre,
aquelas sombras flutuando no luar.
a
E no entanto a Terra,
esse magoado coração do espaço,
chama ainda por nós.
a
Que lhe diremos, Mestre?
tão pobres e tão sós.

Em menos de um segundo a excepção

De Vasco Costa Marques
Em menos de um segundo a excepção
passou à decepção de um simulacro
pó de oiro que um instante foi paixão
e logo foi areia e logo vácuo

Serenidade neste jogo antigo
mais sacro ritual do que teatro
em que o risco é a norma e o sentido
e a máscara de ser o ser de facto

Assim reza o contrato ...

De resto a eternidade é ser clonado

Vou de metro em paz podre
suburbana
e chego a Entrecampos
entre mortos
criteriosamente conservados

A Empresa financia
assino o pacto

Cecília Irene

(Para ver clicar sobre a imagem)
De branco, sorrindo para o fotógrafo, durante um passeio dos alunos do 7º ano do Liceu D. João de Castro ao Palácio de Queluz (1948?). Casou e viveu com Vasco Costa Marques.

O nosso leito de amor


De Vasco Costa Marques
O nosso leito de amor
será de pedras e espinhos
e nada vale que me digas
que tenho um manto de estrelas
para cobrir o teu corpo
e nada vale que te diga
que o calor da minha carne
será mais forte que o frio
das longas noites de inverno.

Virá o teu fruto amiga
antes do dia da espera.

Sê paciente, espera

"Os amantes sem dinheiro"
1950
EUGÉNIO DE ANDRADE

Sê paciente, espera
Que cada palavra amadureça
E se desprenda, como um fruto,
Ao passar o vento que a mereça

Diz-se controlo e pensa-se com trela

De Vasco Costa Marques
Diz-se controlo e pensa-se com trela
diz-se diálogo e pensa-se artimanha
dizendo solidário pensa-se que lucro ...
“português-treta” um novo dicionário
a acrescentar um ponto ao conto do vigário

Aqui fechado

De Vasco Costa Marques
Aqui fechado
o mar é som diluído
na humidade
de bolor negro
nenhuma chave abre o fio
de uma teia de sol

No despido segredo
que habitamos
nem hoje o mar é livre

Corto Maltese
comprou a farda
numa feira da ladra
da ilha de If

Em qualquer papel se anota um verso

Numa planície de ossos destroçados

De Vasco Costa Marques
Numa planície de ossos destroçados
todas as tardes em silêncio esperam

Fustigados do vento permanecem
horas e horas a fitar o espaço
Depois regressam lentamente às cinzas

Já nem desejo os move só a espera
Tão sós há tanto existem que as palavras
Se foram som a som desvanecendo.

Já me sabem às folhas dos herbários

De Vasco Costa Marques
Já me sabem às folhas dos herbários

fósseis com pó de urânio nas entranhas
preparando a explosão

já elas a si próprias se recusam
já de súbito alheias.....inimigas
seu mercúrio destrói-se pulveriza-se

um osso mudo trespassando as portas

Porquê a expiação

"Descoberta"
1945
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
Porquê
a expiação
de um mal que não cometemos?

Porquê
arrastar sempre a grilheta
de um crime que nunca foi?

Porquê?
andar conformado, submisso,
dando a desculpa a si próprio
da explicação de tudo
numa história, aliás bela,
mas estranha,
de serpentes e maçãs...

"4 Poemas de Desilusão e de Revolta"

A juventude é o gás propulsor dos negócios,

De Vasco Costa Marques
A juventude é o gás propulsor dos negócios,
sobretudo aliada ao tacto comercial
e a boas relações no Governo: os meus sócios
só os recrutarei na geração actual.

Preciso é sangue novo e um pouco de ideal
que o ramo alimentar é quase um sacerdócio
(para mais num país inculto como o nosso...),
mas não vinha de mais um certo capital

dado que, ultimamente, o crédito bancário
tem vindo a rarear e a nova indústria alemã
faz séria concorrência à norte-americana,

base da empresa actual. Trate de ver se aplana
a venda do amendoim; fale ao sub-secretário...
ele adora esse seu sorriso à Cary Grant.
"Importação-Exportação"

Há um grave problema a resolver: existe

De Vasco Costa Marques
Há um grave problema a resolver: existe
«cod liver oil» em «stock» que o mercado não escoa,
e, ou a Firma coloca este excedente ou a
fábrica encerrará se a situação subsiste.

Observe-se, porém, que a crise da lavoura
levou à criação de um Fundo de Assistência,
e mais de um deputado aludiu às carências
que grassam nas regiões gramino-produtoras.

Surge, pois, oportuna a suplementação
das camadas rurais com vitamina D,
prevenindo o desgaste humano da Nação,

salvando-a da fatal degradação biológica.
O Director-Geral, que é homem nosso, vê
o alcance desta acção à base sociológica.
"Importação-Exportação"