Mar largo

De Vasco Costa Marques
Mar largo
em chão de pedra
calçada à portuguesa
olhá-la dá-nos enjoos de mar
sem risco
mas que mareia
e dá para pensar na areia
com peixes de barriga para o ar
que nem à fome da gaivota
servem de isco
por cheiro ou porventura paladar

Ave Maria

De Vasco Costa Marques
Ave Maria
ave marítima
não pomba branca
gaivota íntima
pena empastada
do óleo negro
o olho baço
a asa inútil
o esforço fútil
adejo adeus
que Deus te leve
para o mar que há
seguramente
na sua mão
limpa de crude

Deixo pender a mão ao lume da água

De Vasco Costa Marques
Deixo pender a mão ao lume da água
cortando a água ao ritmo da remada
retornar é por vezes frustração
de querer regressar e não haver passado
e o mar o próprio mar
ser em segunda mão

A minha Índia está aqui

De Vasco Costa Marques
A minha Índia está aqui
entre as magnólias
cortada por uma velha estrada
de escremento seco
toda monumental e inconsútil
encharcada de Ganges
de doenças sagradas
deuses enormes e indiferentes
e anjos magros de lábios lilazes
tirando cursos de eunucos
por correspondência em inglês

Reservei para mim
um espaço de meio passo
entre o carro de gelados
e a entrada do templo

Deixai que a vida sobre vós repouse

1955
JORGE DE SENA

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
26/03/1954

ajustei-me para sparring partner

De Vasco Costa Marques
ajustei-me para sparring partner

O que eu lutei com a minha sombra
nem é bom falar
aparando golpes inventando performances
cúmplice do engano
de nunca me ter vencido
na esquiva dos jabs
e dos upercuts

Lembro-me mais é de me ver
nos espelhos dos bares
e das medalhas dos rótulos das garrafas
e do cheiro dos urinois de vomitar
igual ao dos balneários
e das esquadras da Polícia

Ainda me lembro do Santa Camarão
já ele estava no fim
fins que demoram muito

Santa Camarão, ou Zé Santa, foi um pugilista dos anos 20 e 30 do século passado, que se destacou pela sua grande estatura e força. Numa carreira curta, que terá terminado em 1934, combateu na Europa e nas Américas acumulando vitórias suficientes para o tornar um herói popular. (nota de JG)

Fala do guarda-nocturno

De Vasco Costa Marques
"Fala do guarda-nocturno
mais conhecido no bairro pelo “leão da Metro”
por seus enormes bocejos"

Não será que em hoje
há sempre um amanhãzinha
coisa pequena
de trazer por dentro
um pratinho de sopa
um copinho de branco
uma velinha acesa
sem ter de morrer ninguém

Não será que pensá-lo
é já quase amanhã
sem Zéspereiras sem “slogans”
sem discursos sem cartazes
mas como a semente
que se apanha do chão
e se enterra num vaso
só para ver o que dá

Se der ... Lá vai!
Desculpe lá

o riso imenso

"Poesia e tempo"
1962
DÓRDIO GUIMARÃES
Ophélia 1

o riso imenso
enche o amor inabitado

o logro

de querer a água
a máscara a trança
permanente
na memória flutuante
reflectida estática

o riso largo
habita a boca desunida
em lábio

o mal de ser um
grito prolongado
sem história

e terra

e vidro

Por que exiges o amor de uma escova de dentes?

De Vasco Costa Marques
Por que exiges o amor de uma escova de dentes?
Nem virás a saber o sabor de outros lábios.
Certo, afinal, é ver que estamos doentes.

Mas já que imaginámos tantos astrolábios
para vogar no céu daqui a dois mil anos,
saibamos conquistar, humanos ratos, sábios,
a escuridão dos canos.

Mãe, o Cristo-Rei não se come?

De Vasco Costa Marques
Mãe, o Cristo-Rei não se come?
Não, filho, não come não:
o Cristo-Rei é do patrão.

Mãe, o Padrão não se come?
Não, filho, não come não:
o Padrão é do patrão.

Mãe, e se o Cristo-Rei
fosse um grande Bolo-Rei! ?
Dorme, filho, dorme, dorme:

enquanto se dorme não se tem fome.

A embalagem perdida

De Vasco Costa Marques
A embalagem perdida
o restinho da bisnaga
esferográfica entupida
uma coisinha de nada

a malhasinha caída
a ligadura esfiada
a maquineta de pilhas
que já não são fabricadas

o atraso no horário
a torneira mal vedada
o "Citro" utilitário
com usura acoplada

o fósforo que não acende
a espuma da imperial
a edição que se suspende
no fascículo número tal

a meia hora na bicha
a resistência queimada
o insecticida que esguicha
só meia lata e mais nada

a moedinha sumida
na cabina avariada
vida que se vai esvaída
mal vendida mal comprada.

Em qualquer papel se anota um verso

(Para ler clicar sobre a imagem)

Já contei e recontei

De Vasco Costa Marques
Já contei e recontei
as viagens em que andei
dentro do meu copo de água.
Quatrocentas carpideiras
e vinte padres do altar
choraram a minha mágoa
que a eles todos paguei.
Mas pró Diabo as carpideiras
e mais os padres do altar.
Vou construir um batel,
vou meter-me dentro dele
e ala pró alto mar.

sento-me nestas cadeiras que limitam


"Queda livre - poesia 61"
1961
E. M. DE MELO E CASTRO

sento-me nestas cadeiras que limitam
quatro paredes brancas
onde me quebro as noites

terra de geometria

alicerce de pó
que nos mantém a vida

casa forma passiva de ser móvel

horizonte de braços

telhado

que deixa o sol entrar
e a chuva fugir
"Casa/Casas" - Excerto

Quem o mar ama

De Vasco Costa Marques
Quem o mar ama
não quer amarração
mesmo que de oiro
a amarra seja

é mar amor
que se deseja
livre e sem fim

o resto é charco
onde se atola
o alento e o barco

Hoje pedalei

De Vasco Costa Marques
Hoje pedalei
para lado nenhum
porque o exercício afasta
e o caminho é sempre a descer
qualquer que seja
regae ou rock
que agite as docas
definitivamente
sem lodo no cais senão enlatado
com figurantes à hora
vestidos Salazar
tão produzidos
que até parece que há
deuses com espírito de humor
sabe-se lá ... há?

As águas pela noite estão caladas

"Poemas da noite nova"
JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ


O Silêncio e os Barcos

As águas pela noite estão caladas
e mais barcos vão chegando à mesma foz.

As águas pela noite estão serenas
e os barcos que regressam adormecem.

Ficámos com as mãos mais apertadas
dois apenas sufocando um grande medo.

Ficámos com os olhos mais parados
que as quilhas destes barcos de segredo.

A noite aglutinou lençóis de espuma
e as areias cobriram-se de redes.

Os barcos nesta noite não arquejam,
são mudos na verdade do silêncio.
Capa de René Bertholo - Lisboa 1957

Deus inscreveu-se

De Vasco Costa Marques
Deus inscreveu-se
na Associação de Autores
para ver se recebe
alguns direitos
Até que há praí uns tipos
que querem plagiá-lo
e como está
prevenido
como se sabe ele não dorme
que nunca se sabe
pois criou homens
capazes de tudo clonar

Quanta vez o que resta da memória

De Vasco Costa Marques
Quanta vez o que resta da memória
é só um breve trecho de canção
a porta que se abre ao fundo do segredo
dócil subitamente à nossa mão

Quanta vez o que resta é essa frágil chave
perdida na algibeira da infância
que franqueia de novo os portais para a vida
que promete de novo um percurso à bonança

À luz deste sonho estelar


"Cadernos do meio-dia 3"
1958
CARLOS DE OLIVEIRA

Improviso sobre um verso de Afonso Duarte
.......................................São as aves demais para chorar ?

À luz
deste sonho estelar
a que chamam luar
e que é apenas o silêncio branco
das pedras tumulares
sobre os ossos humanos,
são as aves o menos que choramos.

Lágrimas vivas
dum olhar terrestre
que a loucura escurece,
lá vamos nós,
lá somos, Mestre,
aquelas sombras flutuando no luar.
a
E no entanto a Terra,
esse magoado coração do espaço,
chama ainda por nós.
a
Que lhe diremos, Mestre?
tão pobres e tão sós.

Em menos de um segundo a excepção

De Vasco Costa Marques
Em menos de um segundo a excepção
passou à decepção de um simulacro
pó de oiro que um instante foi paixão
e logo foi areia e logo vácuo

Serenidade neste jogo antigo
mais sacro ritual do que teatro
em que o risco é a norma e o sentido
e a máscara de ser o ser de facto

Assim reza o contrato ...

De resto a eternidade é ser clonado

Vou de metro em paz podre
suburbana
e chego a Entrecampos
entre mortos
criteriosamente conservados

A Empresa financia
assino o pacto

Cecília Irene

(Para ver clicar sobre a imagem)
De branco, sorrindo para o fotógrafo, durante um passeio dos alunos do 7º ano do Liceu D. João de Castro ao Palácio de Queluz (1948?). Casou e viveu com Vasco Costa Marques.

O nosso leito de amor


De Vasco Costa Marques
O nosso leito de amor
será de pedras e espinhos
e nada vale que me digas
que tenho um manto de estrelas
para cobrir o teu corpo
e nada vale que te diga
que o calor da minha carne
será mais forte que o frio
das longas noites de inverno.

Virá o teu fruto amiga
antes do dia da espera.

Sê paciente, espera

"Os amantes sem dinheiro"
1950
EUGÉNIO DE ANDRADE

Sê paciente, espera
Que cada palavra amadureça
E se desprenda, como um fruto,
Ao passar o vento que a mereça

Diz-se controlo e pensa-se com trela

De Vasco Costa Marques
Diz-se controlo e pensa-se com trela
diz-se diálogo e pensa-se artimanha
dizendo solidário pensa-se que lucro ...
“português-treta” um novo dicionário
a acrescentar um ponto ao conto do vigário

Aqui fechado

De Vasco Costa Marques
Aqui fechado
o mar é som diluído
na humidade
de bolor negro
nenhuma chave abre o fio
de uma teia de sol

No despido segredo
que habitamos
nem hoje o mar é livre

Corto Maltese
comprou a farda
numa feira da ladra
da ilha de If

Em qualquer papel se anota um verso

Numa planície de ossos destroçados

De Vasco Costa Marques
Numa planície de ossos destroçados
todas as tardes em silêncio esperam

Fustigados do vento permanecem
horas e horas a fitar o espaço
Depois regressam lentamente às cinzas

Já nem desejo os move só a espera
Tão sós há tanto existem que as palavras
Se foram som a som desvanecendo.

Já me sabem às folhas dos herbários

De Vasco Costa Marques
Já me sabem às folhas dos herbários

fósseis com pó de urânio nas entranhas
preparando a explosão

já elas a si próprias se recusam
já de súbito alheias.....inimigas
seu mercúrio destrói-se pulveriza-se

um osso mudo trespassando as portas

Porquê a expiação

"Descoberta"
1945
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
Porquê
a expiação
de um mal que não cometemos?

Porquê
arrastar sempre a grilheta
de um crime que nunca foi?

Porquê?
andar conformado, submisso,
dando a desculpa a si próprio
da explicação de tudo
numa história, aliás bela,
mas estranha,
de serpentes e maçãs...

"4 Poemas de Desilusão e de Revolta"

A juventude é o gás propulsor dos negócios,

De Vasco Costa Marques
A juventude é o gás propulsor dos negócios,
sobretudo aliada ao tacto comercial
e a boas relações no Governo: os meus sócios
só os recrutarei na geração actual.

Preciso é sangue novo e um pouco de ideal
que o ramo alimentar é quase um sacerdócio
(para mais num país inculto como o nosso...),
mas não vinha de mais um certo capital

dado que, ultimamente, o crédito bancário
tem vindo a rarear e a nova indústria alemã
faz séria concorrência à norte-americana,

base da empresa actual. Trate de ver se aplana
a venda do amendoim; fale ao sub-secretário...
ele adora esse seu sorriso à Cary Grant.
"Importação-Exportação"

Há um grave problema a resolver: existe

De Vasco Costa Marques
Há um grave problema a resolver: existe
«cod liver oil» em «stock» que o mercado não escoa,
e, ou a Firma coloca este excedente ou a
fábrica encerrará se a situação subsiste.

Observe-se, porém, que a crise da lavoura
levou à criação de um Fundo de Assistência,
e mais de um deputado aludiu às carências
que grassam nas regiões gramino-produtoras.

Surge, pois, oportuna a suplementação
das camadas rurais com vitamina D,
prevenindo o desgaste humano da Nação,

salvando-a da fatal degradação biológica.
O Director-Geral, que é homem nosso, vê
o alcance desta acção à base sociológica.
"Importação-Exportação"

Sabe lá quanto custa a transigência

De Vasco Costa Marques
Sabe lá quanto custa a transigência
a esta exploração! É indecente!
E uns merceeirões, de uma insolência...
Um licenciado em História às ordens desta gente!.

O ordenado, sim, compensador
(e vou fazendo o mínimo possível)
mas há que aparentar, é um horror,
uma alienação — percebe-me? — terrível!

Nem sequer meti férias este ano:
surgiram-me uns programas na T. V.
(que aceitei com licença da Gerência),

culturais, com um fundo de piano,
e nada maus ao cabo. Pois, você
passe quando quiser... Não há urgência.
"Importação-Exportação"

Já não vivo sobrevivo

De Vasco Costa Marques
Já não vivo sobrevivo
já fui o que já não sou
e se outra coisa não posso
posso ainda a que vos digo:
"A quem me comeu a carne
recuso entregar o osso".
E assim com esta me vou
pois que o relógio do juízo
diz que são horas do almoço
e a tudo que é milagre
não convém chegarmos tarde

Ter esperança não é pecado

De Vasco Costa Marques
Ter esperança não é pecado
Se vive melhor com ela
quem a tem que lhe aproveite

Sente um gato no telhado?
ponha no vão da janela
um pirezinho de leite

Trago nas mãos o calor.

"Os olhos sem fronteira"
1953
ORLANDO DA COSTA


Trago nas mãos o calor
Que deponho a cada instante
No teu rosto que aspira a primavera que se pisa no chão
E espera o outono das folhas e dos caminhos
E desce comigo ao sabor
Que à terra dá cada breve estação

Trago-te o calor e as mãos inteiras
E nos olhos o horizonte dos nevoeiros no enredo das
....florestas
Das vinhas colhidas pêlos amantes reunidos à beira
....das manhãs
E dos barcos e das pombas em planícies sem trincheiras

Trago para nós a largura das terras e do mar
Onde se perpetue o amor dos homens
Na paz de cada olhar
Vasco Costa Marques e Orlando da Costa foram amigos e partilharam o gosto pelas letras e a profissão: ambos trabalharam em publicidade.

Dormem velhas poeiras nas paredes

De Vasco Costa Marques
Dormem velhas poeiras nas paredes
Escorre um longo frio das páginas dos livros
Estas mesmas palavras hesitaram
Em buscar o conchego dos teus dedos

Já fizeram comigo estes caminhos duros
Cavados sob os pés com súplicas e fogos
Mesmo pêlos jardins de sombra nos espiaram
Machucando o teu seio como um papel inútil

Tínhamos nas gavetas tanto amor desatado
Penetrava tão longe como o cheiro da maré
Pelo perfume duma pétala arrombaram-nos as portas
E cortaram o sol em cima dos meus olhos

"Oito Feições da Palavra Aguardar"

Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique

De Vasco Costa Marques
Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique
dedo polegar por certo se servia de tampão ou qualquer outro
se servia de rolha e qual conforme o calibre do furo
ou a mão toda se racha fosse

Quem não se chateia com a friagem no dedo
já azul e exangue e a dor que alastra
num de repente pelo corpo todo
e de gritar já rouco alertas sem resposta
senão risos daqueles que de indicador na testa
lhe chamam louco e se estão borrifando
Quem não se chateia de ficar na história
como o maior otário holandês
atascado na água dos canais
até aos canais semi-circulares nariz empinado
a ponto de lhe chamarem arrogante
e os mestres de obras a acusarem-no
de ter feito o buraco – terrorista!
porque os diques ali o juravam
tinham sido erguidos com o melhor
material e tecnologia mais de ponta
que era a deles e distribuiam cartões aos circunstantes
Um cego começou a tocar violino
Alguém trouxe um carro para vender cachorros
As meninas saíram das montras e miravam-no
com interesse – Não é um querido? ...

Vá uma morte loura

"Manual de prestidigitação"

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS




Coro dos Maus Oficiais de Serviço na Corte de Epaminondas, Imperador


uma morte loura
simpática
acolhedora
que não dê muito muito que falar
mas que também não gere
um silêncio
excessivo


uma morte boa
a uma boa hora
uma morte ginasta .... tradutora
relativamente compensadora
uma morte pedal espinha de biciclete quase cara-
........ pau
com quatro a cinco soltas a dizer
que se ele não tivesse ido embora
tão jovem ...... tão salino
boas probabilidades haveria de ter
de vir a ser
dos melhores poetas pós-fernandino

vá lá ..... vá lá Mário
uma morte
naniôra
que não deixe o esqueleto de fora como nos casos
...... do mau gosto
os esqueletos têm sempre um quê de arrependidos
se bem que por aí já convinha lá isso já também
...... era verdade


o demais demora
e
francamente
nunca será teu

vá vá vamos embora

custava-te menos agora
e ainda ias para o céu

Em qualquer papel se anota um verso

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O futuro é um criado esguio

De Vasco Costa Marques
O futuro é um criado esguio
sempre a limpar a mesma mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

Não ligue bóia. Comer, beber...
a ordem manda ir a compasso.
Chupa seis meses para aprender:
a ordem manda ir a compasso...

Por que não pensa em emigrar?
United States... Venezuela...
Dinheiro à bruta... e viajar...
United States? Venezuela?

No fim do mês. Nem mais um dia!
E por que não jogos de azar?
Tente a roleta, a lotaria.
Sim, por que não jogos de azar?

Com essa idade já quer emprego?
Levante a saia. Mostre-me o seio.
Então, às dez, Bar do Morcego...
Levanta a saia. Dá cá o seio.

Domingo, e sábado a tarde inteira,
a desmontar e a montar motores...
Vou entreter-me até sexta-feira
a desmontar e a montar motores.

Um pé de meia, um capital...
Prédio de renda... belas pantufas
Nem que me venda, «ca m'est égal!»
Prédio de renda... belas pantufas...

O futuro é um criado esguio
Sempre a limpar a mesma a mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

Golfinho deu à costa

De Vasco Costa Marques
Golfinho deu à costa
na Praia de Santo Amaro
e às dez da manhã
acabou por morrer

Nenhum rasgão na pele
nenhum sangue a escorrer
que há-de fazer golfinho
quando o mar o repele
senão escolher um areal decente
despedir-se do mar com dignidade
deixando sobre a areia
o peso da saudade verdadeira

De palavras que não disse

De Vasco Costa Marques
De palavras que não disse
tenho uma gaveta cheia —
quem guarda o seu pão na arca
nem os bens do mundo abarca
nem socorre a fome alheia.

É espalhar os grãos que o rumo
logo irão seguindo lestos.

Na terra de cada peito
palavras de boca em boca
frutificarão em gestos.

A cor da carne

"A morte percutiva - poesia 61"
1961
GASTÃO CRUZ
A cor da carne
à noite
os intervalos da água

Porque o vento é aberto
é que nos sabe a branco nos ouvidos

E tu tens um canal perifericamente em toda a pele

Tenho a dizer-te o dia dos meus membros
e a curva concreta desta luz

O cansaço é nascente como o sol

O mar nasceu

De Vasco Costa Marques
O mar nasceu
de um pinheiro sonhador
não para um Deus andar
por sobre as águas
como um Onassis cósmico
mas para que o Adão
despejado do belo Paraíso
por pura embirração do senhorio
pescasse o seu cação
o seu safio
para regalo da Eva despeitada
com uma caldeirada
que fizesse o velho Deus
morrer de inveja
e dizer "Isto é bom
e pelos séculos dos séculos
assim seja!"
Não acredita não?
Vá o meu caro amigo
ali à margem sul e veja.

Vasco Costa Marques

(Para ver clicar sobre a imagem)
Provavelmente, finais dos anos 40

Primeira edição de "Poesia dos Dias Úteis", em exemplar único dactilografado e encadernado para a sua então recente mulher

(Para ler clicar sobre a imagem)
Se uma presença me dulcifica
- tus ojos nina...

Se uma certeza calma de fruto
- mujer tus ancas

Se me pergunto se me procuro
- la mar... la mar...
tus rojas olas blancas...

A minha alma é preguiçosa

De Vasco Costa Marques
A minha alma é preguiçosa
quando nasceu já eu cá estava
a comer amendoíns na matiné
do Palatino
uma espécie de missing link
entre a Chita e Robin Wood
no tempo em que a Jane
nadava nua oh! oh!

O Palatino era um cinema popular, dos anos 30, que existia no Alto de Santo Amaro. Vasco Costa Marques que era do bairro, nascido e criado no r/c do nº 9 da Rua dos Lusíadas, mesmo na esquina com a Leão de Oliveira, frequentou-o na sua juventude. (nota de JG)
Ilustração de António Areal
"Poesia dos Dias Úteis"

Com restos que ninguém nunca mais reaquece

De Vasco Costa Marques
Com restos que ninguém nunca mais reaquece
Com os cães de Pavlov com pianos antigos
Com a tua voz off e o abraço dos amigos
Assim em mim também o modo permanece

E faço a tradução para calmos vitrais
Ou vou sacerdotal arremessando os dados
Construindo no sal dos dedos amputados
O tricot da canção da lição dos sinais

Mas sei que voar de jumbo em vinho violeta
Não é ter o controlo dos motores de reacção...
Não se transmuta o chumbo inerte da paleta
Não há chave cobol que liberte esta mão

E menina da sociedade de recreio

De Vasco Costa Marques
E menina da sociedade de recreio
foi a seis bailes pelo carnaval.. .
O rapaz não era muito feio. ..
tinha de seu... as mães falaram
e etc. e tal
E agora há mais outras meninas
na sociedade de recreio
nos bailes de carnaval
à espera dum rapaz que não seja muito feio
e.. . o resto é sempre igual sempre igual
sempre igual.

Duzentos e seis no corpo

De Vasco Costa Marques
Duzentos e seis no corpo
e vinte e seis num só pé?
A estatística do osso
confirma que o homem é
fruta só de água e caroço
mas no meu caso confesso
tem mais seiva de videira
e algum pó de café

O petróleo do Iraque

De Vasco Costa Marques
O petróleo do Iraque
comprou um quadro de Braque
regou-o de bom conhaque
meteu-o dentro de um fraque
e o fraque num cadilaque
Ai que será que será que
acontece ao bricabraque
quando a clique fizer CLAC

"Abracadabra"

As portas que Abril abriu

(Para ler clicar sobre a imagem)

Meu velho Jau

De Vasco Costa Marques
Meu velho Jau
razão tinha-la tu
até onde com meu olho bom abarco
tudo isto é charco
e o rei vai nu

Tudo porque o meu fado é mal fadado
Juro por minha fé
repara nesses dois
o Chiado e o Pessoa ali sentados
e eu de pé

E o Camões do Loreto
mudou a pala
do olho mau para o olho bom
e fez uma soneca
em vez de magicar outro soneto
talvez com tranças pretas
a rimar com violetas
e no seu sono
sorria a relembrar o canto nono