Em qualquer papel se anota um verso

Numa planície de ossos destroçados

De Vasco Costa Marques
Numa planície de ossos destroçados
todas as tardes em silêncio esperam

Fustigados do vento permanecem
horas e horas a fitar o espaço
Depois regressam lentamente às cinzas

Já nem desejo os move só a espera
Tão sós há tanto existem que as palavras
Se foram som a som desvanecendo.

Já me sabem às folhas dos herbários

De Vasco Costa Marques
Já me sabem às folhas dos herbários

fósseis com pó de urânio nas entranhas
preparando a explosão

já elas a si próprias se recusam
já de súbito alheias.....inimigas
seu mercúrio destrói-se pulveriza-se

um osso mudo trespassando as portas

Porquê a expiação

"Descoberta"
1945
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
Porquê
a expiação
de um mal que não cometemos?

Porquê
arrastar sempre a grilheta
de um crime que nunca foi?

Porquê?
andar conformado, submisso,
dando a desculpa a si próprio
da explicação de tudo
numa história, aliás bela,
mas estranha,
de serpentes e maçãs...

"4 Poemas de Desilusão e de Revolta"

A juventude é o gás propulsor dos negócios,

De Vasco Costa Marques
A juventude é o gás propulsor dos negócios,
sobretudo aliada ao tacto comercial
e a boas relações no Governo: os meus sócios
só os recrutarei na geração actual.

Preciso é sangue novo e um pouco de ideal
que o ramo alimentar é quase um sacerdócio
(para mais num país inculto como o nosso...),
mas não vinha de mais um certo capital

dado que, ultimamente, o crédito bancário
tem vindo a rarear e a nova indústria alemã
faz séria concorrência à norte-americana,

base da empresa actual. Trate de ver se aplana
a venda do amendoim; fale ao sub-secretário...
ele adora esse seu sorriso à Cary Grant.
"Importação-Exportação"

Há um grave problema a resolver: existe

De Vasco Costa Marques
Há um grave problema a resolver: existe
«cod liver oil» em «stock» que o mercado não escoa,
e, ou a Firma coloca este excedente ou a
fábrica encerrará se a situação subsiste.

Observe-se, porém, que a crise da lavoura
levou à criação de um Fundo de Assistência,
e mais de um deputado aludiu às carências
que grassam nas regiões gramino-produtoras.

Surge, pois, oportuna a suplementação
das camadas rurais com vitamina D,
prevenindo o desgaste humano da Nação,

salvando-a da fatal degradação biológica.
O Director-Geral, que é homem nosso, vê
o alcance desta acção à base sociológica.
"Importação-Exportação"

Sabe lá quanto custa a transigência

De Vasco Costa Marques
Sabe lá quanto custa a transigência
a esta exploração! É indecente!
E uns merceeirões, de uma insolência...
Um licenciado em História às ordens desta gente!.

O ordenado, sim, compensador
(e vou fazendo o mínimo possível)
mas há que aparentar, é um horror,
uma alienação — percebe-me? — terrível!

Nem sequer meti férias este ano:
surgiram-me uns programas na T. V.
(que aceitei com licença da Gerência),

culturais, com um fundo de piano,
e nada maus ao cabo. Pois, você
passe quando quiser... Não há urgência.
"Importação-Exportação"

Já não vivo sobrevivo

De Vasco Costa Marques
Já não vivo sobrevivo
já fui o que já não sou
e se outra coisa não posso
posso ainda a que vos digo:
"A quem me comeu a carne
recuso entregar o osso".
E assim com esta me vou
pois que o relógio do juízo
diz que são horas do almoço
e a tudo que é milagre
não convém chegarmos tarde

Ter esperança não é pecado

De Vasco Costa Marques
Ter esperança não é pecado
Se vive melhor com ela
quem a tem que lhe aproveite

Sente um gato no telhado?
ponha no vão da janela
um pirezinho de leite

Trago nas mãos o calor.

"Os olhos sem fronteira"
1953
ORLANDO DA COSTA


Trago nas mãos o calor
Que deponho a cada instante
No teu rosto que aspira a primavera que se pisa no chão
E espera o outono das folhas e dos caminhos
E desce comigo ao sabor
Que à terra dá cada breve estação

Trago-te o calor e as mãos inteiras
E nos olhos o horizonte dos nevoeiros no enredo das
....florestas
Das vinhas colhidas pêlos amantes reunidos à beira
....das manhãs
E dos barcos e das pombas em planícies sem trincheiras

Trago para nós a largura das terras e do mar
Onde se perpetue o amor dos homens
Na paz de cada olhar
Vasco Costa Marques e Orlando da Costa foram amigos e partilharam o gosto pelas letras e a profissão: ambos trabalharam em publicidade.

Dormem velhas poeiras nas paredes

De Vasco Costa Marques
Dormem velhas poeiras nas paredes
Escorre um longo frio das páginas dos livros
Estas mesmas palavras hesitaram
Em buscar o conchego dos teus dedos

Já fizeram comigo estes caminhos duros
Cavados sob os pés com súplicas e fogos
Mesmo pêlos jardins de sombra nos espiaram
Machucando o teu seio como um papel inútil

Tínhamos nas gavetas tanto amor desatado
Penetrava tão longe como o cheiro da maré
Pelo perfume duma pétala arrombaram-nos as portas
E cortaram o sol em cima dos meus olhos

"Oito Feições da Palavra Aguardar"

Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique

De Vasco Costa Marques
Quem não se chateia de ser o rapaz de dedo no dique
dedo polegar por certo se servia de tampão ou qualquer outro
se servia de rolha e qual conforme o calibre do furo
ou a mão toda se racha fosse

Quem não se chateia com a friagem no dedo
já azul e exangue e a dor que alastra
num de repente pelo corpo todo
e de gritar já rouco alertas sem resposta
senão risos daqueles que de indicador na testa
lhe chamam louco e se estão borrifando
Quem não se chateia de ficar na história
como o maior otário holandês
atascado na água dos canais
até aos canais semi-circulares nariz empinado
a ponto de lhe chamarem arrogante
e os mestres de obras a acusarem-no
de ter feito o buraco – terrorista!
porque os diques ali o juravam
tinham sido erguidos com o melhor
material e tecnologia mais de ponta
que era a deles e distribuiam cartões aos circunstantes
Um cego começou a tocar violino
Alguém trouxe um carro para vender cachorros
As meninas saíram das montras e miravam-no
com interesse – Não é um querido? ...

Vá uma morte loura

"Manual de prestidigitação"

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS




Coro dos Maus Oficiais de Serviço na Corte de Epaminondas, Imperador


uma morte loura
simpática
acolhedora
que não dê muito muito que falar
mas que também não gere
um silêncio
excessivo


uma morte boa
a uma boa hora
uma morte ginasta .... tradutora
relativamente compensadora
uma morte pedal espinha de biciclete quase cara-
........ pau
com quatro a cinco soltas a dizer
que se ele não tivesse ido embora
tão jovem ...... tão salino
boas probabilidades haveria de ter
de vir a ser
dos melhores poetas pós-fernandino

vá lá ..... vá lá Mário
uma morte
naniôra
que não deixe o esqueleto de fora como nos casos
...... do mau gosto
os esqueletos têm sempre um quê de arrependidos
se bem que por aí já convinha lá isso já também
...... era verdade


o demais demora
e
francamente
nunca será teu

vá vá vamos embora

custava-te menos agora
e ainda ias para o céu

Em qualquer papel se anota um verso

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O futuro é um criado esguio

De Vasco Costa Marques
O futuro é um criado esguio
sempre a limpar a mesma mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

Não ligue bóia. Comer, beber...
a ordem manda ir a compasso.
Chupa seis meses para aprender:
a ordem manda ir a compasso...

Por que não pensa em emigrar?
United States... Venezuela...
Dinheiro à bruta... e viajar...
United States? Venezuela?

No fim do mês. Nem mais um dia!
E por que não jogos de azar?
Tente a roleta, a lotaria.
Sim, por que não jogos de azar?

Com essa idade já quer emprego?
Levante a saia. Mostre-me o seio.
Então, às dez, Bar do Morcego...
Levanta a saia. Dá cá o seio.

Domingo, e sábado a tarde inteira,
a desmontar e a montar motores...
Vou entreter-me até sexta-feira
a desmontar e a montar motores.

Um pé de meia, um capital...
Prédio de renda... belas pantufas
Nem que me venda, «ca m'est égal!»
Prédio de renda... belas pantufas...

O futuro é um criado esguio
Sempre a limpar a mesma a mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

Golfinho deu à costa

De Vasco Costa Marques
Golfinho deu à costa
na Praia de Santo Amaro
e às dez da manhã
acabou por morrer

Nenhum rasgão na pele
nenhum sangue a escorrer
que há-de fazer golfinho
quando o mar o repele
senão escolher um areal decente
despedir-se do mar com dignidade
deixando sobre a areia
o peso da saudade verdadeira

De palavras que não disse

De Vasco Costa Marques
De palavras que não disse
tenho uma gaveta cheia —
quem guarda o seu pão na arca
nem os bens do mundo abarca
nem socorre a fome alheia.

É espalhar os grãos que o rumo
logo irão seguindo lestos.

Na terra de cada peito
palavras de boca em boca
frutificarão em gestos.

A cor da carne

"A morte percutiva - poesia 61"
1961
GASTÃO CRUZ
A cor da carne
à noite
os intervalos da água

Porque o vento é aberto
é que nos sabe a branco nos ouvidos

E tu tens um canal perifericamente em toda a pele

Tenho a dizer-te o dia dos meus membros
e a curva concreta desta luz

O cansaço é nascente como o sol

O mar nasceu

De Vasco Costa Marques
O mar nasceu
de um pinheiro sonhador
não para um Deus andar
por sobre as águas
como um Onassis cósmico
mas para que o Adão
despejado do belo Paraíso
por pura embirração do senhorio
pescasse o seu cação
o seu safio
para regalo da Eva despeitada
com uma caldeirada
que fizesse o velho Deus
morrer de inveja
e dizer "Isto é bom
e pelos séculos dos séculos
assim seja!"
Não acredita não?
Vá o meu caro amigo
ali à margem sul e veja.

Vasco Costa Marques

(Para ver clicar sobre a imagem)
Provavelmente, finais dos anos 40

Primeira edição de "Poesia dos Dias Úteis", em exemplar único dactilografado e encadernado para a sua então recente mulher

(Para ler clicar sobre a imagem)
Se uma presença me dulcifica
- tus ojos nina...

Se uma certeza calma de fruto
- mujer tus ancas

Se me pergunto se me procuro
- la mar... la mar...
tus rojas olas blancas...

A minha alma é preguiçosa

De Vasco Costa Marques
A minha alma é preguiçosa
quando nasceu já eu cá estava
a comer amendoíns na matiné
do Palatino
uma espécie de missing link
entre a Chita e Robin Wood
no tempo em que a Jane
nadava nua oh! oh!

O Palatino era um cinema popular, dos anos 30, que existia no Alto de Santo Amaro. Vasco Costa Marques que era do bairro, nascido e criado no r/c do nº 9 da Rua dos Lusíadas, mesmo na esquina com a Leão de Oliveira, frequentou-o na sua juventude. (nota de JG)
Ilustração de António Areal
"Poesia dos Dias Úteis"

Com restos que ninguém nunca mais reaquece

De Vasco Costa Marques
Com restos que ninguém nunca mais reaquece
Com os cães de Pavlov com pianos antigos
Com a tua voz off e o abraço dos amigos
Assim em mim também o modo permanece

E faço a tradução para calmos vitrais
Ou vou sacerdotal arremessando os dados
Construindo no sal dos dedos amputados
O tricot da canção da lição dos sinais

Mas sei que voar de jumbo em vinho violeta
Não é ter o controlo dos motores de reacção...
Não se transmuta o chumbo inerte da paleta
Não há chave cobol que liberte esta mão

E menina da sociedade de recreio

De Vasco Costa Marques
E menina da sociedade de recreio
foi a seis bailes pelo carnaval.. .
O rapaz não era muito feio. ..
tinha de seu... as mães falaram
e etc. e tal
E agora há mais outras meninas
na sociedade de recreio
nos bailes de carnaval
à espera dum rapaz que não seja muito feio
e.. . o resto é sempre igual sempre igual
sempre igual.

Duzentos e seis no corpo

De Vasco Costa Marques
Duzentos e seis no corpo
e vinte e seis num só pé?
A estatística do osso
confirma que o homem é
fruta só de água e caroço
mas no meu caso confesso
tem mais seiva de videira
e algum pó de café

O petróleo do Iraque

De Vasco Costa Marques
O petróleo do Iraque
comprou um quadro de Braque
regou-o de bom conhaque
meteu-o dentro de um fraque
e o fraque num cadilaque
Ai que será que será que
acontece ao bricabraque
quando a clique fizer CLAC

"Abracadabra"

As portas que Abril abriu

(Para ler clicar sobre a imagem)

Meu velho Jau

De Vasco Costa Marques
Meu velho Jau
razão tinha-la tu
até onde com meu olho bom abarco
tudo isto é charco
e o rei vai nu

Tudo porque o meu fado é mal fadado
Juro por minha fé
repara nesses dois
o Chiado e o Pessoa ali sentados
e eu de pé

E o Camões do Loreto
mudou a pala
do olho mau para o olho bom
e fez uma soneca
em vez de magicar outro soneto
talvez com tranças pretas
a rimar com violetas
e no seu sono
sorria a relembrar o canto nono

Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios

De Vasco Costa Marques
Último Poema do Amor Ausente

Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios
De momento a momento às vantagens do tempo
Meu amor meu amor tem por vezes o gosto
Do veneno sorvido ao desabar das pontes

A mais frágil aragem os confunde
O espaço aberto enreda-lhes os passos
O convívio da vida esboroa as palavras
A liberdade é um peso enorme nos seus ombros

«Tudo quanto perdi na violência do tempo
Veio hoje até mim como o espinho da flor
Como o operário morto entre o ferro e o cimento
Da construção do amor

Foi um lento e incógnito perfume
Foi um lago sem margens intransposto
Foi uma pedra vermelha de lume
O mais belo sorrir de desgosto»