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É difícil olhar

De Vasco Costa Marques
É difícil olhar
é difícil ouvir
é difícil pensar
é difícil dormir

é difícil não estar
é difícil não ir
é difícil optar
é difícil agir

é difícil passar
sem queimar os navios
é difícil amar
quando estamos vazios

é difícil não dar
é difícil pedir
Ai as portas prò mar
e o pavor de as abrir...

Para onde os rumos perdidos

De Vasco Costa Marques
Para onde os rumos perdidos
dos meus dedos ?
Para onde senão para ti
Para onde a prece de silêncio
das horas de paisagem
Para onde senão para ti
Para ti que me aguardas
na pergunta de qualquer cruzamento
Humana de todos os desejos.

Bom senso é arquivar a última carícia

De Vasco Costa Marques
Bom senso é arquivar a última carícia
numa burocracia sem memória,
perfeitamente isentos da cobiça
de conhecer, em nós, o fim da história.

Pois, quantas pontes já não construímos
de mais, para saber dos outros lados?...
Por isso nos sorrimos
Por entre os dentes ralos e parados.

Tão nítida a cidade e não ousamos

De Vasco Costa Marques
Tão nítida a cidade e não ousamos
arrancar a raiz que nos perdura neste
chão de penumbras desoladas.

De mesa em mesa, longamente, vamos
dando e roubando as mãos, a face escura,
entre velas compradas, apagada.

Voa, pássaro de asas inseguras!
A cada sopro novo alarga o pano
das tuas asas de empenhada alvura.

Pesa-te o chumbo de um repúdio de anos,
de pena em pena ganharás altura.

Canto porque pressinto

De Vasco Costa Marques
Canto porque pressinto
a face verdadeira
nesta com que, vivendo, à vida minto.
A cantar, tenho-a inteira.

Mas, tendo-a não tendo,
mais doi o agravo
de o poema ser livre
e o poeta escravo.

Não se fala de amor em línguas mortas

De Vasco Costa Marques
Não se fala de amor em línguas mortas
Não se consegue a lua rastejando
Não tens amigos se fechares as portas
Não há cravos se os fores arrancando

Não se constrói a força abandonando
As armas conquistadas a vitória
Não se faz o futuro regressando
Ao buraco que temos na memória

Não se avivam as tardes de vermelho
Com demãos de betume e tinta preta
Não se acende a manhã com papéis velhos
Não se chega sem ir em linha recta

Ressoa a ponte sob os pés que leva

De Vasco Costa Marques

Ressoa a ponte sob os pés que leva
E deles já de súbito ferrugem
Um sono gordo de poeira e esperma
Pesa ainda nos olhos que ressurgem

Não se inaugura a vida. Qual esperança
de por encanto se mudar de pele ...
Surfar exige ter os pés na prancha
E ser-se a própria onda que a impele

Comecei como aprendiz

De Vasco Costa Marques
Comecei como aprendiz
a mestre não chegarei
não vou acabar no fim
mas sim onde comecei
porque o meu melhor latim
é querer o que não há
e saber o que não sei

De recusa em recusa porta em porta

De Vasco Costa Marques
De recusa em recusa porta em porta
em longos patamares se esvaziam

Fracos os sons que passam nas cortinas
sedimentam nos móveis desfalecem

Um recanto cansado onde a cabeça
pende no fim da tarde os olhos líquidos

Crescem já sobre o corpo as longas folhas
frescas e longas folhas vidro froixo

Trémulo pairo o chão arde na boca
meus irnãos desfocados fome mútua
só saciada quanta vez em cinza.

Pedro o Ermita

De Vasco Costa Marques
Pedro o Ermita
desceu em Manhatam
e subiu ao último andar
do World Trade Center
- "Falta muito para chegar ao céu?"
perguntou ao segurança.
- "Just a second, Sir" respondeu o rapaz

E assim foi

Memorial de cinzas
quantas e quantas de ossos
que ninguém nunca mais identifica

cartas... milhares...
sem destinatários

de cimento e prosápias
os calvários

Queriam-se

De Vasco Costa Marques
Queriam-se
Alimentavam-se um do outro
Cada contacto aproximava a morte

«Seria só um pássaro desfeito um rio sorvido
Pela própria nascente a paisagem
Que construiu em volta existe apenas
Como um palco fantasma nada mais

Lentamente corroeu-se o tecido das horas
Como a hera trespassa as paredes das casas
E as madeiras antigas se desfazem
Conservando o seu espelho de verniz

Lentamente serrando as pontes das palavras
Rolando sobre a pele a névoa do cansaço
Um perfume que desce ao profundo dos hábitos
Afogando o desgosto a procura o sorriso»

Como a hora

De Vasco Costa Marques
Como a hora
torturado
é o poema;

tumultuoso,
rude, apenas
doce na mais
funda raiz.

Forjado
e inesperado
é o poema.

Os olhos perturbados que procuro

De Vasco Costa Marques
Os olhos perturbados que procuro
lançar para o percurso imprevisível
míssil de dentes que nasceram raros
com a fome do mundo

Prendo-os a esta esquina silenciosa
furiosamente de imitar o canto
dos caminhos do espaço

A nuvem passa
com raivosas formigas nos artelhos.

Um dia acreditámos que podia

De Vasco Costa Marques
Um dia acreditámos que podia
viver o amor de duas mãos cortadas,
só porque, de silêncio, anoitecia

Mas só de assim buscá-lo se esquivava.

Anoitece com cítaras... com cítaras

De Vasco Costa Marques
Anoitece com cítaras... com cítaras
a entornar um vinho melodioso
sobre os livros da escrita.

« — Não acendeu a luz. sr. Veloso! ?
Sr. Veloso! Está tão frio!...»

Sr. Veloso não tugiu,
Sr. Veloso não mugiu.
Sr. Veloso não deixou montepio.

Ê assim que anoitece com cítaras.

Minha serena flor da haste clara,

de Vasco Costa Marques
Minha serena flor da haste clara,
será tua cor a vitória mais rara...
o caso é que vás!

Minha serena flor de formosura,
será o teu cheiro a nascente mais pura.
o caso é que vás...

O mar que tu és
não cabe onde estás.

Encontraram-se reunidos

De Vasco Costa Marques
Encontraram-se reunidos
Perto do vinho da destruição

É sua condição
Viver sobre detritos

De três palhas vazias
Construir a bonança

Inventar a riqueza
É o seu alimento

«O pão que dou
Se não o suo
Soa sem dor
A um solene
Silêncio cúmplice
Quem o aguarda
Não se pergunta
Se só lho trago
Se me alimenta
Mas minha fome
Só a sacio
Se saciando-a
Se me acrescenta»

O mar não tem volta

De Vasco Costa Marques
O mar não tem volta
na ponta o mar aponta
sempre para outro lado
mar é só amar e ir
e o mais não conta
por mais de rosas seja
ou mais salgado

Todo o mar que se presa
não é lago

Na minha pele a ardência do deserto

De Vasco Costa Marques
Na minha pele a ardência do deserto
na minha alma a angústia da distância. ..
Trago a rudeza de um caminho aberto
não me peças que reze as orações de infância

O osso buco bucólico

De Vasco Costa Marques
O osso buco bucólico
nu como cela de monge
fez dele o menino um óculo
para ver sonhos ao longe
sonhos que a onda revela
versáteis como a fuga das gazelas
leves como barco à vela
longe longe longe longe