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Peixe voador

De Vasco Costa Marques
Peixe voador
optou pelo mar
mas sente saudades
sem saber de quê
até sem saber
se se quer lembrar
a nadar no vento ...
a voar no mar ...


Com que então cá estamos de novo

de Vasco Costa Marques 
Com que então cá estamos de novo
um viva engatilhado na garganta,
a coçar o eczema do povo
esfarrapado-coitado-que canta...

Cá estamos de novo, amigos,
caros adversários natalícios,
enfeitados com a rosa dos perigos,
na espera de toiros dos comícios.

É que amanhã talvez não haja nada
(de Jaguar, aliás, sobe-se bem a liberdade)
e depois do carrascão de dizer camarada
guronsan que se faz tarde.


                     Mas isso “Era uma vez...”
                     sem meninos pequeninos
                     de bibinhos azulinhos
                     de xadrez
                     a marchar para o asilo
                    de mãos dadas três a três.

Pois não tem nada de surpreendente …

De Vasco Costa Marques

Pois não tem nada de surpreendente …

O preciso é estar com a nossa gente:
Um tipo falacala
um tipo cala fala
um tipo calafata
porque a folha de químico é barata
A gente ou o vizinho
a gente e o vizinho
agentovizinho

E não tem nada de surpreendente
cada vez mais lentamente
cada vez mais dificilmente
um tipo dá a volta à sala
faz a mala
e abala
sobe a escada até ao quarto
andar do quarto
independente
parando em cada patamar
que o coração estala
e sente falta de ar

O sono de Outono

De Vasco Costa Marques

O sono de Outono
um fino assobio

a língua de prata
a ponta de um corno

na menina do olho
o frio da faca

o barco no porto
o morto de borco

por uma unha negra


O mar mar de pescar

De Vasco Costa Marques

O mar mar de pescar
quase não há
Um destino de dor e de paixão
pão de pedra da fome
enreda lentamente o pescador
lentamente o consome

E face a esta morte anunciada
ao Velho do Restelo só lhe resta
pegar no seu bordão e na sacola
e ir pedir reforma antecipada
que para ele decerto
é coisa ainda mais amarga
do que pedir esmola


O barco é a âncora

De Vasco Costa Marques
O barco é a âncora
do nauta
é a linha que
prende a nota à pauta
enquanto o som
se expande e alarga
o horizonte
que está e nunca
está
ali de fronte


Pois parolando


Vasco Costa Marques

Pois parolando
cá vou andando
tropeçalando
mas garimpando
ou ecoando
despoletando
ou implodindo
E com gerúndio
desirmanado
desirmanando

Seja bem vindo



Na rua das Tecedeiras


De Vasco Costa Marques
Na rua das Tecedeiras
Igreja de Santo André
uma tristeza gótica coxeia
na paisagem caótica de Bosh

Nem do burro do Presépio
A voz chegará aos céus?...

As damas põem mantilhas
os homens tiram chapéus

ABRIL MAIS TARDE


De Vasco Costa Marques
ABRIL MAIS TARDE

As portas que Abril abriu
foram fechando fechando
Martim Moniz entalado
suor e sonho sangrando
lentamente a sangue frio

Sobe um rastejar de ratos
calmas canoas no rio ?

Martinho tinha o mar


De Vasco Costa Marques
Martinho tinha o mar
na ideia e no corpinho
Nasceu ou foi por assim dizer
nado a nadar
desde o amniótico
à àgua do alguidar
e à pia de água benta
onde o foram lavar
depois do grito de Ipiranga
onde atestou a sua zanga
e a determinação
em sobrenadar
nesta parcela do sistema solar
onde o tinham lançado
sem ao menos alguém lhe perguntar
se era aqui que ele queria aterrar
e em verdade vos digo
e à fé de quem sou
que aterrado ficou

Duende rival de Pan


O "Homem do gelo"
De Vasco Costa Marques
Duende rival de Pan
no souto de avelaneiras
ao fim dos velhos carvalhos
na doce cana soando
melancolias de fauno
ecos de vento silvando
trajectos de rudes lanças
de antepassados herança
cálcio que mata mamute
osso que não se discute
e foi encontrar albergue
no avô mumificado
na crista do icebergue


O "Homem do gelo", múmia de um homem morto há 5.300 anos e encontrada congelada nos Alpes em 1991, foi o pretexto para VCM escrever estes versos. Muitas das coisas que escrevia resultavam, como esta, de brincadeiras ou reflexões em torno de noticias que por uma ou outra razão lhe chamavam a atenção.

Há sempre tempo para repensar


De Vasco Costa Marques
Há sempre tempo para repensar
Quando a pedra se acaba a torre recomeça
e milhares de línguas reinventam esperantos
a fogueira na noite a canção sussurrada
a mão reencontrada o cúmplice acordar

Manhã (não Amanhã) a manhã que perdura
de noite para noite se renova
a bem temperada estrofe ritmo inesperado
quem sabe como e quê quem sabe quando

Encanar a perna à rã

De Vasco Costa Marques
Encanar a perna à rã
pode esperar por amanhã ...

Bem sei que a vida no charco
parece que nem avança
mas sem ser Gonçalves Zarco
nenhum mar me dá quebranto
por tanto que o mar é largo
na tormenta e na bonança

Se não dei com porto Santo
não vou por isso às do cabo
não vendo a alma ao diabo
nem vou assentar o rabo
no Endireita da Esperança

Era uma vez em 43

O futuro ergue-se tarde


De Vasco Costa Marques
O futuro ergue-se tarde
deixa sonhar o futuro
quem sabe se ele não há-de
acordar de um outro lado
derrubado um outro muro

O mar veio visitar-me

De Vasco Costa Marques
O mar veio visitar-me
ao hospital
sem hora de visita
ou diagnóstico
penduram-no num frasco
de cabeça para baixo
e rabo para o ar
e chamaram-lhe soro fisiológico

Vasco Costa Marques sofreu dois AVCs. Entre o primeiro e o segundo, de que nunca recuperou totalmente, escreveu e publicou "Algumas trovas de haver o mar" e "venham de lá esses ossos". A "experiência" da doença aparece várias vezes na sua obra, frequentemente com ironia, como é o caso deste pequeno poema.
Na foto, Cecília Costa Marques, sua mulher, na sala de espera do hospital S. Francisco Xavier no dia em que VCM aí deu entrada com o segundo AVC.

E o mar fez-se


De Vasco Costa Marques
E o mar fez-se
quando a primeira nave
ao mar se fez

Tronco de árvore escavado
ou galera de escravos
aventura que rasga
azeite de acalmia...

Quantos ossos são hoje
doce areia
quanto suor salgado
às águas torna...

Quanto do mar é morte
quanto do mar Maria

Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos

De Vasco Costa Marques
Dormir ... dormir ... Duas vezes ao menos
dormi sem perguntar se dormir tem regresso
sem saber em que foz se afundaria o rio
se a moeda teria enfim o seu reverso

Tudo simples tranquilo a beatitude
de um céu estrelado e folhas murmurantes
um fio de água escorrendo no açude
como quem diz “eu espero mais adiante”

Morrer assim é morte sem virtude
Nem dá para caixeiro viajante

No écran da memória o filme corre


De Vasco Costa Marques
No écran da memória o filme corre
De diante para trás
Como acontece dizem a quem morre
E a história nunca faz

Com sete tábuas se faz



De Vasco Costa Marques
Com sete tábuas se faz
uma bateira
com sete mares
um pirata
com que se faz um Onassis
só ele pode saber
quantos tubarões venceu
se foram sete ou setenta
diz-se que sem dar um tiro
Poseidon ri submarino
agente da Lloyd's grega
o capitão das vinte mil léguas
foi chamado para o Tejo
para domar o peixe espada
atómico avariado nos lodos
resistentes
sem contar com a semana
da açorda de marisco
que dá diploma
a quem a faz
se o cliente a come
sem entrar em coma