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Se bem me lembro



"Em Memória"
Pedro Mexia

«Se bem me lembro», dizem,
nemesianamente, mas sem igual facúndia
ou fascinação, para cair apenas
em histórias miúdas, importantes
sem dúvida mas não para quem
as ouve (nós). Memórias em mosaico,
lacunares, de avós com doenças
ou tardes absolutamente de verão
há décadas atrás, com gente que já morreu,
ou a biografia de uma cómoda,
e considerações pouco amáveis sobre uma
foto que se desprendeu do álbum.
Ouvimos, rimos de ironias
estritamente pessoais e etárias,
entendemo-nos como receptores
destas reminiscências inevitáveis,
aborrecidas e centrais,
entendemos mais ou menos
que também havemos de maçar
as «gerações vindouras» com contos assim,
acrescentando pontos e observando,
sem perceber porquê, que os netos
e os sobrinhos parecem achar
banais ou mesmo senis os pormenores
de uma certa manhã, há cinquenta anos atrás,
e sobre a qual, como já fizeram connosco,
não contamos tudo.


Dorso


"O  corpo iluminado"
1987
David Mourão Ferreira

Dorso
terso
morno
denso
Corpo
nu

Horto
Berço
Torso
tenso
Torre
Tu

Desenhos (capa e interior) de  Francisco Simões

No baile em que dançam todos

"Quadras ao gosto popular"
?
Fernando Pessoa


No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

                            4.8.34


Nascemos para amar; a humanidade


Bocage


Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela


"O galo cantou na baía" 
1959
Manuel Lopes

"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela: o embalo, o ritmo de remo de bote num mar docemente ondulado... Mas, de súbito, o guarda estacou. Apurou os ouvidos. Esteve assim suspenso uns segundos, entre a realidade e o sonho.
Nessa breve suspensão, escutou dentro do cére­bro um chocalhar de vozes e ecos. Toi teve a nítida sensação de que emergia do fundo como um pes­cador de pérola; e começou a cantar em voz alta;

«Sê rosto ê sol de nha pobreza
Nha rosto ê ceu que tâ varia;
Se sol bem, ta fazê claréza
Mas s‘el dexó'm, scuro tapâ...»
— Meu Deus! — exclamou Toi. Ficou a principio estupefacto. A quadra era estupenda."
..........
Galo a cantar na baía. Já é madrugada, o sol vem perto. Mas Maria é o verdadeiro sol. E como ela está ausente, a escuridão continua... Vai pensando e trauteando... A segunda quadra sai-lhe inteirinha, numa catadupa de palavras e música, como ribeiro que transbordasse do leito:
«Já canta galo na baía;
Sol câ tâ longe de somâ.
Cuma'm tâ longe de Maria
Scuro tâ continuâ...»

Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.



"Poesia toda"
1990
Herberto Helder

(in Última ciência - 1988)

Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
A visão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
— Constelação ao vento avassalando a casa.

Café do Gelo


"Viagem contra o silêncio"
(1977)
José Carlos Gonzalez

CAFÉ DO GELO
A José Sebag
Regresso ao velho café
aqui ainda se lê sob o olhar do gerente
nas mesas de mármore negro há desenhos muito antigos
à sombra do açucareiro metálico e das moscas
que pousam em citadino rebanho sobre a chávena fria

era um tempo feliz e de esperança e nervos
um tempo de impaciência e sonhos os mais loucos
perto e longe como as miragens extremas
nos extremos desertos da ausência

a chávena de louça
com aresta verde
um bordo minado por dentes
de cariátides precoces
um resto de batôn sabe-se lá que triste
ao centro a lengalenga dos construtores de prédios
e a passagem volátil dos pederastas
pelos flocos de chantilly

era uma outra luz um outro movimento dos espelhos
noites para sair ao longo dos passeios molhados
a ver junto das calhas dos eléctricos
as faíscas azuis e brancas da soldadura autogénia
manipulada por homens de rosto fechado por máscaras
obrigados a debruçarem-se para as raízes dos prédios

regresso ao velho café e as suas novas galas
um fio de trepadeiras sobe pelas escadas
ao cimo as frigideiras de barro estrugem com o bife e o louro

regresso ao velho café com pessoas sentadas
com almas sentadas e o criado velho
chorando as coisas passadas atrás dos bastidores.

Lisboa, Novembro 63

Le dromadaire


(1960)
Apollinaire

LE DROMADAIRE

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d'Alfaroubeira
Courut le monde et l'admira.
II fit ce que je voudrais faire
Si j'avais quatre dromadaires.

O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.


"Retábulo das matérias"
2001
Pedro Tamen

(Olhos e outras coisas)
1
O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.
Corpo só chegada.

Húmus e sumos, calores e abrigos.
Teus olhos, teus perigos.

Lava-cota e fontana. Entremezes
teus dedos às vezes.

Vezes de colores, vezes de colares.
Terrores, sete mares.

Setestrelo também nos olhos abertos
(noites ou desertos),

perfumes, molduras, ronda posição
do braço e da mão

(morna redundância de um nome qualquer:
teu nome é mulher).

Que olhas, que esperas? Será que adivinhas
cidades não minhas?

Meus olhos CP de estação esquecida
(chegada, partida).

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...


(1946)
Mário de Sá-Carneiro

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
— Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caíu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...)

Carlos, sossegue, o amor


(2001)
Carlos Drummond de Andrade
Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Parce qu’en pensant à elle

(Japão Sec. IX)
Ono no Komachi

Parce qu’en pensant à elle
Je m’étais endormi
Sans doute ele m’apparut.
Si j’avais su que c’était um rêve
Je ne me serais certes pas réveillé

In Anthologie de la poésie japonaise classique, Poésie/Gallimard

Que farei no outono quando ardem


"As aves"
1969
Gastão Cruz

Que farei quando tudo arde ?
Sá de Miranda

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,


"De ombro na ombreira"
1969
Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: — Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
— Bem queria, Sr. 0'Neill! E... as varizes?

Aqui estou


"Tempo de heróis"
1961
Alonso Féria

Aqui estou
Errado.. e.. feliz.

Custou

Por um triz
Ia morrendo de velho
Branco.. e.. santo.

Mas aqui estou por fim
Inteiro dentro de mim

"Tempo de Heróis", Colecção Poesia e Verdade - Guimarães Editores - 1961

Era a primeira vez que nus os nossos corpos


"David Mourão-Ferreira ou a mestria de Eros"
de Vasco Graça Moura

Poema de
David Mourão-Ferreira
Praia do Paraíso

Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam

surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez... Cerrados os estores
só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal....E cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo

.Era uma vez um país


"Tempo da lendas das amendoeiras"
1964
José Carlos Ary dos Santos

.....................................Era uma vez um país
...............................................na ponta do fim do mundo
...............................................onde o mar não tinha eco
...............................................onde o céu não tinha fundo.
..................................... ...... ..Onde longe longe longe
......................................... .....mais longe que a ventania
........................................ ......mais longe que a flor da sombra
........................................ ......ou a flor da maresia
........................................ ......em sete lagos de pedra
....................................... .......sete castelos de nuvens
........................................ ......em sete cristais de gelo
........................................ ......uma princesa vivia.

A PRINCESA

Em sete cristais de gelo
nesse país eu vivia.

Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam


Tom Waits
Muriel
Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que eu vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.


"Poesias completas de António Gedeão"
1968
António Gedeão

Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Cão passageiro, cão estrito,


"Noticias do bloqueio - fascículos de poesia" 
1960
Alexandre O'Neill

Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui.
Cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia.
Cão estouvado de alegria,
Cão formal da poesia,
Cão-soneto de ão-ão bem martelado,
Cão moído de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pre-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema !