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Com que então cá estamos de novo
de Vasco Costa Marques
Com que então cá estamos de novoum viva engatilhado na garganta,
a coçar o eczema do povo
esfarrapado-coitado-que canta...
Cá estamos de novo, amigos,
caros adversários natalícios,
enfeitados com a rosa dos perigos,
na espera de toiros dos comícios.
É que amanhã talvez não haja nada
(de Jaguar, aliás, sobe-se bem a liberdade)
e depois do carrascão de dizer camarada
guronsan que se faz tarde.
Mas isso “Era uma vez...”
sem meninos pequeninos
de bibinhos azulinhos
de xadrez
a marchar para o asilo
de mãos dadas três a três.
ABRIL MAIS TARDE
As portas que Abril abriu
foram fechando fechando
Martim Moniz entalado
suor e sonho sangrando
lentamente a sangue frio
Sobe um rastejar de ratos
calmas canoas no rio ?
Moscovo 1976
De Vasco Costa Marques
Moscovo 1976
E a partir de noites tantas
Shérasade
passou a contar estórias
à múmia de Lenine
que dava corda a si própria
disparando um moinho de orações.
Enterrado no chão
detestava o longo formigueiro
com cheiro a tosquia de carneiro
e azeitonas
e o zelador
encharcado em Chanel de “free shop”
da Intourist que trazia o zum-zum
do disse-que-disse
do Kremlin sem falar (que arrepio)
das poções mágicas dos físicos...
Gostava – isso sim – da camarada
do espanador
que lhe limpava o pó
essa cheirava a verde erva
molhada e a maçãs
tudo rural.
Para falar verdade
além do mais
das estórias estava farto
depois de anos e anos
de Politburo...
Ali deitado – sem vagão
sem caminhão
sem pódio –
sentia-se minguar...
*
Ódio – que é ódio?
- um rebuçado seco
num boião de vidro
em lojeca de bairro suburbano
dessas que já nem há...
nem em Sampetersburgo
É o tempo dos lobos
No ultramar está-se
A muitos bastou a solução barata
Maná de cão vagabundo
Memória não é porta giratória
De Vasco Costa Marques
Memória não é porta giratória
em farsa de Oliude
Memória é outra estória não apenas
intriga de rival ou nota falsa
bomba de terrorista mercenário
Pode ser - mas não creio - trampolim
para qualquer Catão fora de prazo
ou hacker trapalhão
pois quando incautamente a compaginas
não mostra ser senão a sombra peregrina
que vem dizer “Ninguém!...”
à porta de serviço
e sabes bem
“ninguém” é sempre alguém
nem que seja o fantasma
que se infiltra na sala
a sacudir dos pés a poeira do Além
a tossir sobre nós ataques de asma
baralhando epopeias de cruzadas
e intrigas templárias
hoje enfim preferindo-se em eventos
de “champanhe francês” e croquetes
com fotos em revistas “jet set”
Memória para ser reconhecida
tal como a lei impunha ao reformado
terá de apresentar prova de vida
senão é fruto chocho é osso oco e serve só
para passar o tempo
enquanto não se joga o dominó
- Ganhar o bife?
Quando a mão de obra

De Vasco Costa Marques
Quando a mão de obra
mete as mãos à obra
que falta?
que sobra?
uma volta à chave
o dedo inquieto
que o raio dispara
o nobre sem sorte
o verdete amargo
na senda (???) da cobra
achada no escombro
pender a cabeça
e não achar ombro
estender a mão
e não achar faca
senão a que corta
a meia torrada
e o café deserto
no peso da tarde
regalo da mosca
no sono do velho
que pediu conselho
por dez mil ou mais
pois tem o cartão
o sessenta e cinco
que comprou depois
de apertar o cinto
Sim Podem encontrar-me
De Vasco Costa Marques

Sim
Podem encontrar-me
à porta da igreja
a pedir esmola a viuvas recentes
e velhas pensionistas
dois anos de mesa de café
agradecendo a bica
de amigos antigos
dizendo "cá vamos indo,
não há-de ser nada,
estou à espera..."
O olhar entre enfadado e desgostoso
o cheiro da miséria a soprar para longe
dois anos a fazer-me encontrado
a mandar Boas Festas a deixar recados
"não posso deixar o número
tem havido avaria, isto hoje os telefones"
mensagens em garrafas
recolhidas porventura na Tasmânia
a pedir seja o que for
a agradecer coisa nenhuma
a informar que vendo horas de escrita
pela tarifa de caboverdianas da limpeza
Agora, pois, podem encontrar-me
à porta da igreja. Um sítio abrigado
um pouco frio, porém. Mas a gente que entra e sai raramente não deixa o seu óbulo (boa palavra esta), às vezes um queque
já sem bicos que o menino chuchou.
Tudo se aproveita.
Às vezes há música lá dentro.
Fotografia
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