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Recuso-me a todos os teus nomes


"Espelho do invisível"
1959
José Terra

Recuso-me a todos os teus nomes,
à tua forma, ao teu encanto, à tua
dúplice presença de egéria ou deusa,
ao teu sorriso capcioso, às unhas

sub-reptícias que sob a porta, à noite,
tentam surpreender-me no obscuro.
Calafeto a casa a lucidez e cerro
os meus ouvidos ao teu canto incerto.

Lá fora zunes sob a pele da noite
com ademanes que não vejo, sinto,
e por dentro de mim sou uma chama

vigilante e voraz que me alumia,
olho raiando as paredes do sono,
intervalo de fogo sobre o tempo.

E tu reapareces a rir com a cabeleira bêbeda


"Vocação animal"
1971
Herberto Helder


E tu reapareces a rir com a cabeleira bêbeda, o ar é uma árvore onde a a estação treme com as folhas depressa, o assunto das colinas torna-se tenebroso e azul, reapareces do fundo radioactivo da ausência, boa-noite, fecho os olhos a essa coisa como entendido pavor, amo esta espécie de algum movimento contra a luz fixa, noite poeira de tabaco e agora o louvor da tua ressurreição, e a primavera é um choque no angélico barro adormecido, e os animais entram no espaço que te segue por toda a parte, e eu desejo regenerar a solidão e o sono, das negras dunas de seus corpos sobem estrelas operárias ferozmente embriagadas, e de novo cerro os olhos com ironia mortal e lentidão humana, eu digo: ela é uma paisagem repentina que se exerce — e agora a paciência devasta a minha vida respiratória como um símbolo, o coração tem sono leve, tu és doce num esquecimento inclinado para trás, boa-noite, e digo: o ar é magnético— tu ris para provar que somos eternos, mas eu sei que a idade se fez milagrosa, e estamos numa imagem voltada perigosamente para o terror e a paixão — a alegria como um princípio teatral, dizes tu, e os animais passam com a flor das cabeças dobrada num perfume forte — as raízes dos cometas cravam as unhas no ar, e tu reapareces.

Ó secreta violência


"Minha senhora de mim"
1971
Maria Teresa Horta

Violência

Ó secreta violência
dos meus sentidos domados

em mim parto
e em mim esqueço

senhora de meu
silêncio
com tantos quartos fechados

Anoitece e desguarneço
despeço aquilo que
faço

Ó semelhança firmeza
mulher doente de afagos

A primeira forma é ainda


"Entre duas memórias"
1971
Carlos de Oliveira
A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas;
mas todas pesam,
elaborando as leis da queda:
e caem; graves; reduzidas
ao espaço do seu peso;
o vôo é o singular abstracto,
melhor, a metáfora das asas,
que subentende coisas
por enquanto sem leis;
mas o plural, os voos, não:
tornam as formas nítidas,
limitam-nas à sua opacidade;
e a cada impulso no ar,
o peso reconduz os corpos
ao início do vôo:
os voos são regressos.

porque se defende


1975
José Viale Moutinho

porque se defende
envolto em pólvora
da seca e do cuidado
do sinal do passo

porque se envolve
do cuidado do passo
se defende do sinal
em pólvora da seca

porque de cuidado
do passo defende
do sinal envolto
em pólvora seca

porque em pólvora
do cuidado seco
passo do sinal
se defende envolto

Tu te couvres tu t'éclaires


1963

Paul Éluard
Tu te couvres tu t'éclaires
Tu t'endors et tu t'éveilles
Au long des saisons fidèles

Tu bâtis une maison
Et ton coeur la mûrit
Comme un lit comme un fruit

Et ton corps s'y réfugie
Et tes rêves s'y prolongent
C´ést la maison des fruits tendres.

Et des baisers dans la nuit

----------
Il ne faut pas voir la réalité telle que je suis

Já nada me interessa. Levanta-te e dá-me vinho!


Omar Khayyam
(Sec. XI)
Já nada me interessa. Levanta-te e dá-me vinho!
Esta noite, a tua boca é a mais bela rosa do universo...
Vinho! Que ele seja rubro como as tuas faces
e os meus remorsos tão leves como os anéis da tua cabeleira.
--------
Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me importa nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.
--------
Silêncio, ó minha dor!
Deixa-me procurar um remédio.
É preciso que eu continue a viver,
porque os mortos não têm memória.
E eu quero rever sem cessar a minha bem-amada.
--------
Numa taberna, pedi a um velho
que me informasse sobre aqueles que morreram.
Respondeu-me:
«Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho!»

Na poesia


"Sobre o lado esquerdo"
1969
Carlos de Oliveira
Lavoisier

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Oh a mulher como é côncava


"As maçãs de Orestes"
1970
Natália Correia

REBIS

Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem

como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!

Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o ouro
na salmoura da mulher mar

como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!

Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!

la chanson d'un dadaiste


Tristan Tzara

Chanson Dada
I
la chanson d'un dadaiste
qui avait dada au coeur
fatiguait trop son moteur
qui avait dada au coeur

l'ascenseur portait un roi
lourd fragile autonome
il coupa son grand bras droit
l'envoya au pape à rome

c'est pourquoi
l'ascenseur
n'avait plus dada au coeur

mangez du chocolat
lavez votre cerveau
dada
dada
buvez de l'eau

II
la chanson d'un dadaiste
qui n'était ni gai ni triste
et aimait une bicycliste
qui n'était ni gaie ni triste

mais l'époux le jour de l'an
savait tout et dans une crise
envoya au vatican
leurs deux corps en trois valises

ni amant
ni cycliste
n'étaient plus ni gais ni tristes

mangez de bons cerveaux
lavez votre soldat
dada
dada
buvez de l'eau

III
la chanson d'un bicycliste
qui était dada de coeur
qui était donc dadaiste
comme tous les dadas de coeur

un serpent portait des gants
il ferma vite la soupape
mit des gants en peau de serpent
et vint embrasser le pape

c'est touchant
ventre en fleur
n'avait plus dada au coeur

buvez du lait d'oiseaux
lavez vos chocolats
dada
dada
mangez du veau

Por não falar correctamente francês


Julho 1957 (Fascículo nº 2)

Mário-Henrique Leiria

Intermédio Parisiense

Por não falar correctamente francês
já muita gente se tem enganado
acerca de viagens
Ao chegarem a Paris
vêem que...... afinal.......a estação
é mesmo a de Estarreja.

Isso não me aconteceu a mim
a mim.......conhecedor de línguas
e de gentes
conhecedor de várias latitudes
mais ou menos habitadas
a mim......que sentado num comboio
não espero que me peçam o bilhete
para saber que vou afanosamente útil
em viagem

Mal lá cheguei
— e já lá vão tantos anos ! —
eu.....que sou viajado
vi logo que estava em Paris
Falei francês como se calcula
(nem outra coisa devem fazer
as pessoas que vão a Paris)
e pediram-me esmola
Dei-a em francês
que para isso me tinham meus pais
mandado à escola

Cosmopolita e informado
visitei com a decência e as maneiras
recomendadas
tudo o que para tal estava
em situação própria
À beira do Sena
— aí a recomendação
é só para Notre Dames —
pediram-me esmola
Dei-a em francês.......evidentemente
que eu falo correctamente francês

Mário Henrique é o nome do autor tal como referido no livro(inho - sem desprimor), mas julgo que posso, sem erro, acrescentar Leiria, atendendo ao estilo e à ironia.

curioso


"A linguagem do gesto"
1974
Pedro Bandeira Freire
ou coisa assim
curioso
ainda hoje existir
à antiga
sem formas definidas
mas com fórmulas definitivas
uns com linguagem teatral que data
do tempo da língua dos descobrimentos
que nós testemunhamos
espectáculo técnico
num certo particular que poderá ser
literário ou mesmo vocabulário
disposto a fazer à vez um mundo
que deu novos mundos ao mundo

ou coisa assim

dizer

......................ridículo
que por cá é o que se sabe
que tudo é dúvida.........que
pela sua ocorrência chegará?


meus senhores
............e minhas senhoras

um assunto a entrar na ordem dos trabalhos
ser ainda gume
o que era curioso
ou coisa assim

Aqui, deposta enfim a minha imagem


"Dia do mar"
1961
Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não p'lo meu ser que só atravessei,
Não p'lo meu rumor que só perdi,
Não p'los incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão


1953
António Plácido de Abreu
POEMA A ZSUZSA

O espasmo culminara em nós a mais profunda comunhão
................................ entre duas almas unidas pelo corpo.
Todas as barreiras de súbito se volveram cinza e destroços
E tudo foi paz intimidade e compreensão naquele mundo
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, de minutos que criáramos.

«Não tenho cigarros, Zsuzsa, esqueci-me dos cigarros...»

Zsuzsa não respondeu.
Dirigiu-se à" caixa onde guardara as relíquias de sua Mãe
............................................................... já morta ...
Uma cigarreira de ouro ... Alguns cigarros velhos ...
Zsuzsa deu-me o menos amachucado.

Lisboa tem suas barcas


Fiama Hasse Pais Brandão

Barcas Novas
En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar.
..............
..............
João Zorro


Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
os homens que levam guerra

Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas

1) Para aqueles a quem não ocorra de imediato o contexto histórico, aqui fica a nota de que à data deste poema, seguramente do início dos anos sessenta, embarcavam em Lisboa os primeiros contigentes militares a caminho da guerra colonial.
2) Embora a capa do livro tenha sido publicada na inserção anterior, aqui fica também a imagem desta página com os nomes dos poetas publicados e dos organizadores da antologia.

a minha idade é triste ou demasiado feliz


"Antologia de poesia universitária"
1964 
Eduardo do Prado Coelho

Algumas Notas Explicativas de uma Geração

a minha idade é triste ou demasiado feliz
é brutal como os gritos no cais e açucarada nos cafés
e não sabe que uma chávena de café vale três sacos
sobre o tronco esgarçado dos carregadores
(isto disse-me uma rapariga mas mudámos de assunto
porque talvez começasse a chover e houvesse
dias frios no começo da semana)
a minha idade não é de oiro ou heróis ou pedras de sal
nem de terra ou feno ou ferro
nós homens de ferro forjado!
(assim escreveu o mais poeta dos meus amigos)
nós barqueiros navegantes humildes caminhantes
de rumos insondáveis e antigos e na palma das mãos
ou na arena do peito temos gravados roteiros e astrolábios
os instrumentos da viagem mas não há viagem
há seco areal e falta de alimentos
há ainda as modernas latitudes as ilhas submersas
e os mapas cobertos de um bolor cor de brasão
mas temos a cinza duma esperança esperança ainda mole
que nos embala como um berço derrubado é triste
é triste a minha idade: há nela as sílabas ácidas da morte

mas gostamos dos nós flexíveis nos cabelos das raparigas
e lemos Éluard Aragon os cantos de Neruda os versos fraternais
e temos amigos todos os meus amigos são amigos
porque um dia me reconheceram e com eles
repetimos as primeiras palavras
as mais puras e corajosas e gostamos de amar
e acreditamos na lúcida alegria das palavras justas

Criei a alma. A vegetação de países


"A noção de poema"
1972
Nuno Júdice

OUTONO
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.

As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.

Europa 1946

1946
Adolfo Casais Monteiro
EUROPA, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda,
nações com seu riso franco
abertas de par em par!

............

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-de ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!
Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livres modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar!

..................

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Renascerás, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre as nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
dos cofres digerindo o sangue do rebanho
— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

Capa de António Dacosta

(Publicado meses depois de terminada a guerra, aqui colocado semanas depois das eleições europeias. Apenas, porque sim.)

Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)


"DISCURSO 
sobre a reabilitação do real quotidiano"
1952
rio Cesariny de Vasconcelos


Eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
— fumar, quere-se dizer.

Esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro com versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável.

O Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(Que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas dos outros)
Aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).
Sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
— Antes andar por ai relativamente farto
antes para tabaco que para Cesariny
(Mário) de Vasconcelos

Li no jornal:


"Cantigas da dúvida e do perguntar"
(Edição da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa)
1970
José Fanha


Questão de palitos

Li no jornal:
                       "Os palitos portugueses
são os mais bem afiados do mundo"

Já pude dormir descansado