Mostrar mensagens com a etiqueta Das estantes de Vasco Costa Marques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Das estantes de Vasco Costa Marques. Mostrar todas as mensagens

Dorso


"O  corpo iluminado"
1987
David Mourão Ferreira

Dorso
terso
morno
denso
Corpo
nu

Horto
Berço
Torso
tenso
Torre
Tu

Desenhos (capa e interior) de  Francisco Simões

No baile em que dançam todos

"Quadras ao gosto popular"
?
Fernando Pessoa


No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

                            4.8.34


Nascemos para amar; a humanidade


Bocage


Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela


"O galo cantou na baía" 
1959
Manuel Lopes

"Percebia apenas nessa música o que era primitivo nela: o embalo, o ritmo de remo de bote num mar docemente ondulado... Mas, de súbito, o guarda estacou. Apurou os ouvidos. Esteve assim suspenso uns segundos, entre a realidade e o sonho.
Nessa breve suspensão, escutou dentro do cére­bro um chocalhar de vozes e ecos. Toi teve a nítida sensação de que emergia do fundo como um pes­cador de pérola; e começou a cantar em voz alta;

«Sê rosto ê sol de nha pobreza
Nha rosto ê ceu que tâ varia;
Se sol bem, ta fazê claréza
Mas s‘el dexó'm, scuro tapâ...»
— Meu Deus! — exclamou Toi. Ficou a principio estupefacto. A quadra era estupenda."
..........
Galo a cantar na baía. Já é madrugada, o sol vem perto. Mas Maria é o verdadeiro sol. E como ela está ausente, a escuridão continua... Vai pensando e trauteando... A segunda quadra sai-lhe inteirinha, numa catadupa de palavras e música, como ribeiro que transbordasse do leito:
«Já canta galo na baía;
Sol câ tâ longe de somâ.
Cuma'm tâ longe de Maria
Scuro tâ continuâ...»

Café do Gelo


"Viagem contra o silêncio"
(1977)
José Carlos Gonzalez

CAFÉ DO GELO
A José Sebag
Regresso ao velho café
aqui ainda se lê sob o olhar do gerente
nas mesas de mármore negro há desenhos muito antigos
à sombra do açucareiro metálico e das moscas
que pousam em citadino rebanho sobre a chávena fria

era um tempo feliz e de esperança e nervos
um tempo de impaciência e sonhos os mais loucos
perto e longe como as miragens extremas
nos extremos desertos da ausência

a chávena de louça
com aresta verde
um bordo minado por dentes
de cariátides precoces
um resto de batôn sabe-se lá que triste
ao centro a lengalenga dos construtores de prédios
e a passagem volátil dos pederastas
pelos flocos de chantilly

era uma outra luz um outro movimento dos espelhos
noites para sair ao longo dos passeios molhados
a ver junto das calhas dos eléctricos
as faíscas azuis e brancas da soldadura autogénia
manipulada por homens de rosto fechado por máscaras
obrigados a debruçarem-se para as raízes dos prédios

regresso ao velho café e as suas novas galas
um fio de trepadeiras sobe pelas escadas
ao cimo as frigideiras de barro estrugem com o bife e o louro

regresso ao velho café com pessoas sentadas
com almas sentadas e o criado velho
chorando as coisas passadas atrás dos bastidores.

Lisboa, Novembro 63

Le dromadaire


(1960)
Apollinaire

LE DROMADAIRE

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d'Alfaroubeira
Courut le monde et l'admira.
II fit ce que je voudrais faire
Si j'avais quatre dromadaires.

O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.


"Retábulo das matérias"
2001
Pedro Tamen

(Olhos e outras coisas)
1
O teu corpo, o teu corpo é sem estrada.
Corpo só chegada.

Húmus e sumos, calores e abrigos.
Teus olhos, teus perigos.

Lava-cota e fontana. Entremezes
teus dedos às vezes.

Vezes de colores, vezes de colares.
Terrores, sete mares.

Setestrelo também nos olhos abertos
(noites ou desertos),

perfumes, molduras, ronda posição
do braço e da mão

(morna redundância de um nome qualquer:
teu nome é mulher).

Que olhas, que esperas? Será que adivinhas
cidades não minhas?

Meus olhos CP de estação esquecida
(chegada, partida).

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...


(1946)
Mário de Sá-Carneiro

Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro de oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
— Hoje a luz para mim é sempre meia-luz...
As mesas do Café endoideceram feitas ar...
Caíu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...)

Carlos, sossegue, o amor


(2001)
Carlos Drummond de Andrade
Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Quand je ne serai plus,

(Japão, início Sec. XI)
Izumi Shikibu
Quand je ne serai plus,
Pour avoir dans un autre monde
Un heureux souvenir
Je voudrais une fois encore
Te rencontrer aujourd'hui

Parce qu’en pensant à elle

(Japão Sec. IX)
Ono no Komachi

Parce qu’en pensant à elle
Je m’étais endormi
Sans doute ele m’apparut.
Si j’avais su que c’était um rêve
Je ne me serais certes pas réveillé

In Anthologie de la poésie japonaise classique, Poésie/Gallimard

Que farei no outono quando ardem


"As aves"
1969
Gastão Cruz

Que farei quando tudo arde ?
Sá de Miranda

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Fácil


José Augusto Seabra
Fácil
é desprender as mãos numa carícia
e largá-las num longo esvoaçar
de dedos.
Fácil
é esquecer os olhos num
inesperado rosto.
Fácil
é a graça do fruto que
colhido
se abandona, húmida polpa
e sumo.

Mas fácil
mais fácil é somente reclinar
o gesto
e acordar-te.

Qual tem a borboleta por costume


Qual tem a borboleta por costume,
que, enlevada na luz da acesa vela,
dando vai voltas mil, até que nela
se queima agora, agora se consume,

tal eu correndo vou ao vivo lume
desses olhos gentis, Aônia bela ;
e abraso-me, por mais que com cautela
livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
o quanto se levanta o pensamento,
o como vou morrendo claramente;

porém, não quer Amor que lhe resista,
nem a minha alma o quer, que em tal tormento,
qual em glória maior, está contente.

Disse Inês que me queria


(1940)
Francisco Rodrigues Lôbo
Disse Inês que me queria
No tempo que me enganava;
E eu queria, ela zombava.

Deu-me mostras e sinais
Que me amava de verdade,
Cativou minha vontade
Para assim querer-lhe mais;
Cuidei que eram naturais
Os extremos que mostrava,
E eu queria, ela zombava.

Era de mim tão contente
Que assim mesmo tinha inveja,
Que o que muito se deseja
Logo se crê facilmente;
Logo ela era tão diferente
Que em tudo o que me tratava
Eu queria, ela zombava.

Foi-me assim, zomba zombando,
Vencendo por graça e riso;
Sem nunca me amar de siso,
O siso me foi tirando;
Fiquei doido, como quando
Pelo amor, que me mostrava,
Eu queria, ela zombava.

Diziam-me os guardadores:
— Olha ora por ti, Joane,
Deixa Inês e não te engane,
Que ela tem outros amores. —
Cuidavam que eram melhores
Os que comigo tratava:
E eu queria, ela zombava.

Conheço uma cidade


"Sentimento do tempo"
1971
Giuseppe Ungaretti


SILÊNCIO

Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento

Cheguei lá quase à noite

No coração durava o ruído
das cigarras

Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abraço de lumes no ar indeciso
suspensos

através da fina divisória


"Poemas escolhidos de Samuel Becket"
1970
Samuel Beckett

ASCENSÃO

através da fina divisória
nesse dia em que um filho
pródigo à sua maneira
voltou para a família
oiço uma voz
que comovida comenta
a taça do mundo em futebol

demasiado jovem como sempre

ao mesmo tempo pela janela aberta
pelos ares simplesmente
secretamente
o marulhar dos crentes

o seu sangue esguichou com abundância
sobre os lençóis sobre ervilhas-de-cheiro sobre o seu queridinho
saindo dos seus dedos repulsivos
depois cerrou as pálpebras
sobre os olhos enormes verdes espantados

ligeira
divagando
sobre o meu túmulo de ar

Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,


"De ombro na ombreira"
1969
Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: — Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
— Bem queria, Sr. 0'Neill! E... as varizes?

QUERERIA saber se a vida também vos pesa


"Vida terrena"
1966
Félix Cucurull

QUERERIA saber se a vida também vos pesa
sobre os ombros. Se os vossos anseios
doem como um peso inútil ou vos levam à esperança.
Se perdidos entre enigmas mendigais às estrelas

uma resposta e sois, em permanente fuga
de vós próprios, eternos peregrinos
desnorteados, tacteando a poeira dos caminhos
buscando em vão a voz insistente que vos chama.

Saber se nas vossas noites o pálido clarão
da existência terrena terá cores de fábula,
e vos enche o peito com um leve tremor

chamejante que vos incendeia as palavras.
Saber se a vossa angústia procura no nosso horizonte
o afago dalgum mito que torne a dor mais suave.

(Tradução de António Macedo com a colaboração de Carlos Oliveira)

No nosso prédio


"Antimundos"
(1970)
Voznessenski

ANTIMUNDOS

No nosso prédio
mora o vizinho Bukachkine,
que usa cuecas cor de mata-borrão.
Mas sobre ele — como balões no espaço —
flutuam Antimundos!

Há neles um mágico, pior, há um diabo
que governa o mundo:
Antibukachkine, o académico
que dá beliscões às Lollobrigidas!

Mas o Antibukachkine sonha
visões cor de mata-borrão.

Vivam os Antimundos!
Maravilhas — no meio do que não presta!
Sem estupidez não há inteligência,
não há oásis sem haver Karakum!

Não há mulheres —
existem anti-homens.

E as antimáquinas praguejam nas florestas.
A terra produz sal. A terra produz estrume.
E morre o falcão sem a serpente.

Amo os meus críticos.
No pescoço nu e perfumado
de um deles
brilha uma anticabeça!...

... Gosto de dormir com as janelas abertas
e ver brilhar, algures, uma estrela cadente
e os arranha-céus — suspensos
da barriga do espaço
como estalactites.

E por baixo de mim
cabeça ao contrário
espetando um garfo na barriga do mundo,
vives tu, doce borboleta indiferente,
meu pequeno antimundo!

Porque será que, a meio da noite,
se encontram os antimundos?

Porque se sentam eles, aos pares,
a ver televisão?

Nem duas frases
trocam entre si.

Sentados e já sem etiquetas
(e por isso irão sofrer mais tarde!)
com as orelhas em fogo...
como borboletas.

... Um orador meu conhecido
dizia-me ontem:
«Antimundos ? Ninharias!»

Durmo e viro-me na cama,
pensando, sonolento,
na razão da inteligência científica...

O meu gato é como um receptor
e capta o mundo com os seus olhos verdes.
1961

(Versão de Amando da Silva Carvalho, feito sobre tradução directa do russo de Clara Schwarz da Silva)