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Os anos passam

De Vasco Costa Marques
Os anos passam
felizes... infelizes

Círcuclos estreitos
traçam, retraçam

Fome
cansaço
filhos
varizes

O rosto esquivo ri do rosto esquife.

De Vasco Costa Marques
O rosto esquivo ri do rosto esquife.
E uma velhinha morre, um herói endurece,
uma moça solteira e prenhe desfalece,
um romancista vai pra Tenerife.

E há o caso do Rhur, há o caso do Rife,
e o da bomba «lavada» que arrefece,
e o poeta que diz que não é desses
só porque pode dar chatice.

Muito cumprimentado, aliás, o poema «If»,
na Casa do Pessoal, dignamente, apodrece,
e o modelo Packard para o ano adormece
sempre a pensar no preço CIF.

E, claro, amor, a nossa carolice
não espera nunca que o mau tempo cesse:
vamos de mãos nas mãos, correndo... e a gente aquece
e ri-se.

Não esqueçamos as leis da gravidade

De Vasco Costa Marques
Não esqueçamos as leis da gravidade
só porque o céu, um dia choveu bombas.
Quem fecunda a cidade
se a odeiam as sombras?

O ódio cresce da razão de tê-lo,
e tê-lo é já razão de aniquilá-lo.
Não troquemos o sol pelo
calor de disputá-lo.

Traz tanto ódio dentro o vagão do amor,

De Vasco Costa Marques
Traz tanto ódio dentro o vagão do amor,
tanto tédio alimenta a raiz da alegria,
que é natural, amor, que a tristeza demore
sobre o nosso telhado, uma nuvem sombria.

Nem um dia sequer, nem no dia mais negro,
se encerrou para nós a janela da esperança:
era impossível ser, com tantos olhos, cego,
e, tendo tantas mãos, perder a confiança.

Mas vem sempre atrasada a palavra devida:
tão agreste este chão, tão fechado este céu...
que «é noite!» diz por vezes a canção, e a vida,
vai a estrofe no meio, amanheceu.

Ama-me como os pobres, vem despida

De Vasco Costa Marques
Ama-me como os pobres, vem despida
de toda a exigência.
Já temos tanto imposto nesta vida !...

O que de amor criarmos nos pertence
como o ar, respirado e individido,
como o morrermos voluntariamente
por um sonho que é, noutros só, cumprido.

Na manhã de cair nas minhas mãos em concha

De Vasco Costa Marques
Na manhã de cair nas minhas mãos em concha
a certeza concreta do primeiro fruto,
o grito da tua boca
há-de dormir conchegado
pelo calor dos meus lábios.

E hei-de vestir o teu corpo
dolorido, ensanguentado,
com a folhagem mais verde
e mais macia do prado,

que só para ti, amiga,
meu campo foi semeado.

O nosso amor, amiga, é como uma criança

De Vasco Costa Marques
O nosso amor, amiga, é como uma criança
que estende para a luz uns vagos gestos raros,
mas tem, a arder nas mãos, dez unhas de esperança,
e uns olhos cor de mar, incrivelmente claros.

Das tuas quatro estações

De Vasco Costa Marques
Das tuas quatro estações
fiz o mar e fiz um porto:
tens o acre dos limões
e todo o mel no teu corpo.

Dispersam-me os teus cabelos,
nos teus braços me prolongo,
ardo e em pura chama alongo-me
aos teus encontros mais belos.

Percorro-te a meu prazer,
nas tuas águas me lavo,
foi-se o tempo quer-não quer
de vivermos separados.

Não tem o dia a medida
das montanhas do mistério:
vens e vais, sou percorrida
estrada do teu império.

Não nos deixemos ir assim tão cedo

De Vasco Costa Marques
Não nos deixemos ir assim tão cedo
no esquecimento de que somos breves.
Antes o frio do medo,
se o medo obriga ao passo que se deve.

Nunca o poema ganha o que persegue :
ponte sempre cortada antes da margem,
a única alegria que lhe serve
é o riso a que serve de passagem.

Trazes a mesma saia há quatro anos,

De Vasco Costa Marques
Trazes a mesma saia há quatro anos,
mas o sorriso afasta os teus cabelos
tão docemente...
e desce à toalha fina dos teus seios
como um longo cabelo desprendido.

Aterrar, espantar, amedrontar,

De Vasco Costa Marques
Aterrar, espantar, amedrontar,
corromper, compelir, impor, forçar,
iludir, perverter, desvirtuar,
cuspir, espezinhar, escravizar,

embrutecer, escarnecer, violar,
humilhar, desprezar, vilipendiar,
agredir, explorar, aprisionar,
mentir, espoliar, arruinar,

bater, envilecer, atrofiar,
desiludir, rasgar, atraiçoar,
extorquir, subverter, desbaratar,

atrair, investir, encurralar,
ignorar, abortar, assassinar...
É da gente que estamos a falar.

Ocultámos o amor como a falta de um dente

De Vasco Costa Marques
Ocultámos o amor como a falta de um dente
o que tornou ridículo o sorriso.

Quase é suicídio o tê-lo entre a gente,
ofendendo os trigais do paraíso.

Dissemos chave e o som foi de uma porta

De Vasco Costa Marques
Dissemos chave e o som foi de uma porta
completando a espessura da muralha.

Ave que vai voando e já vai morta…

Com que novas palavras amaremos,
se já não há silêncio que nos valha,
nem nos encontra a língua que sabemos?...

Por que exiges o amor de uma escova de dentes?

De Vasco Costa Marques
Por que exiges o amor de uma escova de dentes?
Nem virás a saber o sabor de outros lábios.
Certo, afinal, é ver que estamos doentes.

Mas já que imaginámos tantos astrolábios
para vogar no céu daqui a dois mil anos,
saibamos conquistar, humanos ratos, sábios,
a escuridão dos canos.

Mãe, o Cristo-Rei não se come?

De Vasco Costa Marques
Mãe, o Cristo-Rei não se come?
Não, filho, não come não:
o Cristo-Rei é do patrão.

Mãe, o Padrão não se come?
Não, filho, não come não:
o Padrão é do patrão.

Mãe, e se o Cristo-Rei
fosse um grande Bolo-Rei! ?
Dorme, filho, dorme, dorme:

enquanto se dorme não se tem fome.

A juventude é o gás propulsor dos negócios,

De Vasco Costa Marques
A juventude é o gás propulsor dos negócios,
sobretudo aliada ao tacto comercial
e a boas relações no Governo: os meus sócios
só os recrutarei na geração actual.

Preciso é sangue novo e um pouco de ideal
que o ramo alimentar é quase um sacerdócio
(para mais num país inculto como o nosso...),
mas não vinha de mais um certo capital

dado que, ultimamente, o crédito bancário
tem vindo a rarear e a nova indústria alemã
faz séria concorrência à norte-americana,

base da empresa actual. Trate de ver se aplana
a venda do amendoim; fale ao sub-secretário...
ele adora esse seu sorriso à Cary Grant.
"Importação-Exportação"

Há um grave problema a resolver: existe

De Vasco Costa Marques
Há um grave problema a resolver: existe
«cod liver oil» em «stock» que o mercado não escoa,
e, ou a Firma coloca este excedente ou a
fábrica encerrará se a situação subsiste.

Observe-se, porém, que a crise da lavoura
levou à criação de um Fundo de Assistência,
e mais de um deputado aludiu às carências
que grassam nas regiões gramino-produtoras.

Surge, pois, oportuna a suplementação
das camadas rurais com vitamina D,
prevenindo o desgaste humano da Nação,

salvando-a da fatal degradação biológica.
O Director-Geral, que é homem nosso, vê
o alcance desta acção à base sociológica.
"Importação-Exportação"

Sabe lá quanto custa a transigência

De Vasco Costa Marques
Sabe lá quanto custa a transigência
a esta exploração! É indecente!
E uns merceeirões, de uma insolência...
Um licenciado em História às ordens desta gente!.

O ordenado, sim, compensador
(e vou fazendo o mínimo possível)
mas há que aparentar, é um horror,
uma alienação — percebe-me? — terrível!

Nem sequer meti férias este ano:
surgiram-me uns programas na T. V.
(que aceitei com licença da Gerência),

culturais, com um fundo de piano,
e nada maus ao cabo. Pois, você
passe quando quiser... Não há urgência.
"Importação-Exportação"

O futuro é um criado esguio

De Vasco Costa Marques
O futuro é um criado esguio
sempre a limpar a mesma mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

Não ligue bóia. Comer, beber...
a ordem manda ir a compasso.
Chupa seis meses para aprender:
a ordem manda ir a compasso...

Por que não pensa em emigrar?
United States... Venezuela...
Dinheiro à bruta... e viajar...
United States? Venezuela?

No fim do mês. Nem mais um dia!
E por que não jogos de azar?
Tente a roleta, a lotaria.
Sim, por que não jogos de azar?

Com essa idade já quer emprego?
Levante a saia. Mostre-me o seio.
Então, às dez, Bar do Morcego...
Levanta a saia. Dá cá o seio.

Domingo, e sábado a tarde inteira,
a desmontar e a montar motores...
Vou entreter-me até sexta-feira
a desmontar e a montar motores.

Um pé de meia, um capital...
Prédio de renda... belas pantufas
Nem que me venda, «ca m'est égal!»
Prédio de renda... belas pantufas...

O futuro é um criado esguio
Sempre a limpar a mesma a mesa.
Não tem fregueses. Café vazio...
Sempre a limpar a mesma mesa.

O petróleo do Iraque

De Vasco Costa Marques
O petróleo do Iraque
comprou um quadro de Braque
regou-o de bom conhaque
meteu-o dentro de um fraque
e o fraque num cadilaque
Ai que será que será que
acontece ao bricabraque
quando a clique fizer CLAC

"Abracadabra"