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Peixe voador

De Vasco Costa Marques
Peixe voador
optou pelo mar
mas sente saudades
sem saber de quê
até sem saber
se se quer lembrar
a nadar no vento ...
a voar no mar ...


O sono de Outono

De Vasco Costa Marques

O sono de Outono
um fino assobio

a língua de prata
a ponta de um corno

na menina do olho
o frio da faca

o barco no porto
o morto de borco

por uma unha negra


O mar mar de pescar

De Vasco Costa Marques

O mar mar de pescar
quase não há
Um destino de dor e de paixão
pão de pedra da fome
enreda lentamente o pescador
lentamente o consome

E face a esta morte anunciada
ao Velho do Restelo só lhe resta
pegar no seu bordão e na sacola
e ir pedir reforma antecipada
que para ele decerto
é coisa ainda mais amarga
do que pedir esmola


Martinho tinha o mar


De Vasco Costa Marques
Martinho tinha o mar
na ideia e no corpinho
Nasceu ou foi por assim dizer
nado a nadar
desde o amniótico
à àgua do alguidar
e à pia de água benta
onde o foram lavar
depois do grito de Ipiranga
onde atestou a sua zanga
e a determinação
em sobrenadar
nesta parcela do sistema solar
onde o tinham lançado
sem ao menos alguém lhe perguntar
se era aqui que ele queria aterrar
e em verdade vos digo
e à fé de quem sou
que aterrado ficou

O mar veio visitar-me

De Vasco Costa Marques
O mar veio visitar-me
ao hospital
sem hora de visita
ou diagnóstico
penduram-no num frasco
de cabeça para baixo
e rabo para o ar
e chamaram-lhe soro fisiológico

Vasco Costa Marques sofreu dois AVCs. Entre o primeiro e o segundo, de que nunca recuperou totalmente, escreveu e publicou "Algumas trovas de haver o mar" e "venham de lá esses ossos". A "experiência" da doença aparece várias vezes na sua obra, frequentemente com ironia, como é o caso deste pequeno poema.
Na foto, Cecília Costa Marques, sua mulher, na sala de espera do hospital S. Francisco Xavier no dia em que VCM aí deu entrada com o segundo AVC.

Com sete tábuas se faz



De Vasco Costa Marques
Com sete tábuas se faz
uma bateira
com sete mares
um pirata
com que se faz um Onassis
só ele pode saber
quantos tubarões venceu
se foram sete ou setenta
diz-se que sem dar um tiro
Poseidon ri submarino
agente da Lloyd's grega
o capitão das vinte mil léguas
foi chamado para o Tejo
para domar o peixe espada
atómico avariado nos lodos
resistentes
sem contar com a semana
da açorda de marisco
que dá diploma
a quem a faz
se o cliente a come
sem entrar em coma

Toda a vida procurou a árvore das patacas


De Vasco Costa Marques

Toda a vida procurou
a árvore das patacas
mesmo patacas baratas
patacas de bolo rei
mas nem isso mas nem isso
quando apetite exigia
uma de ovos com chouriço
por má sorte ou por feitiço
vinham camarões guizados
ali em cima da draga
cozinhados pelo guarda
na velha doca do pinho
gasosa a cortar o vinho
enquanto a noite se atarda
à procura de destino

Peixe gato

De Vasco Costa Marques
Peixe gato
não consta
que alguma vez
comesse rato

mas também
não sei bem
se alguma vez
o vi no prato

nem mesmo
na casa da vizinha
que dizem não há bicheza
que lhe escape
da cozinha

Mar de Tormentas planas

De Vasco Costa Marques
Mar de Tormentas planas
mar voraz
os afogados pendem de oliveiras
e o branco dos cascos sempre inertes
lembram algumas estrofes de Luís Vaz
na calma
cardos flutuam
como sargaços no ar que ondula
quase escondem monstros e sereias
a fome e a sede estreme
em pão e água
eucaristia magra
sem conduto
de um deus amnésico
que criou o Alentejo
sem porquê se lembrar julgando
agora que talvez
talvez que haja virtude
nas miragens de mar
com que se ilude

As águas desceram o monte

De Vasco Costa Marques
As águas desceram o monte
invadiram o cemitério
desenterraram os mortos
e levaram-nos para outras navegações
muitos nunca tinham visto
o mar ao vivo

As águas turvam
o voo das aves

O casal de septuagenários

De Vasco Costa Marques
O casal de septuagenários
não abandonou a aldeia
diz que foi da barragem
diz que foi do gás natural
diz que foi do arranque da vinha ...
A verdade é que a aldeia
ficou como um cemitério de granito
com o casal repetindo
os gestos quotidianos
uma caixa de fósforos vazia
sem memória de lume
o gato foi atrás de pássaro
e não voltou
a cabra secou
era uma cobra José era uma cobra
o fim repele
o princípio do mundo
o que vale é que o monte
ainda não resvala
e em casa não precisam
de bengala

É difícil olhar

De Vasco Costa Marques
É difícil olhar
é difícil ouvir
é difícil pensar
é difícil dormir

é difícil não estar
é difícil não ir
é difícil optar
é difícil agir

é difícil passar
sem queimar os navios
é difícil amar
quando estamos vazios

é difícil não dar
é difícil pedir
Ai as portas prò mar
e o pavor de as abrir...

Não se fala de amor em línguas mortas

De Vasco Costa Marques
Não se fala de amor em línguas mortas
Não se consegue a lua rastejando
Não tens amigos se fechares as portas
Não há cravos se os fores arrancando

Não se constrói a força abandonando
As armas conquistadas a vitória
Não se faz o futuro regressando
Ao buraco que temos na memória

Não se avivam as tardes de vermelho
Com demãos de betume e tinta preta
Não se acende a manhã com papéis velhos
Não se chega sem ir em linha recta

Ressoa a ponte sob os pés que leva

De Vasco Costa Marques

Ressoa a ponte sob os pés que leva
E deles já de súbito ferrugem
Um sono gordo de poeira e esperma
Pesa ainda nos olhos que ressurgem

Não se inaugura a vida. Qual esperança
de por encanto se mudar de pele ...
Surfar exige ter os pés na prancha
E ser-se a própria onda que a impele

O mar não tem volta

De Vasco Costa Marques
O mar não tem volta
na ponta o mar aponta
sempre para outro lado
mar é só amar e ir
e o mais não conta
por mais de rosas seja
ou mais salgado

Todo o mar que se presa
não é lago

A pele cresta as mãos. A cada instante,

De Vasco Costa Marques
A pele cresta as mãos. A cada instante,
é preciso acertar os olhos no crepúsculo
O cotão invadiu os olhos e os músculos
Frustrou-se a gravidez do deus mutante

Uma cadeira rangedoira, um dente
cortando gravemente a carne mole ...
um pedaço de pão que está pendente
do fotão que não vem de nenhum sol

Aprender os impulsos de outra língua,
aprender a prudência do presente
papiros quebradiços, Índia a Índia
Comidos por camelos e serpentes

Não vinga neste chão o que se vinga

Aprender que futuro não dura sempre

Sentado no pontal olhava o rio

De Vasco Costa Marques
Sentado no pontal olhava o rio
ao sol ardia um peixe de cimento
começava a contagem negativa

A água de Juvêncio foi cortada
por falta de pagamento
Em que dia em que terra
importa tanto assim
o lugar e o tempo

Um lagarto fitou-o por momentos
logo continuou sua caçada pobre

O gigante Adamastor

De Vasco Costa Marques
O gigante Adamastor
tinha um feitio danado
malcriado macambúzio
não se podia aturar

Vai Neptuno e castigou-o
tornando o gigante surdo
às melodias do mar

Por isso o pobre gigante
não larga de mão um búzio
que diz ele é a maneira
de ouvir sereias cantar

Lá para trás do muro

De Vasco Costa Marques
Lá para trás do muro
há uma poça
e na poça
há um sapo cantador
que já foi príncipe em Espanha
com paço em Valadolid
ou talvez em Gibraltar
que sempre é porto de mar

Nos cais há sonhos assim
à espera da maré alta
que afogue o longo tormento
e os leve para o mar
que é sonho de qualquer sapo
ou do príncipe mais guapo

com paço em Valadolid
ou será em Gibraltar

Há mares e mar

De Vasco Costa Marques
Há mares e mar
e falta de ar
que quase dá
quase não dá
para voltar
Se de tal se salve
então talvez volte
para a casa que cai
p'ró caldo entornado
e para o bivalve
de lodo marado
que será a sorte
de uma outra morte
que não cause pânico
(tanto) e meta hospitais
senhoras de branco
medindo a tensão
dando a injecção
e maternalmente
e maquinalmente
dizendo "Tá bem?"
dizendo "Oh meu Deus!
Esqueci-me do soro"
e nós mortos já
não só mas também
dançando ao jará
revirando o olho
esticando o pernil
a bater a bota
escavando no esgoto
a subir ao céu
mas se for Inverno
ou se fizer frio
descendo ao Inferno
reino reinadio
que na papeleta
não marca dieta
nem põe restrição
ao tal et coetera